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2053, em algum lugar entre Cafayate e Praia do Espelho

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
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23/09/2015
2053, em algum lugar entre Cafayate e Praia do Espelho
Foto: Alex C. Serafini

Tenho, com toda a certeza, receio pleno do que me atreverei a dizer nestas poucas linhas. Cada palavra sobre o que penso agora me faz gelar por dentro. Entrei em minha casa e fiz por onde não acender as luzes.

Quero ser furtivo, permanecer oculto, não quero que me percebam. Horas atrás ouvi coisas impensáveis até o dia de hoje e não sei, de fato, se me arrependerei ou não. Nem mesmo longe delas meus sonhos mais loucos passaram. E ouvi com tanta atenção que nem pisquei, para que nada se perdesse entre a loucura, o ceticismo e o medo.

Meu infeliz ofício e do qual não posso me furtar, neste momento, é relatar o que me chegou sem que eu pedisse e que, muito além da minha insignificante vontade, poderá significar a radical transformação do mundo como o conhecemos.

Estávamos reunidos em um pequeno paiol mal iluminado, encurralado entre a sede do sítio, as figueiras centenárias junto ao riacho e as laranjeiras. Este foi o lugar mais afastado da cidade que encontramos e ao qual pudéssemos chegar sem causar alarde. Um a um, navegando suas bikes customizadas, meus amigos chegaram ao encontro indicando a senha que fora marcada através de milimétricos bilhetes, trocados entre abraços ao final da reunião dos Mensageiros das Esquinas, nosso encontro semanal de bike couriers. 

Após a chegada do último membro, aguardamos ainda mais alguns minutos na esperança de ter a certeza de que não havíamos sido seguidos. Enquanto entreolhávamo-nos, o silêncio ficava ainda mais profundo, interrompido tão somente pela respiração ofegante do confrade que havia, a alguns segundos, se juntado ao grupo. Os rostos, sem exceção, estavam estupefatos, aturdidos, perplexos. O suor gélido marcava o semblante de um e de outro, pois guardar parte de um segredo sem compreendê-lo em sua totalidade é uma tarefa para mentes fortes.

O segredo, em sua íntegra, conheceríamos ali, por primeira vez e naquele instante. Cada um havia recebido, nos tais bilhetinhos, poucas frases desconexas de um quebra-cabeças que deveria ser montado naquele lugar, longe das mídias e das conversas. A escolha por enviar as partes do segredo em pedaços de papel se deve ao fato que ninguém “hackeia” papéis amassados, e também, para que nenhum de nós soubesse do segredo completamente. Éramos em quinze jovens, cada qual com sua história de vida, profissão e conjunto de experiências. Tínhamos pouco tempo, então, alguém havia de começar a expor a parte do segredo que guardara. 

Intempestivamente, o mais jovem entre nós (que não direi o nome por motivos óbvios), levantou a mão e, lentamente, retirou do bolso do anoraque surrado um papelzinho amassado nervosamente. Trêmulo, disse com a voz parecida a um sussurro: “Haverá de mudar toda a lógica humana. Tomará as ruas. Sulcará a terra em busca de alimento”. 

Parecia ser possível ouvir o som das mentes trabalhando, ao buscar entender a soma das frases ditas segundos atrás. Antes que qualquer raciocínio mais complexo pudesse ser emanado, outro de nós, porém, irrompeu ao ler o papel que recebera: “Estará em todos os lugares. Não haverá obstáculo. Seu som será ouvido em qualquer canto”.

Ficava, a cada minuto, mais entranhado resolver o teorema. E na sequência, um a um, meus confrades expuseram a parte do segredo que lhes cabia. Uns liam pausadamente, como se estivessem fazendo um cálculo ou uma oração. Outros, afobados, proferiam as palavras tão rapidamente que era necessário repeti-las para que compreendêssemos, tamanho era o medo de que aquilo fosse tão real quanto parecia ser.

Uma confrade, que estava próxima a mim no círculo, relatou inicialmente a parte do segredo que lhe fora confiada por uma outra, que se negou a ir encontrar-nos por medo de que, ao descobrir, seus familiares a considerassem subversiva ou insana. A moça dizia, olhando vez ou outra para as luzes pendentes no teto, que “A terra sofrerá seu jugo. Nem a noite, nem o dia, nem as chuvas e ventos o deterão”. 

Suspirando profundamente e tomando fôlego, leu, então, a sua parte: “A obra colocará seus criadores a seu serviço. O tempo terá uma nova referência. Fujam!”

Ouço passos próximos à porta de minha casa. Com o corpo retesado, mentalizo - ‘vá embora, vá embora’ -, mirando a porta como se não quisesse que ela existisse.

Os passos se afastaram. O silêncio volta, atroz. Dirijo meu olhar novamente às teclas do note e ao que escrevo. Em um esforço, busco concentrar-me em revisar o quebra-cabeça tal qual ouvi.

Lembro-me de outros fragmentos lançados ao ar naquele paiol, coisas tais como “Pessoas entorpecidas o desejarão, avidamente. A inveja será sua consorte. O individualismo, sua lógica!”. Ou ainda: “... crianças pelas ruas serão seus alvos. Serão criados novos códigos de conduta e sinais que mudarão as paisagens. O pouco será muito e o muito será pouco”. E mais: “Será a causa da extinção do modo de vida hegemônico até o momento. Mudará a história, o clima, o ar que respiramos. Milhares morrerão todos os anos”, entre tanto mais.

Ao passo que rememoro cada pedaço desta desconexa e surreal mensagem, tento imaginar nosso mundo sendo transformado naquilo que não queremos. Sei que temos problemas enquanto humanidade, mas como será? Não consigo imaginar as cidades pelo mundo sendo mutiladas ou que nossas crianças não poderão mais ir às ruas livremente, correndo, brincando ou pedalando até a escola.

Antes que o último de nosso grupo profira suas palavras, é chegada a minha vez. Tomo o pouco ar que me cabe naquele tenso ambiente. Reúno minha calma esfacelada pelas linhas que sou obrigado a reler a seguir.

E tentando parecer controlado, digo: “É uma caixa de aço, quase indestrutível. De dentro dela, será possível ver o mundo com outros olhos. De fora dela, não haverá mundo sequer para ser admirado. A felicidade terá, portanto, novos parâmetros”.

Não ficou claro de que maneira, cada um de nós, recebera tais mensagens. Na verdade, isto agora, pouco importa. O último dos quinze ali reunidos lê a mensagem que lhe cabe exatamente no momento em que o dia de ontem deixava de existir: “Irreversível. Indomável. Irresistível. A escolha de uns fará por mudar a falta de opção de muitos”. 

Saímos em silêncio, soturnos. Não há o que dizer. Parece que também pouco há a fazer diante de tal ameaça, algo que mudará a forma como nos conhecemos, como nos interpretamos e como nos aproximamos uns dos outros. Inúmeras questões tomaram minha mente, a galope, no caminho até o lugar onde me encontro, minha casa. Que força teríamos para fazer frente a tal desafio? Nossas vidas serão adaptadas a este novo paradigma civilizatório? Que sofrimentos outros virão no decorrer do tempo? Será que suportaremos? Como seremos conhecidos enquanto seres humanos depois de sermos colocados, como coisas, dentro desta caixa? 

Inspiro buscando gravar na memória o ar que me rodeia, os aromas de Damas da Noite e dos Jasmineiros que, a esta hora, explodem. Tento sentir a falta que me fará não poder respirar da forma que faço neste instante. Busco calibrar meus ouvidos para o impacto dos ruídos provenientes desta caixa, os quais me farão surdo aos gritos de milhões de seres iguais a mim. Imagino, estarrecido, como as relações entre seres humanos serão menos humanas. Súbito, recebo um holograma em meu celular, enviado por um dos quinze. Ele diz: Resista! 

E eu me pergunto: Como?!

Não sei se irei dormir, talvez nem consiga. Não quero que meus pesadelos sejam mais nefastos do que a realidade que me rumina, agora. Quero estar acordado para quando romper a aurora do mundo que desconheço, da vida que me será limitada, para o prelúdio da humanidade que, aos poucos, me será vampiresca e freneticamente, sugada.

Ah, esqueci-me. O nome do segredo dá, ao sentido de veículo, um outro significado. Aliás, um significado bastante equivocado se for considerado novo ou inédito, porque nos auto movemos desde sempre, ao caminhar, navegar, voar e pedalar. Do que mais precisaríamos? 

Automóvel é o nome que lhe deram. E eu torço, fortemente, que possamos viver sabendo mitigar tudo o que esteja associado a ele e que não seja, realmente, bom. 

 

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