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Bike Messengers - Entregas rápidas em bicicleta

A bicicleta tem sido protagonista em diversas frentes e para inúmeros fins no meio social e urbano. Os serviços de entregas realizados por ciclistas, conhecidos como bike messengers ou bike couriers, é um destes movimentos que ganha destaque, pelo seu aspecto econômico, sustentável e, claro, por ser eficiente e rápido!

Revista Bicicleta por Raoni N. Dias
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23/01/2016
Bike Messengers - Entregas rápidas em bicicleta
A Carbono Zero Courier tem mais de cinco anos e conta com mais de 100 pessoas em sua equipe.
Foto: Carbono Zero / Divulgação

História

Com a chegada da revolução industrial e desenvolvimento de novas tecnologias, a bicicleta passou por algumas transformações e melhorias, tornando-se um veículo versátil e perfeito para serviços de entrega. Em 1870, empregados dos Correios de Paris já utilizavam a bicicleta para realizar o serviço de entregas oficial; 20 anos depois, em função da grande popularidade das bicicletas nos Estados Unidos, a empresa americana Western Union empregou ciclistas mensageiros em Nova Iorque, São Francisco e em outros centros urbanos do país. Este tipo de serviço se tornou popular e até a virada do século XX era bastante comum.

Com o desenvolvimento e evolução da tecnologia dos veículos movidos por combustível fóssil, o século XX ficou marcado pelo investimento na produção em grande escala de combustíveis, aliado a um processo de popularização dos automóveis, motos e outros automotores. Associado a esses fatos, o crescimento populacional das grandes cidades criou a necessidade de abertura de novas estradas e rodovias, ligando cidades e estados. O ritmo de vida nas grandes cidades tornou-se acelerado e, em meio a esse processo, onde se associava a potência dos motores à rapidez, gradativamente os ciclistas mensageiros foram substituídos pelos mensageiros motorizados, e a imagem da bicicleta passou a ser associada a um veículo lento e obsoleto, portanto, incompatível com a vida nas cidades.

Na década de 80, os grandes congestionamentos já faziam parte do cotidiano dos grandes centros urbanos, provocando atrasos e consequentemente prejuízos. Dentro do contexto caracterizado pelo famoso jargão da época, “time is money”, os ciclistas mensageiros voltaram a ganhar popularidade, principalmente em Londres, São Francisco e Nova York, como uma alternativa rápida, eficiente e ecológica de entregas de documentos importantes, produtos exclusivos e tudo o que fosse possível carregar em uma bicicleta.

Brazucas Mensageiros

Na década de 90, as questões relacionadas aos modelos de base capitalista adotados na maior parte do mundo começaram a ser repensados. Conceitos sobre formas de desenvolvimento sustentável, que buscam um modelo de crescimento econômico menos consumista e mais equilibrado com o ambiente, ganharam destaque, instigando as pessoas a buscar alternativas que permitam viver de forma menos estressante e mais equilibrada. No Brasil, a Eco 92 realizada no Rio de Janeiro impulsionou o debate destas questões na sociedade, que começou a buscar formas mais sustentáveis de convívio. E a bicicleta gradativamente volta a ganhar destaque na sociedade, pois se percebe que é um veículo que está totalmente inserido no contexto dos debates relacionados à sustentabilidade nas grandes cidades. Nesta década, surgem as primeiras empresas brasileiras de ciclistas mensageiros.

Como uma nova opção de serviço, ainda pouco conhecida no mercado, as empresas de entregas em bicicleta começaram, na sua grande maioria, na garagem da casa de um dos sócios ou um pequeno espaço comercial, e o serviço de entregas feito pelos próprios parceiros. O que motivava estes grupos, compostos normalmente de três a cinco pessoas, era a ideia de prestar um serviço ecologicamente limpo e rápido, fazendo o que mais gostam: pedalar.

Rio de Janeiro

A Ciclo Courier é uma das empresas deste ramo, com atuação no Rio de Janeiro. Ronaldo Porto, ou Naldinho, é um dos fundadores da Ciclo Courier e diz que tudo começou quando passou uma temporada em Porto Alegre. “Lá”, diz ele, “aprendi muito sobre a bicicleta, desde noções de como pedalar com segurança no trânsito até seu papel social, e tive meu primeiro contato com a Massa Crítica e outros projetos envolvendo bicicleta e sociedade, como a Pedalada Jardinaria, que tinha como objetivo pedalar e plantar mudas em praças da cidade”.

© Raoni N. Dias

Ao retornar ao Rio, em 2012, Naldinho começou a pedalar em sua bicicleta fixa e a frequentar a Massa Crítica – Rio de Janeiro, onde conheceu Fox Goulart, Gustavo e Pedro Padilha, seus futuros sócios e companheiros. Após algumas conversas perceberam que tinham afinidades, os mesmos interesses, e principalmente a paixão pela bicicleta, e decidiram, em outubro de 2012, fundar a Ciclo Courier. Começaram entregando camisas em parceria com uma marca que fazia a divulgação de uma campanha e, aos poucos, começaram a fazer entregas de outros tipos de encomendas.

No começo, a Ciclo funcionava na casa de Fox, um dos fundadores, que através do telefone e e-mail atendia aos chamados para as entregas. No início de 2013, foram convidados a ocupar uma das salas de um casarão construído no início do século passado localizado na Lapa, no centro do Rio de Janeiro, onde funciona a sede do Coletivo Nuvem, que promove eventos em espaços públicos da cidade. Além disso, no casarão acontecem oficinas de arte, fotografia, exposições, exibição de filmes e reunião de coletivos sociais.

Há três anos prestando o serviço de entregas rápidas com bicicletas pela cidade, a Ciclo Courier hoje conta com quatro mensageiros fixos e outros que trabalham como freelancer, realizando entregas em toda a zona sul, centro e parte da zona norte carioca. Prestam o serviço para pequenas, médias e grandes empresas. Promovem ainda a Oficina Triciclo, onde toda quarta-feira, a partir das 18 h, a Casa Nuvem, como é conhecida, se transforma em um espaço comunitário onde ficam disponíveis ferramentas para reparos e peças para troca e reposição. O lugar tornou-se um espaço que permite a convivência entre os ciclistas da cidade, onde é possível conversar e trocar experiências, contribuindo no processo de formação de uma identidade.

Porto Alegre

Outro exemplo vem da capital gaúcha. O repórter fotográfico Roberto Furtado esteve com o pessoal da Velo Courier, “que é uma cooperativa de entregadores na cidade de Porto Alegre, atuante desde 2012. Os entregadores contam com uma base, que é feita por um deles no dia de folga das entregas, e assim se revezam para entregar ou atender ao consumidor do serviço prestado por eles. O maior foco é na região central da capital do Rio Grande do Sul, mas eles costumam realizar entregas em regiões variadas. Desafiam as ruas esburacadas e os engarrafamentos como nenhum outro entregador consegue. Nas ruas trancadas do centro, chegam rápido, prendem as bicicletas rapidamente e lá está o material para o destinatário. Agilidade e sustentabilidade é o assunto... E se chover? A empresa courier chove junto”.

© Roberto Furtado

Curitiba

A Ecobike Courier nasceu em Curitiba, no ano de 2011. Cristian Trentin, idealizador e responsável pela expansão da marca, foi eleito pela Forbes em 2014 como um dos 30 jovens mais influentes abaixo dos 30 anos. Segundo Cristian, a empresa nasceu com o objetivo de melhorar o trânsito nos grandes centros especializando-se em logística sustentável, adaptando e melhorando a ideia original dos ciclistas mensageiros nova-iorquinos. As motivações que levaram à criação da empresa foi a oportunidade de negócio identificada, focando em atendimento premium e sustentabilidade.

© Guilherme Zawadzki

Com o know how adquirido em Curitiba, através de franquias a empresa expandiu sua atuação e já está presente também em São Paulo - SP, Rio de Janeiro - Rj, Campinas – SP, Porto Alegre – RS, Cascavel – PR e Recife – PE. Hoje, a Ecobike Courier conta com mais de 100 clientes, como O Boticário, HCor e SESC SP.

São Paulo

Em São Paulo, os irmãos Rafael e Danilo Mambreti, fundaram a Carbono Zero Courier no final de 2010, e tinham como objetivo prestar o serviço de entregas utilizando somente bicicleta, uma alternativa sustentável ao uso de motos para realizar entregas a curtas e médias distâncias, em uma cidade onde há cada vez menos espaço. Sua primeira sede era localizada no Centro de São Paulo, no espaço Hub, um centro colaborativo de empreendedores sociais.

Thiago Mourão, 36 anos, gestor de operações, conta que seu primeiro contato com a Carbono Zero foi a pouco mais de três anos, através de um amigo que encontrou ocasionalmente numa bicicletaria de seu bairro. “Trabalhei durante dez anos como fotógrafo e editor de imagens”, conta ele, “e cansado da rotina de escritório e das dificuldades que o mercado apresentava na época, desestimulado por engordar alguns quilos e por enfrentar problemas pessoais, percebi que precisava redirecionar minha vida. Assim, tomei a decisão de deixar para trás a antiga profissão e buscar algo novo, que me permitisse voltar a ter um bom condicionamento físico e liberdade. Impulsionado por estes sentimentos, me candidatei a uma vaga na Carbono Zero e comecei a trabalhar como mensageiro freelancer, o que me dava mais liberdade. Além disso, este ofício era encarado como uma terapia, ajudando a superar meus problemas pessoais”. Nesta época, a Carbono Zero contava com doze bikers. Depois de começar a pedalar pela Carbono Zero, Thiago passou a realizar pedais de longa distância. Em 2013, por exemplo, completou todas as séries de Audax.

Segundo Leonardo Lorentz, sócio e gestor da empresa, “a Carbono Zero Courier completa cinco anos com mais de 100 pessoas em sua equipe, sendo 12 mulheres. Nossos bikers pedalam para mais de 700 clientes, desde grandes empresas como PwC, Bovespa, Microsoft, Fleury, EDP, Diageo e Santander, até ONGs e startups. Contamos com uma sede de dois andares em Pinheiros e uma base na Barra Funda, na capital paulista, além de outras duas bases nas cidades de Barueri e Santos. Para atender clientes em 20 cidades da Grande São Paulo e da Baixada Santista, a Carbono Zero utiliza, além de bicicletas convencionais, bicicletas e scooters elétricas e bicicletas dobráveis associadas ao metrô, dependendo da distância e tipo de entrega. A partir de 2016, começaremos nossa expansão para as capitais do sul e sudeste. Sabemos que nosso crescimento depende da nossa equipe, portanto, temos a preocupação constante em preparar os bikers com treinamentos em mecânica, primeiros socorros, alongamento, postura, nutrição, fornecidos por profissionais especializados, com o objetivo de trazer mais segurança à vida do ciclista e torná-lo mais eficiente nas entregas”.

O que começou com o sonho de dois irmãos em difundir uma nova forma de fazer entregas, mais sustentável e ecológica em uma cidade caótica, hoje contribui no processo de popularização da utilização da bicicleta como um meio ecológico, rápido e confiável de entregas pela cidade.

Outra história semelhante é de Emerson Violin, fundador da Bikentrega – Entregas Não Poluentes. Em 2010, Emerson já utilizava sua bicicleta fixa para se locomover pela cidade. Formado em Gestão e TI, trabalhava com vendas de equipamentos de informática em sua residência, no bairro de Vila Mariana. Em um dia comum de trabalho, um dos clientes comprou algumas peças que precisava com urgência, mas não tinha tempo de ir buscá-las, e Emerson decidiu fazer a entrega de bicicleta. Quando chegou ao local notou que o cliente ficou admirado e muito satisfeito por Emerson ter chegado até ele de bicicleta. Surpreso com a reação do comprador, ele começou a cogitar fazer de bicicleta as entregas dos produtos que vendia, e após amadurecer a ideia motivado pela possibilidade de trabalhar de forma mais livre, econômica e sustentável, decidiu incorporar a bicicleta ao seu trabalho.

Ao perceberem que fazia as entregas de bicicleta com eficiência, seus clientes começaram a ligar e pedir que ele fizesse outros serviços, como serviços em bancos, cartórios e outros. Emerson comenta que as demandas foram crescendo até que, em 2012, percebeu que teria que escolher entre a informática ou as entregas. Ele continuou com as entregas, mas em dezembro do mesmo ano sofreu um acidente enquanto pedalava, fraturando o ombro e rompendo ligamentos, o que fez com que se afastasse das pedaladas enquanto se recuperava.

Em dúvida sobre o futuro da Bikentrega, já que realizava sozinho o serviço de entregas, decidiu contratar uma pessoa para trabalhar enquanto passava pelo processo de recuperação, e durante esse período percebeu que estar atrás da mesa permitia a ele administrar melhor o negócio, fazendo novos contatos e a divulgação do trabalho. A partir deste momento a empresa foi crescendo e conquistando novos clientes, e atualmente conta com 12 mensageiros, além de Emerson, que continua a fazer entregas. Ele comenta: “não aguento ficar muito tempo sem pedalar, ficar alguns dias somente dentro da sala já me dá coceiras. E mesmo eu sendo o proprietário da Bikentrega, trabalhamos com uma política bem horizontalizada, onde todos têm espaço para opinar e participar das decisões. Além disso, o fato de eu pedalar e continuar a fazer entregas me aproxima dos mensageiros e me dá uma total noção do que eles passam no dia a dia”.

A Bikentrega já cobre boa parte da região metropolitana de São Paulo, entregando documentos, flores, remédios, refeições, roupas e todo tipo de encomendas. A demanda por entregas vem crescendo a cada dia, o que já cria a expectativa de começar a trabalhar com bicicletas elétricas para fazer entregas em locais mais distantes.

Percebe-se que todos esses empreendimentos começaram a partir de ideias de pessoas que tinham o desejo de mudar e contribuir para tornar a cidade onde vivem mais sustentável e humana. E encontra-se exemplos assim como os que apresentamos aqui, no Brasil inteiro, de norte a sul. O que começou com uma pequena ideia, em casa ou num espaço compartilhado, cresceu e tornou-se uma alternativa viável de entregas, representadas por essas empresas que hoje estão estabelecidas no mercado, composta por mensageiros que prestam um serviço rápido e confiável onde, além do papel ecológico e sustentável, geram emprego, renda e, sem dúvidas, felicidade. 

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