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Alasca de Norte a Sul De Deadhorse/Prudhoe Bay a Anchorage

Tudo começou na volta de uma cicloviagem, há mais ou menos um ano, quando o Marcelo surgiu com a ideia de cruzar o Alasca de norte a sul, de Deadhorse/Prudhoe Bay a Anchorage, passando pela temida Dalton Highway.

Revista Bicicleta por Cândida Brenner de Azevedo
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27/11/2017
Alasca de Norte a Sul De Deadhorse/Prudhoe Bay a Anchorage
Foto: Marcelo Bigolin

Tudo começou na volta de uma cicloviagem, há mais ou menos um ano, quando o Marcelo surgiu com a ideia de cruzar o Alasca de norte a sul, de Deadhorse/Prudhoe Bay a Anchorage, passando pela temida Dalton Highway.

Eu concordei com a viagem, mas não tinha muita noção do local, das dificuldades e dos equipamentos que seriam necessários. Então comecei a pesquisar. Assim que comecei a ler sobre o trajeto, principalmente sobre a Dalton Highway, me apavorei e me interessei pela sua história. Confesso que não tinha muita informação sobre o Alasca, apenas sabia que era pouco habitado e muito frio.

Em razão da viagem, comecei a ler e descobri algumas curiosidades. Apesar de não fazer divisa com o resto do país, o Alasca é um estado dos Estados Unidos, o maior em extensão territorial. Foi comprado da Rússia, em 1867 e a transação foi muito criticada na época, pois pensava-se que ele não passava de um amontoado de gelo.

No entanto, anos mais tarde, entre 1880 e 1890 descobriu-se ouro, e muitas pessoas mudaram-se para lá em busca de melhores condições de vida. Tempos depois, em 1968, descobriu-se petróleo em Prudhoe Bay. Para o transporte do petróleo, foram construídos dutos, que são hoje um dos maiores do mundo, com 1.278km de extensão, indo de Prudhoe Bay (onde iniciamos a cicloviagem) ao porto de Valdez, a partir de onde o petróleo pode ser levado por mar a qualquer lugar. Foi em razão do descobrimento do petróleo que a Dalton Highway foi construída, para abastecer e apoiar as empresas que o exploram em Deadhorse/Prudhoe Bay. Ela foi construída entre os anos de 1974 e 1977, mas somente foi aberta ao público entre 1994 e 1995.

A Dalton Highway começa em Prudhoe Bay e termina na Elliott Highway, depois de Livengood, e são 667 km de extensão, sendo parte de asfalto, e parte de terra, os famosos “loose gravel”. As “cidades” pelo caminho são Coldfoot, Wiseman e Deadhorse. Não são bem cidades, são mais pontos de parada, com restaurante, alojamento, e posto de combustível. Outra característica da Dalton Highway são as constantes obras de recuperação, devido ao inverno rigoroso. Durante a viagem passamos por diversas construções e em muitas delas não pudemos seguir pedalando, tivemos que colocar as bicicletas nas caminhonetes que supervisionam a obra, os “pilot cars”.

No estudo que fizemos sobre o percurso, verificamos que no trajeto Prudhoe Bay a Fairbanks, aproximadamente 800km, nossos principais problemas seriam os animais selvagens, os mosquitos, o pavimento da estrada, o isolamento e com ele a necessidade de levarmos comida para uns 10 a 12 dias, equipamentos de manutenção e de “gambiarra”, caso as bicicletas apresentassem algum problema, e medicamentos, caso ficássemos doentes. Já de Fairbanks a Anchorage, o trajeto seria mais tranquilo, já que seria asfaltado e teriam cidades no caminho. Por isso a viagem foi organizada em duas etapas, de Prudhoe Bay a Fairbanks e de Fairbanks a Anchorage.

Em razão dessas preocupações, estávamos bem pesados, bicicleta e bagagem pesavam em torno de 45kg a 50kg, e nunca tínhamos pedalado com tanto peso. No início foi bem complicado, mas logo fomos pegando o jeito.

Chegou o grande dia de partir!

Primeiro trecho

Rudhoe Bay - Fairbanks

Em 18 de junho iniciamos o pedal. A emoção já começou na saída do hotel, quando nos deparamos com um cartaz avisando do perigo de ursos, pois um tinha sido visto rondando o hotel!

A estrada estava bem ruim, muitas pedras soltas, e com a bicicleta muito pesada eu não conseguia me coordenar muito bem, ia quase caindo, mas com calma consegui “domar” a magrela.

No primeiro dia de pedal, a estrada estava em obras em vários pontos, o que nos obrigava a pegar carona em caminhonetes, para nossa segurança. As máquinas pesadas jogavam muitas pedras e elas podiam nos machucar. Foram três caronas e na última, ao colocarem a bicicleta do Marcelo no carro, o bagageiro quebrou em dois lugares. Que desespero, logo no primeiro dia! Não tínhamos rodado nem 30 km. A sorte que o Marcelo é o rei da “gambiarra” e conseguiu resolver o problema. Nessa situação, de desespero, o que mais desejávamos na viagem aconteceu: ficamos cara a cara com um urso. Ele vinha correndo na beira da estrada e a cruzou na nossa frente, foi pura emoção. Um motorista que passava pela estrada parou para que entrássemos no carro e ficássemos em segurança. Eu não consegui sair do lugar, fiquei hipnotizada olhando aquele animal enorme, solto, livre, no seu território, foi incrível!

Na primeira noite, dormimos próximo a uma Pump Station, pois ficamos um pouco receosos de fazer um acampamento mais selvagem. As Pump Stations são construções que tem a função de impulsionar o petróleo pelos dutos, fazendo-os chegar até o destino final, a cidade de Valdez. A paisagem de Prudhoe Bay até o Passo Brooks é rasteira, chamada de tundra, com lagoas ainda congeladas, e é um espetáculo, pois ela é bruta, deserta, e o único movimento é o dos caminhões e dos motoqueiros (a estrada é uma rota tradicional para eles).

Depois da primeira noite, ficamos mais habituados ao local e os próximos acampamentos foram bem selvagens, geralmente na beira dos rios, em lugares espetaculares, pois assim tínhamos água para nossa higiene e para limpar o que fosse preciso.

Nessa época do ano (junho/julho), não faz frio no Alasca, a temperatura é bem agradável, mas as águas dos rios, por serem provenientes de degelo, são muito geladas, e a impressão é que “quebram seus ossos”. Mas nós não conseguimos resistir a elas e, sempre que podíamos, nos banhávamos, e era muito bom!

Além da temperatura amena, outra curiosidade dessa época em que fomos para o Alasca é que o sol brilha praticamente 24 horas por dia. O sol se põe por apenas umas duas horas, momento em que o céu fica “nublado”, mas sem ter nuvens. A parte ruim é que perdemos a noção do tempo e das horas. Em alguns dias parávamos de pedalar e pensávamos que eram quatro ou cinco horas da tarde e na verdade já eram dez da noite. Com relação ao sono, não tivemos problema, pois no final do dia estávamos tão cansados que desmaiávamos, e o sol perene, nesse ponto, não incomodava.

Esses primeiros dias de pedal não foram nada fáceis. Apesar de não ter muitas subidas, o terreno era muito ruim, com muitas pedras soltas e muitas irregularidades.

No terceiro dia de pedal, meu estado psicológico ficou um pouco prejudicado. O pedal foi complicado e ao acamparmos eu pensei em desistir. Tinha muita dor no corpo, estava exausta, me perguntando: “para que tanto sofrimento?”, “isso tudo é necessário?”. O Marcelo, com a sua calma e paciência, só me olhou e disse: - “Dorme! Não vamos tomar nenhuma decisão agora, amanhã conversamos!”. Essa conversa não aconteceu. No outro dia acordei e já me arrumei para iniciar o pedal!

Chegou o dia de pedalarmos pelo Passo Brooks. Ele pertence à imensa Cordilheira Brooks, que forma um arco, no sentido leste oeste, no norte do Alasca. É considerado o lugar mais inóspito e intocado de toda a América do Norte e um dos mais preservados do mundo. O Passo Brooks era muito temido, por ser uma subida forte, mas no fim, acho que estávamos tão preparados psicologicamente para transpô-lo, que tiramos de letra. Foi um dia muito agradável de pedal, acabamos pedalando mais do que tínhamos programado, pois tudo fluiu muito bem. A paisagem após o Passo é maravilhosa, com rios de pedras brancas e redondas e vegetação mais intensa.

Sobre as refeições, em razão do perigo dos animais selvagens, nós evitávamos comer nos acampamentos. A única refeição que fazíamos neles era o café da manhã, pois depois disso já partiríamos. O almoço e o jantar fazíamos durante o trajeto do dia.

Após o Passo Brooks, o destino era Coldfoot, localizado no meio do caminho desse primeiro trecho, 400 km depois do nosso ponto de partida. O pedal foi bem longo, grande parte por asfalto, só que com um vento contra irritante. Não podíamos parar de pedalar um segundo, nem nas descidas, caso contrário, a bicicleta parava. Foi bem desgastante, mas com uma paisagem maravilhosa, muitas montanhas, lagos e rios de tirar o fôlego.

Em Coldfoot tivemos um pouco de contato com a “civilização”, e pudemos comer hambúrguer, ovos com bacon e tomar refrigerante. E o melhor de tudo, tomar um banho quente. Coldfoot não é bem uma cidade, tem centro de visitantes, restaurante, posto de gasolina e um alojamento, mas tudo é bem caro. É um ponto de parada dos “truckers” (caminhoneiros).

Achamos que após Coldfoot tudo melhoraria. Doce engano. Vieram as subidas, e que subidas, e os mosquitos!

Apesar do isolamento da Dalton Highway, os caminhoneiros, motoqueiros e motoristas sempre foram muito atenciosos com a gente, volta e meia paravam para oferecer água fresca, para perguntar se precisávamos de alguma coisa e para avisar que havia animais selvagens na estrada. Sempre nos sentimos “cuidados”. Os truckers sempre diminuíam a velocidade ao passarem pela gente, para evitar de jogar pedras ou diminuir a poeira que levantavam.

O que me chamou atenção durante o percurso foi a existência de vários locais de parada para os carros/caminhões/motos e a existência de banheiros neles, com papel higiênico e álcool em gel. Era incrível: no meio do nada aparecia um banheiro!

Por duas noites acampamos nesses paradouros. Apesar de neles não haver água, pelo menos tínhamos a comodidade do banheiro. E era uma maneira de nos sentirmos mais seguros em relação aos animais, pois nesses lugares sempre havia carros pernoitando.

O trajeto entre Coldfoot e o Rio Yukon, um dos maiores rios da América do Norte, foi bem puxado, com subidas esgotantes, e levamos três dias para percorrê-lo. Entre Coldfoot e o Rio Yukon, visitamos o Círculo Polar Ártico.

Pouco antes de chegarmos no Rio Yukon, como uma miragem, avistamos uma hamburgueria, sim, uma hamburgueria! Imagine a nossa felicidade, já que estávamos morrendo de vontade de comer algo diferente de massa, bolacha e amendoim. Sem nem pensarmos, paramos e comemos muito hambúrguer e tomamos muito Gatorade. O detalhe é que esquecemos que ainda tínhamos que pedalar, e aí tivemos que ficar parados algum tempo para fazer a digestão.

Do Rio Yukon foram mais dois dias até chegarmos na placa que indicava a conclusão da parte mais temida da viagem, a Dalton Highway.

Eu não acreditei quando vi a placa, o sentimento de dever cumprido foi incrível! Me senti uma supermulher! Foi uma sensação única, que exigiu dedicação e abdicação de muitos luxos e rotinas que no dia a dia julgamos fundamentais.

Mais um dia de pedal e chegamos em Fairbanks, vencendo a primeira etapa da viagem!

Nesse primeiro trecho rodamos aproximadamente 800 km, em onze dias.

Segundo trecho

Fairbanks - Anchorage

Em Fairbanks descansamos um dia, compramos comida, organizamos os equipamentos de camping, lavamos roupas e voltamos para a estrada. O destino agora era o Parque Denali. No Parque Denali está localizado o ponto mais elevado da América do Norte, o monte Denali, também chamado de McKinley.

O pedal virou um passeio, com estrada asfaltada e acostamento. Em dois dias estávamos no destino! Passeamos por dois dias no Denali, onde fizemos caminhadas pelo parque e um passeio de ônibus e vimos novamente muitos animais selvagens, entre eles uma mamãe urso com dois bebês.

Do Parque Denali seguimos para a cidade de Talkeetna. De Talkeetna é possível ter uma visão maravilhosa do Monte Denali (ou McKinley). E uma curiosidade dessa cidade é que a população elegeu um gato como prefeito, isso, um felino, que esteve no cargo desde que nasceu. Seu nome era Stubbs, e ele faleceu logo depois que estivemos na cidade, com 20 anos e 3 meses de idade.

De Talkeetna fomos a Anchorage, e nesse trajeto fizemos nosso último camping selvagem, na beira de um rio, próximo a uma ponte. Só que agora o local já não era deserto. Havia bastante fluxo de veículos, e já não tínhamos a sensação de isolamento da Dalton Highway.

Entre Fairbanks e Anchorage, algumas noites dormimos nos “RV”, que são locais para trailers pernoitarem. Esses locais geralmente tem uma boa estrutura, com mesas para refeições, banheiro coletivo e lavanderia. O engraçado é que muitos não aceitavam que acampássemos, pois os locais eram privativos dos trailers.

Após Talkeetna, rumamos ao destino final, Anchorage. O início do percurso foi incrível, cinematográfico! Depois foi só rodar por estradas movimentadas, com carros tirando fino, esse desrespeito que ocorre em quase todos os lugares! Chegamos bem em Anchorage, mas o último dia de pedal foi bem chato, com muita chuva e trânsito intenso!

Entre Fairbanks e Anchorage rodamos mais ou menos 700 km. No dia seguinte, acordei num quarto de hotel, já com saudades da rotina de acampamento selvagem, de montar e desmontar barraca e bike, de preparar café da manhã, almoço e jantar! Apesar das dificuldades, mantínhamos uma rotina, que era pesada, mas que já deixou saudades! É muito boa a sensação de liberdade e de desprendimento que essas viagens nos proporcionam. É possível ver que precisamos de muito pouco para viver e sermos felizes!

Permita-se sair da sua zona de conforto! A sensação é maravilhosa e ela vai se tornando cada vez maior.

Agradeço ao Marcelo Bigolin pela parceria, pelo incentivo e por ter lançado a ideia dessa viagem, meus pais Eduardo Azevedo e Lygia Brenner, e aos amigos e incentivadores!

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