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3 Roteiros de tirar o fôlego

A maior floresta tropical úmida do mundo é um território único pela variedade indescritível de sua flora e fauna. Na Amazônia você pode conhecer três roteiros de tirar o fôlego: Floresta Nacional do Tapajós, Parque Estadual de Monte Alegre e Vale do Paraíso.

Revista Bicicleta por / Marcos Fróes
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19/07/2017
3 Roteiros de tirar o fôlego
Vista do pôr do sol a partir de um barco, em um fim de tarde rumo a novas aventuras
Foto: Marcos Fróes

Seguindo às margens do Rio Tapajós, na região oeste do Pará, está uma importante unidade de conservação da natureza que no verão amazônico possui mais de 160 km de praias com uma grande diversidade de paisagens: rios, lagos, terra firme, floresta, morros, planaltos, campos, açaizais e muito mais. Estamos nos referindo à Floresta Nacional do Tapajós, que começa no município de Belterra, um município que está localizado a poucos quilômetros da Vila de Alter do Chão (Santarém), apresentada na edição anterior no coração da Amazônia.

A Floresta Nacional do Tapajós abrange os municípios de Belterra, Aveiro, Rurópolis e Placas. É acessível pela rodovia BR-163 Santarém-Cuiabá. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é quem administra a unidade de conservação, sendo assim, recomendamos solicitar a autorização de entrada em Santarém.

Três coisas boas para curtir, a bicicleta, o pôr do sol e a Amazônia - Foto: Iransadayoshi

Partindo da Vila de Alter do Chão, a primeira parte dessa aventura de bicicleta é uma única estrada de terra a ser percorrida por 20 km sem terreno plano. Os primeiros 8 km são em estrada de piçarra (cobertura de pedras pequenas de cor vermelha) até a Praia de Pindobal. É preciso ter um pouco de habilidade para realizar as subidas, porque às vezes as rodas giram em falso nas pedrinhas, mas o maior cuidado tem que ser nas descidas que quase sempre terminam em curvas, e se você deixar para frear no final, facilmente perderá o controle da direção. Ao chegar à praia, o cenário é tranquilo e composto de barracas cobertas de palhas que propiciam um bom descanso antes de continuar a aventura. Os próximos 12 km são em terreno arenoso, muito difícil de serem percorridos sem paradas para descanso e totalmente em cima da bicicleta. É sofrido realizar a subida intensa até chegar ao solo de terra preta do município de Belterra (Bela Terra).

Belterra começou a ser construída em 1934 como vila com casas e ruas, totalmente no estilo arquitetônico dos Estados Unidos. Foram 15 anos de domínio norte-americano, mas o suficiente para que a herança sobrevivesse até os dias atuais. Na sua principal avenida ainda tem: hidrantes vermelhos iguais àqueles que vemos nos antigos filmes americanos; casas de madeira com a porta de entrada principal de frente para a rua sem muros, somente com jardins frontais e os quintais ao fundo; calçadas amplas e cobertas pela sombra das árvores; no final da avenida principal há construções históricas feitas com madeiras que estão servindo de sede da prefeitura, secretarias e câmara municipal.

 

Na Amazônia, boa parte das trilhas são um túnel verde dentro da floresta com bastante folhagem e galhos secos  - Foto Marcos Fróes 

E porque tudo isso foi construído dentro da Floresta Amazônica? O magnata americano Henry Ford (fundador da Ford Company) idealizou na região uma imensa plantação de seringueiras para poder extrair o látex e investiu na ampliação de seus negócios fundando Belterra. As seringueiras são uma espécie de árvore típica da região e era a principal matéria-prima para a borracha utilizada em diversas peças de seus carros. Ford nunca foi à Amazônia, mas enviou a seu líder em solo brasileiro todo o material utilizado na construção das casas e a mão de obra especializada para a construção da vila, e também para a plantação e manutenção dos seringais. O projeto fracassou! Por quê? A companhia precisava de 18 mil trabalhadores, entretanto, chegou a ter no máximo cinco mil. Isso rendeu uma baixa produção, na mesma época em que houve o aumento da comercialização de borracha sintética na Malásia. E não foi só isso! Ainda aconteceu o falecimento de seu único filho (Edsel Ford) que gerenciava a empresa. Naquela época, a estrutura arrojada deu para Belterra o status de vila de primeiro mundo no meio da Floresta Amazônica.

As escrituras rupestres existem no Parque Estadual de Monte Alegre, são 11.200 anos de história - Foto Marcos Fróes

A segunda parte da aventura é partindo de Belterra em um percurso de aproximadamente 15 km. Uma boa parte do percurso é plano, somente dentro do município a estrada é asfaltada, logo depois dos primeiros quilômetros recomeça a estrada de terra. No final do percurso está o início da Floresta Nacional do Tapajós (FLONA). Pouco antes do portal de fiscalização da unidade está a moradia de Seu Luiz, que é um guia experiente da primeira comunidade chamada de São Domingos. Na comunidade está a trilha do Curupira, que tem aproximadamente 12 km de percurso com diversos atrativos turísticos, como Ambé, cipó para fazer paneiros; Marapuama, conhecida como “viagra da Amazônia”; e Samaúma, considerada pelos indígenas a “mãe” de todas as árvores. 

Em um dia típico, vamos encontrar muito calor e chuvas fortes no final da tarde. Os nativos descrevem que o Curupira (um protetor da floresta) é um pequeno índio forte e de cabelos avermelhados que emite sinais falsos e assobios, e engana os caçadores e viajantes por ter os pés voltados para trás, fazendo assim perderem o rumo certo na hora de atravessar a floresta. Na primeira vez que fiz a trilha, na companhia de um amigo e em um dia desses de chuva forte no final da tarde, experimentamos exatamente essa sensação... Seu Luiz informou que o Curupira mora no pé da maior Samaúma que pode chegar a 70 metros de altura, uma das samaumeiras que visitamos tem mais de 500 anos. Ainda faltavam cerca de duas horas para anoitecer quando chegamos ao final do percurso. Pedimos ao guia que nos esperasse no portal de entrada da Floresta e partimos com a intenção de refazer o caminho. Foi aí que a experiência se tornou inesquecível – não combinamos isso com o Curupira. Quando chegamos novamente na Samaúma existente bem no meio de toda a trilha, eu levei um baita tombo e me machuquei ao cair por cima das raízes. Depois de alguns minutos parado até passar a dor, levantei a cabeça e fiquei na dúvida de qual direção havíamos vindo. Meu amigo também estava confuso. Apesar de haver somente um único caminho para dar sequência, ficamos discutindo um pouco sobre detalhes do percurso e a direção a seguir. Dentro da floresta escurece mais cedo e somente começa a clarear um pouco por volta das 20 h, se houver luar. Mas tudo que tivemos naquela noite foi a chuva e a escuridão. Somente apontávamos para a frente um led vermelho que servia de sinalização em uma das bicicletas. Erramos muito o caminho, chegamos na saída da trilha por volta das 21 h com muito cansaço e sede. Foi cruel! Encontramos o guia já desesperado conversando com o guarda do portal sobre nosso sumiço. Até nesse dia eu não acreditava nessas lendas da floresta...

A Floresta Nacional do Tapajós tem três principais comunidades para visitação: São Domingos, Maguari e Jamaraquá. No início da Comunidade de Maguari está uma pequena barraca coberta de palha à margem da estrada. É o restaurante de Seu Vicente, morador da comunidade que mantém seu restaurante simples com bastante bom humor. Mais à frente nesta comunidade é possível visitar artesanatos e também objetos feitos com o couro ecológico. A Floresta Nacional do Tapajós tem milhares de atrativos, é imperdível para quem gosta de natureza.

Distante pouco mais de 70 km da Floresta Nacional do Tapajós está a cidade de Santarém, também conhecida poeticamente como Pérola do Tapajós. Quem nasce nesta cidade é chamado de “mocorongo”. Em outras regiões do Brasil, mocorongo é um termo pejorativo. Mas vale a pena destacar que a escolha do nome é proposital e tem a intenção de valorizar o seu sentido original, cujas raízes estão na cultura indígena e significa gente humilde e receptiva. Na Amazônia, mocorongo é também sinônimo de desenvolvimento, educação e participação. O nome “Santarém” foi dado pelos colonizadores portugueses em homenagem a uma cidade homônima, em Portugal, e o termo se refere a uma espécie de uva trincadeira no formato oval.

Há várias outras cidades homônimas de Portugal no Pará, entre elas está Monte Alegre. Uma opção para chegar até a cidade é por Santarém em balsa “ferry boat”, logo na saída há a passagem pelo maravilhoso encontro dos rios Tapajós e Amazonas e a viagem continua por mais duas horas até o terminal portuário de Santana do Tapará, que fica à margem esquerda do Rio Amazonas. 

 Nesta localidade inicia a PA-255. É necessário percorrer aproximadamente 90 km em terreno misto (asfalto e terra) até chegar na pequena cidade de Monte Alegre, com pouco mais de 50 mil habitantes. Na mesma PA-255, distante aproximadamente 17 km da cidade, está uma estrada de terra a ser percorrida por aproximadamente mais 10 km até o Parque Estadual de Monte Alegre (PEMA). De acordo com os recentes estudos arqueológicos realizados pela norte-americana Anna Roosevelt, o primeiro homem do continente americano era brasileiro e viveu há cerca de 11.200 anos a.C. em um conjunto de cavernas nas serras (Ererê e Paytuna) que estão dentro da área que hoje é chamada de PEMA. Há fragmentos em pedras e cerâmicas na região das cavernas, e na Serra de Paytuna tem muitas escrituras rupestres no paredão conhecido como Pedra do Pilão. As cavernas já não são mais habitadas por aproximadamente 400 anos, desde a chegada dos europeus na região. O PEMA é administrado pela Secretaria de Meio Ambiente da cidade, onde é necessário solicitar autorização para visitação, mas em caso de realizar o percurso direto para o parque você encontrará condutores treinados para os atrativos. É uma nova experiência, mas que proporciona a real oportunidade de ter um dia ímpar na sua vida.

Um igarapé espetacular na Comunidade de Jamaraquá - Foto Fábio Barbosa

Outro lugar interessante para conhecer é partindo do PEMA para o município de Alenquer, percurso em estradão de terra e trechos de trilha que soma aproximadamente 110 km. Faltando cerca de 42 km para chegar até a cidade está a entrada da estradinha desgastante de aproximadamente 15 km que dá acesso ao Vale do Paraíso, na divisa entre os dois municípios (Monte Alegre e Alenquer). O Vale do Paraíso é a junção de três lindíssimas cachoeiras, refúgio de antigas tribos indígenas. É um vale formado pela extinção de um rio, que com o tempo foi se transformando em um igarapé de águas cristalinas que corre sobre lápides de pedra e caem esplendorosamente formando diversas cachoeiras. Três dessas cachoeiras podem ser visitadas em um dia só: Cachoeira Paraíso (12 metros de queda), Véu de Noiva (18 metros de queda) e Preciosa (35 metros de queda livre). É um espetáculo passar a noite no lugar, os chalés rústicos ficam quase dentro de uma das cachoeiras e na madrugada a sensação é de frio, muita umidade e um som que dá a ideia de uma chuva torrencial. É um vale de belezas naturais em que toda a reserva florestal nos impressiona pela sua paz e integração com a floresta, lugar ideal para ler, descansar e aproveitar banhos massageantes nas cachoeiras. É rico em vida vegetal e animal, um lugar magnífico e propício para aventuras como trilhas na selva, passeios ecológicos, noites na mata e outras atividades que não são a minha especialidade, mas podem ser a sua.

A bonita praia do Pindobal e suas típicas barracas cobertas de palhas, existente  entre Alter do Chão e a Flona - Foto Fábio Barbosa

A Amazônia é um lugar que transborda vida. Assim como há lugares em que as pessoas respiram o trabalho e a busca pelo sucesso profissional, também há lugares em que as pessoas são felizes e realizadas sem ao menos conhecer o mundo que foi construído fora da floresta.

Um fim de tarde nos rios da Amazônia (Oeste do Pará) admirando o pôr do sol - Foto Arnoldo Adriano Riker

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