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Aventura de duas amigas no Caminho dos Anjos

Duas amigas encararam uma aventura cicloturística pelo Caminho dos Anjos, em Minas Gerais, um percurso de 240 km em cinco dias.

Revista Bicicleta por Reneide Campelo
43.099 visualizações
01/11/2014
Aventura de duas amigas no Caminho dos Anjos
Foto: Reneide Campelo

No carnaval de 2014 a folia foi diferente. Cris e eu resolvemos fazer uma viagem de bicicleta. A proposta era percorrer cerca de 240 km passando por várias cidades da linda Minas Gerais, percorrendo o trajeto chamado Caminho dos Anjos. Feitas as análises pertinentes, decidimos encarar o desafio. Seria a primeira vez em que pedalaríamos uma distância tão grande em dias consecutivos.

Começamos o planejamento e os treinos, simulando as subidas de Minas. O que inicialmente era apenas uma vontade – fazer uma viagem de bike – foi tomando proporção e criando um sentido maior dentro da gente. Conforme compartilhávamos nosso projeto com as pessoas, o que não faltavam eram afirmativas a respeito da nossa coragem e loucura. Coragem pelo desafio dos 240 km em que boa parte seriam subidas pesadas, e loucura porque decidimos encarar esse projeto sozinhas sem nenhum carro de apoio. 

Até entendemos o questionamento das pessoas: afinal, é um tanto preocupante duas mulheres pedalando no meio do mato, sozinhas, durante cinco dias, completamente expostas ao acaso. Mas é isso! O acaso é um tanto sedutor. Nos munimos das prudências necessárias para suprir contratempos previsíveis e com muita energia positiva nos entregamos ao Caminho, ofertando toda a nossa disposição, alegria e desejo de superação. Em contrapartida, fomos com os corações abertos para receber o que “ele” quisesse nos oferecer. 

Primeiro dia

A sensação gostosa das primeiras pedaladas, misturada com a ansiedade do que o novo traria, fez com que apreciássemos cada metro percorrido da pequena Passa Quatro, município charmoso e acolhedor que honra a tradição do bem receber de Minas Gerais. Não demorou muito até avistarmos a primeira seta; os caminhos de peregrinação geralmente são sinalizados com setas indicativas da direção a ser seguida. Oficialmente, “entramos no Caminho”. Percorremos 20,2 km e paramos no Restaurante do Espanhol para almoçar. Após percorrermos 36,41 km chegamos ao sítio Moana, onde fomos muito bem recebidas pela Lily e pela Solange. Jantamos com estas duas cariocas, donas do sítio, que moraram muitos anos no México, mas resolveram voltar para o Brasil e encontrar descanso e vida com qualidade na pacata Itamonte. Hoje elas se dizem felizes cuidando da rotina do sítio, dando aulas de biologia e inglês e recebendo peregrinos. Ficamos em um chalé delicioso a beira de um riacho que embalou nosso merecido descanso.

Segundo dia

Partimos de Itamonte em direção a Aiuruoca, com parada para almoço em Alagoa. Foi um dia longo. No período da tarde, a corrente da minha bicicleta estourou. Paramos, sacamos nossas ferramentas e começamos a tentar lembrar da aula que tivemos sobre troca de elos de corrente. Até então, não havíamos cruzado com ninguém pelo Caminho. Mas já que o Caminho é “dos Anjos, eis que surge uma dupla inusitada passando bem nessa hora por nós: o Cráudio e o Chevinho. Em pleno carnaval, normal que estes anjos estivessem um tanto, digamos, alcoolizados. O Cráudio prontamente se posicionou para resolver nosso problema: “gente, preciso de um alicate e um martelo”. Com os olhos bem arregalados e um tanto entorpecida pelo aroma alcoólico, perguntei: “você precisa do que?”. Com simplicidade e muita vontade de ajudar, Cráudio explicou: “seguro com o alicate, dou uma martelada e essa corrente já entra no lugar”. Nem sabia mais o que dizer. Até que Chevinho subiu na moto e foi buscar ajuda. Ele trouxe o Julio, que também chegou “bastante alegre”. Resolvido o problema, seguimos viagem.

A parada durou um pouco mais de uma hora, tempo suficiente para fazer a viagem terminar no escuro da noite. Essa parte da viagem foi tensa, pois só tínhamos as lanternas das bicicletas para iluminar o caminho e a rota de orientação. Após 55 km, chegamos a Aiuruoca, na pousada do Gilberto.

Terceiro dia

Este foi o dia mais difícil. Na parte da manhã, pegamos uma dura subida de 9 km com bastante pedra solta. Depois, chegamos a um ponto em que era praticamente impossível ficar sobre a bike, de tão inclinadas que eram as subidas. Foram 4 h de pedal até chegarmos ao Recanto das Bromélias, um lugar lindo no alto da montanha, nossa parada para o almoço. 

Na linha do horizonte apontavam nuvens carregadas. Não demorou e a chuva começou. E agora: sair ou esperar? Sair! Capa no alforje, vestimos o corta-vento e pé na estrada. A chuva não nos acompanhou por muito tempo. Chegamos ao ponto mais alto do Caminho dos Anjos. Que visual lindo. 

Depois vieram descidas muito íngremes e perigosas com muita pedra solta e crateras enormes abertas pela erosão. Muitos trechos semelhantes às descidas de downhill. Foram horas de tensão psicológica e muscular. A noite começava a avançar, o céu estava lindo e estrelado, porém, ainda tínhamos muitos quilômetros para percorrer e não deu para curtir muito. As subidas duras não aliviavam. Depois de 32,8 km, tomamos a decisão de pedir pouso em um pequeno sítio chamado Casa Rosa, que costuma receber peregrinos. Era a única casa no meio do nada e torcemos para ter alguém em casa. Ficamos aliviadas quando Lúcia nos recebeu maravilhosamente bem. Era tudo muito simples, mas divinamente acolhedor, e nos sentimos em casa.

Quarto dia

O pior já tinha passado, mas tínhamos bastante chão pela frente. O cansaço e as dores começaram a aparecer. Depois de quinze minutos de pedal, perdi completamente o freio, saldo do downhill do dia anterior. O jeito foi descer e continuar a peregrinação empurrando a bicicleta. Chegamos à Parada do nadinho, no Espraiado do Gamarra, lugar em que pretendíamos ter chegado na noite anterior. Novamente, como que por “providência divina”, cruzamos com um grupo de ciclistas e um deles regulou o freio da minha bike. Depois de 59 km, chegamos a São Lourenço. Que sensação boa: 80% do trajeto estava concluído.

Quinto dia

O pedal da manhã foi maravilhoso. Paisagem linda e plana com algumas descidas compridas que nos permitiu curtir muito e acelerar o ritmo desfrutando do vento gostoso no rosto. Paramos para almoçar no Pesqueiro 13 Lagos, em Virgínia. Era a reta final: que ansiedade, que alegria, que cansaço. A tarde nos reservou mais paisagens deslumbrantes e uma parada em uma fazenda para abastecer nossas caramanholas de água. Os últimos quilômetros foram de descidas. De repente surgiu a tão esperada placa: Passa Quatro. Quantos sentimentos misturados: emoção, dores, alegria... Depois de 240 km percorridos, finalmente chegamos. 

Certamente, este carnaval ficará gravado na memória. Antes de planejar esta viagem, 240 km parecia uma quilometragem muito distante de ser cumprida. Desejar é importante. Talvez não nos faltem vontades e sonhos, mas planejar e dar os primeiros passos em direção à meta traz o impulso vital e determinante. Nós pedalamos os 240 km! Qualquer realização depende do tamanho da nossa vontade. Desejo que essa tenha sido a primeira de muitas outras viagens de bicicleta. Que essa realização impulsione tantas outras em nossas vidas, e que venham os desafios, porque “o que se leva da vida é a vida que se leva”. 

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João Rodrigo Campos (joaozinho)

26/08/2015 às 09:56

Sensacional... adorei o relato e as fotos... obrigado!!! Joaozinho
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