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Cáucaso e Turquia

Conheça o pedal de Nicholas pela região do Cáucaso, uma grande região que abrange parcial ou integralmente seis países e bastante confusão: sul da Rússia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, norte do Irã e leste da Turquia, além da divisa com o Mar Cáspio.

Revista Bicicleta por Nicholas Allain Saraiva
33.160 visualizações
27/01/2015
Cáucaso e Turquia
Foto: Nicholas Allain Saraiva

Muitas das fronteiras entre eles estão em disputas e não são oficialmente reconhecidas uns pelos outros, sendo palco de muitas disputas históricas e recentes. Basta uma rápida olhada no mapa que você verá o contorno de bordas indefinidas, áreas em disputas e o mais estranho: áreas de enclave de um país dentro de outro, como se no Brasil tivéssemos pedaços de Argentina ou Paraguai dentro de Santa Catarina ou uma área do Peru no meio do Amazonas, muito esquisito.

Reflexo claro destas disputas e conflitos é a inimizade entre os povos e relações diplomáticas comprometidas. Armênia e Turquia, por exemplo, têm cerca de 270 km de fronteiras, mas nenhuma aberta, consequência da invasão turca e extermínio da população da Armênia no início do século XX, e possivelmente uma das razões do Brasil abrigar uma grande população de armênios, refugiados de guerra. Isso obriga o viajante a dar a volta ao norte pela Geórgia ou ao sul pelo Irã. Você deve se lembrar também da invasão da Rússia à Geórgia em 2008, resultando em duras críticas internacionais ao governo russo, que acabou recuando. Quando atravessei da Rússia para a Geórgia, no lindo cânion de Larsi, até a chegada à fronteira era incerto se eu poderia passar ou não, pois meu guia de viagem, de 2012, dizia que a fronteira estava fechada a estrangeiros e os moradores não estavam certos sobre a situação atual. Mas deu tudo certo.

Enfim, geopolítica à parte, vamos ao que interessa: pedal, pedal, pedal!

A região do Cáucaso e a Turquia são perfeitos para o cicloturismo, e muito procurados por europeus em viagens mais ou menos longas. Em poucos dias encontrei mais cicloturistas que em 16 meses na Ásia e Austrália. Tive a oportunidade de pedalar alguns dias com outros viajantes, vindos da Inglaterra, Alemanha, Suíça e Finlândia, além de muitos outros que cruzei quase que diariamente nas estradas nas rotas principais.

Contrastando com todo o seu entorno, o Cáucaso é um tipo de oásis com muito verde, água e clima agradável, cercado por regiões áridas ou semiáridas, sendo bem possível que este seja um dos motivos das invasões e conflitos entre as nações, além da divergência religiosa, pois se misturam muçulmanos e cristãos, ambos com suas diversas variações, ortodoxos e liberais.

De todo o Cáucaso eu atravessei o sul da Rússia, a Geórgia, uma parte da Armênia e o leste da Turquia, e o que posso dizer desses lugares é que são todos bastante rurais, cheios de áreas naturais propícias a acampar e habitados por gente hospitaleira, muito simpática aos brasileiros e com um grau de segurança social bastante grande. Gostei mais de acampar e transitar aqui que em outras áreas como Cazaquistão, Rússia e Quirguistão, pois lá também havia o povo simpático, mas muitas vezes intrometido, e aqui se mantém a simpatia com um senso de privacidade maior. A Turquia segue o mesmo padrão, além de um fator a mais que pude perceber: as famílias turcas têm o hábito de acampar e fazer piquenique, o que até então só tinha visto na Austrália, e o país tem muitos parques e campings públicos propícios para isto. Nestas áreas é possível acampar gratuitamente com tranquilidade e geralmente você terá oportunidade de conhecer famílias locais, tomar um bom chá turco e ganhar um quebab (churrasco turco)!

Alguns trechos do Cáucaso foram excepcionalmente memoráveis e deixo como dica para cicloturistas em busca de lugares para explorar: o norte da Geórgia, perto de Kazbegi, o nordeste da Armênia no cânion do rio Debed, o altiplano entre o noroeste da Armênia e o sul da Geórgia na região de Vardzia, o cânion do rio Mtkvari e a costa do Mar Negro. São regiões com muita história, ruínas de castelos medievais, monastérios milenares cravados em cavernas nas montanhas, trechos descritos nas sagas de Alexandre o Grande e conquistados por Gengis Khan. Neste local também fica o lindo maciço Ararate, a montanha onde, segundo a tradição judaico-cristã, aportou a Arca de Noé depois do Dilúvio. Foi uma honra atravessar estas regiões e recomendo demais, além das capitais Tbilisi e Yerevan, ambas lindas e históricas. O custo de vida é um pouco mais barato que no Brasil, mas não muito. A parte boa é que é uma região pequena e dá para percorrer tudo de bike em um período de férias normais de 20 ou 30 dias. Com exceção de Jack, um inglês que estava numa jornada mais longa, os outros cicloturistas que encontrei eram viajantes de férias de verão.

Passei meu aniversário justamente entre Armênia e Geórgia e na manhã aconteceu um fato surpreendente. Eu estava acampado na beira de um cânion, a cerca de 800 m de um hotel e perto das 7 h 30 min alguém me chama do lado de fora; eu sonolento abro a barraca e vejo um cara com uma sacola na mão e um copo de café quente! Na sacola havia pães, algumas verdurinhas, geleia e um pedaço de carneiro assado. O  cara me entregou as coisas, sorriu e partiu em direção ao hotel. Incrível, onde mais no mundo isto aconteceria?

Na mesma “pegada histórica”, a região da Capadócia no centro da Turquia é imperdível, daqueles lugares únicos no mundo; um complexo arquitetônico milenar de casas, monastérios e igrejas cravados em cavernas nas montanhas e fundados por cristãos antes da conversão do país ao islamismo. Depois da Capadócia resolvi sair do roteiro turístico e entrar na região central da Turquia, indo para o santuário de pássaros de Nallihan, que me surpreendeu pelas lindas paisagens semiáridas de montanhas multicoloridas e paisagem lunar. Região dura de pedalar, com dias de sol a 42°C, vento contra, larga distância entre cidades e pontos de reabastecimento de água e muitas subidas, mas sempre cobertas por excelentes estradas, mesmo as mais isoladas. Teve um dia de pedal a 7,8 km/h de média, talvez a pior de toda a viagem.

Passei por Ancara, capital da Turquia, para receber um pacote com o carregador solar que minha prima da Inglaterra me enviara e revisar a bike. Acabei conhecendo um cara através do couchsurfing que mais uma vez me surpreendeu. Trocamos algumas mensagens por e-mail, ele me aceitou para ficar uns dias na casa dele, mas não disse que ele não estaria lá, que teria que viajar a trabalho. Nos encontramos rapidamente em um metrô, conversamos dois minutos, ele me deu as chaves da casa dele e partiu! Nos encontramos apenas três dias depois quando ele voltou de viagem e pudemos de fato nos conhecer. Lembrou-me de algo que me ocorreu cerca de 15 anos atrás com meu grande amigo Ricardo de Carvalho, na primeira vez que saí do Brasil de mochilão, sem rumo e sem dinheiro, quando conhecemos uma família em Buenos Aires que também nos deu as chaves da casa deles sem estarem lá, na absoluta confiança. Esta viagem foi a precursora e uma das responsáveis por eu estar aqui agora, a caminho da próxima etapa, que será atravessar os Bálcãs rumo à Europa Central. 

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