REVISTA BICICLETA - As Amazonas de Bike e o Paradigma de Gênero na Mobilidade Urbana
Baixe Gratuitamente a Edição Digital de Maio - Junho 2017 da Revista Bicicleta!
Pneus Kenda

O Portal
da Bicicleta

SHIMANO
Revista Bicicleta - Edição 75

Leia

Revista
Bicicleta



+bicicleta - Grupo de Pedal

As Amazonas de Bike e o Paradigma de Gênero na Mobilidade Urbana

Cada dia mais importante e recorrente, o debate sobre a garantia dos direitos das mulheres, irrestrita e incondicionalmente, ganha também mais espaço dentro do movimento pró-bicicleta, seja no ambiente urbano, seja nas trilhas e estradas. Embora jargões como ‘sexo frágil’ já não sejam nem de bom senso nem piada barata e de mal gosto, a luta por superar o machismo predominante na sociedade brasileira é uma constante, mas pode ser encarada com generosas doses de valentia, criatividade, doçura e cidadania! Em todos os cantos do país surgem novas experiências femininas sobre a bicicleta, algumas delas anteriormente apresentadas na Revista Bicicleta. No norte do país, por sua vez, um grupo muito descontraído, porém, com objetivos claros, ocupa as ruas da capital manauara com sua mensagem linda, com suas cores, risos e suas bicicletas.

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar e Simone Russo
34.130 visualizações
23/01/2015
As Amazonas de Bike e o Paradigma de Gênero na Mobilidade Urbana
Foto: As Amazonas de Bike

Era novembro de 2012 quando elas resolveram fazer seu primeiro pedal, exclusivamente para mulheres, em uma manhã de domingo. Poderia ser apenas mais um domingo qualquer, mas foi o ponto de partida de um fazer cidadão ampliado e voltado a consolidar seu espaço nas ruas. E por que não?

A ideia de formar um grupo só de mulheres ciclistas não deve ser tomada, à primeira vista, como uma segregação, mas sim, como uma forma espontânea e bem-humorada de ampliar a participação feminina enquanto personagens da ciclocidadania. 

O primeiro passeio contou com dez mulheres e dois homens, carinhosamente chamados naquele momento de ‘Amazonos’. Porém, logo a seguir, elas foram adiante organizando as atividades apenas entre o público feminino e hoje contam com 255 membros.

Foi necessário conceber um percurso que garantisse que todas, sem exceção, pudessem cumpri-lo com segurança. 

Tal iniciativa resultou do fato de que poucas delas participavam das saídas semanais do Movimento Pedala Manaus e, diante deste cenário, visou-se incentivar outras ciclistas a juntar-se às primeiras com a clara e obstinada tarefa de ocupar as ruas de Manaus.

Na hora de escolher o nome, pensaram em algo que viesse carregado da imagem da região e resolveram, assim, brincar com a lenda das índias Amazonas, as quais desbravavam a floresta em seus cavalos. Não há mais índias e seus cavalos, dentro desta simbologia, mas lá estão todas elas, ciclistas urbanas, desbravando e desvelando a cidade ao pedalar. Brincadeira séria e comprometida com a transformação social local, pode-se dizer.

Talvez, para a grande maioria das pessoas, e isto inclui tanto aos homens quanto às mulheres, a visão de um grupo exclusivamente feminino tomando seu espaço no tecido urbano pareça mera situação corriqueira, porém, esconde, de certa forma, a resposta ao conjunto de objeções e arbitrariedades da sociedade pelas quais milhares de mulheres passam, todos os dias, em todo o país, ao tentarem seguir para a escola, para o trabalho, para a academia, para casa, enfim, seguir a vida conduzindo suas bicicletas.  

Sim, as ciclistas continuam sendo hostilizadas no trânsito. Ou há como dizer que os apelativos gritos ouvidos de sul a norte da nação de “vai para o fogão!”, “vocês não têm o que fazer?”, “hei, não tem roupa pra lavar em casa?” e o infame “vai pedalar na academia que é mais seguro!” não são uma forma de explicitar conceitos envelhecidos, obsoletos e violentos? Qual é a graça?

As Amazonas de Bike, por exemplo, já ouviram muitas brincadeiras masculinas do tipo “isso é um desfile?!” ou o descabido “se só tem mulher, é com vocês que eu vou” e outras nada agradáveis. Contudo, sabendo que retaliar é tão violento quanto, as diplomáticas ciclistas manauaras encaram tais fatos com o característico bom humor. Talvez seja por isto que o lema do grupo seja “vamos aonde o vento nos levar”, livres e leves, compromissadas com a garantia do direito de ir e vir.

Em caso de algum problema maior, elas chamam o Disk Resgate (maridos, noivos, namorados ou parentes) ou acessam o YouTube a fim de buscar algum vídeo que demonstre como solucionar a avaria. É inegável, e admitam, é moderno pensar que elas têm tanto mais poder do que meramente se atribui.

No país, as mulheres representam 51,5% da população e lhes corresponde organizar e co-dirigir mais de 24 milhões de famílias dentre aquelas 64 milhões que vivem em domicílio doméstico. Além disto, entregam 7,5 anos aos estudos, enquanto a população masculina só dedica 7,1. E como se não fosse o suficiente, são longevas, pois têm uma expectativa média de vida de 77,7 anos, enquanto a dos homens não ultrapassa 71, segundo a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM – PR).

Já que contribuem tanto para os rumos do país, que justificativa há para que não sejam contempladas nos quesitos da não-violência, segurança pública, traffic calming, e por que não dizer, mobilidade equânime enquanto política pública?

Por que motivos, então, não seria mais do que bem-vinda e urgente a formação de novos grupos de pedal feminino em ambiente urbano? Ao contrário de se esquivar da realidade e manter-se em uma ilusória zona de conforto, preferem elas assumir sua cidadania para que seu exemplo tenha um caráter multiplicador. E como é bom ver as milhares de fotos dos pedais transitando pelas mídias sociais! A mensagem segue adiante.

Infelizmente, se faz difícil acreditar que para sensibilizar a comunidade de forma concreta não sejam suficientes todas as postagens e reportagens, artigos e matérias já publicadas nesta revista e em centenas de outros meios, públicos, privados e comunitários. É necessário, mais que tudo, dar testemunho, se fazer presente, unir a voz ao coro. E como exigir paraciclos, bicicletários, além das reclamadas estruturas cicloviárias se não estivermos lá, nos recônditos visíveis e invisíveis de nossas cidades dando nosso contributo?

Mas, voltando para o conjunto de impasses que afeta a mobilidade em bicicleta do público feminino, não se pode esquecer que o senso comum, muitas vezes, joga contra aquilo que é novo, inédito, e também, diferente. 

Nossas amigas ciclistas encontram objeções até dos familiares e amigos próximos, por conta do risco que segue sendo a tônica de pedalar por cidades que privilegiam automóveis em detrimento dos demais modais, contrariando tendências mundiais inteligentes e, sensivelmente, de vanguarda. Algumas companheiras encontram dificuldades para deixar a bicicleta no trabalho, por vezes, têm de subir pelas escadas carregando sua magrela, ou até mesmo, deixar a bicicleta em um vizinho que tenha mais espaço.

Os grupos femininos de ciclistas, ainda que nem sequer imaginem, dão uma contribuição essencial para a tomada de decisão de outro imenso grupo de mulheres que ainda se mostra indeciso, receoso, curioso e desconfiado quando a questão é pedalar ou não. Elas demonstram que tal escolha é a melhor diante da estagnação das ações públicas pró-bicicleta (salvo raríssimas realizações não eleitoreiras), ou ainda frente à desqualificada oferta de transporte público em uma esmagadora maioria de municipalidades brasileiras.

Sabe-se que o número de mulheres que cumpre duas jornadas (trabalho fora de casa e estudo) aumenta a cada dia em proporções descomunais, ainda falando de Brasil. O IBGE traz dentro da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD – 2011 dados que revelam a tendência por uma mudança irreversível da condição da mulher enquanto produtora da sua cultura e de sua vida, com autonomia e de forma emancipada. 

Por exemplo, o trabalho doméstico deixou de ser a atividade que mais emprega mulheres no país. Para chegarmos a perceber o que isto significa, no ano de 2009, aproximadamente 17,1% das mulheres economicamente ativas eram trabalhadoras domésticas.

A situação mudou dois anos depois, quando em 2011 esse percentual diminuiu para 15,6%. Dentre as atividades que mais empregam mulheres no campo da economia brasileira, segundo esta pesquisa, é o comércio o responsável por empregar mais de 17,6% delas  e, em segundo lugar, se encontram as atividades de educação, saúde e serviços sociais com 16,8%. 

Alguma dúvida da extrema capacidade de transformação destas guerreiras da vida moderna? 

Assista ao vídeo do grupo: 

Acesse a página do Facebook: 
https://www.facebook.com/groups/amazonas.bike/

Curtiu esse post?

Quer receber mais conteúdo sobre bicicleta e ciclismo em sua casa? Então clique aqui conheça nossas ofertas de assinatura.

Comentários Facebook
Comentários
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha

 

 

Para fechar o banner, clique aqui ou tecle Esc.

Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados