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A prática educativa sobre duas rodas

Revista Bicicleta por Claudia Franco
35.367 visualizações
22/08/2014
A prática educativa sobre duas rodas
Foto: Shutterstock

Tenho plena ciência de que grande parte do meu comportamento e da minha educação foi esculpida pela prática esportiva. Meus pais me introduziram no esporte quando eu tinha apenas seis anos de idade. O meu primeiro esporte foi natação, e no clube do qual éramos sócios pude praticar diversos esportes com muita liberdade e apoio total de meus pais, que me motivavam a ir em frente com as minhas escolhas.

O esporte é uma ferramenta muito poderosa para o desenvolvimento da comunicação, expressão, emoção, educação e até emancipação, bem como autonomia.

O esporte me tornou uma pessoa bastante segura logo cedo. Lembro-me de que com apenas 12 ou 13 anos, pegava o ônibus em frente a minha casa e ia sozinha até o clube. Claro que há 40 anos a cidade era bem diferente, não havia os perigos que enfrentamos atualmente. Mas recordo de que me sentia muito confortável e segura em saber que estava a caminho do clube onde lá encontraria meus professores, amigos e muita diversão. O clube era uma extensão da minha casa. 

Segundo pesquisas feitas pela Universidade Deakin, na Austrália, a atividade física durante a infância pode prevenir a depressão na fase adulta. A pesquisa constatou que as pessoas que não praticaram atividade física quando crianças tinham 35% mais chances de sofrerem de depressão quando adultas. De acordo com os pesquisadores, a atividade física pode contribuir para o desenvolvimento de células cerebrais durante a infância, que auxiliariam o adulto a enfrentar melhor as situações de estresse.

Além disso, uma pessoa que não pratica muitos exercícios tem pouco apoio social, o que pode levá-la a ter maior chance de sofrer de depressão ao longo de sua vida. As atividades esportivas contribuem para a formação cultural, para melhoria da saúde, para o desenvolvimento de noções de cidadania e comunidade. A socialização é um aspecto forte da prática esportiva. O esporte promove laços profundos de amizade, formação de grupo e o descobrimento das afinidades.

Pais, Filhos e Bicicletas

O ser humano desde o seu nascimento está em processo de aprendizado, para tanto, necessita de estímulos positivos, tanto externos como internos. Desde as primeiras sensações, os primeiros passos ou as primeiras palavras, enquanto estiver vivo, o ser humano sempre estará aprendendo algo novo, por mínimo que seja este aprendizado.

O aprendizado pode provocar uma mudança relativamente duradoura no comportamento, pois promove uma transformação qualitativa na estrutura mental daquele que aprende. 

Atualmente, devido à crescente demanda do aprendizado de múltiplas atividades há a disponibilidade de cursos e escolas para tudo o que se queira aprender: curso para aprender a jogar bola, curso de origami, curso de idiomas, curso de meditação, curso de canto, curso de arco e flecha, ou seja, uma infinidade de opções para atender as mais diversas necessidades e interesses.

Participar de cursos em escolas é a garantia de aprender técnicas corretas através de um método de ensino com profissionais especializados. Com relação ao aprendizado de pilotagem de bicicleta, não necessariamente o mesmo tem que se dar na mais tenra infância, nem com pais, amigos ou parentes. No Brasil esta cultura é muito forte e tornou-se um mito, trazendo aos pais e filhos um grande ônus.

Os pais, principalmente nas grandes metrópoles, não dispõem de tempo e locais adequados para ensinarem seus filhos. Alguns confessam não ter paciência, didática ou até mesmo preparo físico para a atividade. Com o passar do tempo, sem que a criança ou o jovem tenha aprendido a pedalar, os pais sentem-se envergonhados e culpados. Já os filhos, sentem-se incapazes e também culpam os pais por não ter conseguido ensiná-los. É comum crianças e principalmente os jovens adolescentes alegarem que não gostam de pedalar para esconderem a vergonha de não saber pedalar.

Enfim, por desconhecimento, o aprendizado da pilotagem de bicicleta se torna uma bola de neve de sentimentos negativos, afetando a autoestima da criança ou da família como um todo.

A pilotagem da bicicleta demanda técnica, postura e uso correto do equipamento. Deve acontecer de forma divertida, prazerosa e inspiradora para o futuro ciclista. Contratar uma escola com profissionais especializados para seu filho aprender a andar de bicicleta é também um ato de amor!

É importante lembrar aos pais que, ao introduzirem os filhos no esporte, fiquem atentos para que a prática não seja centrada ou focada na competição, êxito e seletividade. Acima de qualquer resultado comparativo entre os participantes, é importante fazer a criança entender que os ganhos pessoais relacionados à saúde física e mental são na realidade o maior benefício e o maior prêmio que um esportista pode ter. Pesquisas no mundo todo apontam para os ganhos acadêmicos quando crianças praticam atividade física regular.

A atividade física regular ajuda a aumentar a duração e intensidade da concentração nos estudos, assim como terem melhores resultados em testes de aptidão. Estudantes que obtiveram melhor aferição aeróbica, força e resistência também se apresentaram melhor academicamente. Estudos comprovam que alunos que fazem parte de equipes esportivas desenvolvem habilidades de liderança, responsabilidade, disciplina e gestão por competências. Ensinando crianças a pedalar, consigo identificar diversos aprendizados que a prática proporciona aos futuros adultos.

Em grandes metrópoles, devido à falta de espaço e lugares seguros, falta de disponibilidade dos pais e também o desinteresse das crianças, o aprendizado de pedalar não se dá tão cedo e nem tão rápido. A televisão, vídeo games e computadores, em um primeiro momento, são muito mais atraentes do que ir ao parque fazer piquenique e andar de bicicleta. Com frequência atendo crianças que não fazem atividade física. Fazer movimentos com o corpo, fazer algum nível de esforço físico é algo estranho ao seu universo. Sentem-se muito incomodados e inadequados. Porém, à medida que os estimulamos e os motivamos na conquista do “pedal”, percebemos imediatamente as mudanças comportamentais.

Alguns alunos saem de uma atitude inerte para uma atitude completamente proativa. Ao impulsioná-la a superar o aparente e momentâneo obstáculo de se equilibrar sobre uma bicicleta, o desempenho da criança começa a melhorar a cada minuto.

Ao aprender a pedalar, a criança torna-se muito autoconfiante, tem melhoras substanciais na coordenação motora, na capacidade de concentração, consciência corporal e raciocínio lógico. Mas sem dúvida alguma o principal ganho é o resgate, melhora ou desabrochar na autoestima, pois a bicicleta representa um grande desafio e ao superá-lo a criança torna-se mais segura e feliz.

Por ser uma atividade externa, andar de bicicleta colocará a criança em contato com a natureza, fazendo-a refletir com mais intensidade questões do meio ambiente. A bicicleta é também uma atividade de inclusão, para pedalar não é necessário ter a própria bicicleta. Sabendo pedalar, a pessoa facilmente se insere em inúmeras atividades existentes. Em torno da bicicleta há muita democracia. Em grupos de crianças não importa se a bicicleta é ainda com rodinhas, se é um triciclo ou uma bicicleta bem simples, todas juntas se divertem de igual para igual. Em grupos de adultos é o mesmo sentimento, os ciclistas são reconhecidos por suas habilidades de pedalar, por sua força e não pelo tipo de bicicleta que tem. É muito comum em grupos grandes haver um ciclista que se destaque demais pela capacidade de pedalar, pela velocidade, pelas pernas e pulmões fortes. Quando este ciclista tem uma bicicleta mais simples ou antiga com poucos recursos, ele é ainda mais enaltecido.

Em todas as modalidades do ciclismo se aprende demais, a prática do ciclismo de estrada e de montanha te leva a refletir sobre as questões do meio ambiente, sobre toda a diversidade. O ciclismo urbano te proporciona uma nova reflexão sobre a cidade, sobre o comportamento das pessoas nas ruas, sobre a mobilidade urbana. 

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