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CicloDendê 2015

“Quero fazer cicloturismo para Aracaju”, era a ideia da viagem de Daniel Bagdeve. Mas, graças ao nosso poder de convencimento, mudamos os planos e decidirmos ir para Itacaré, percurso já conhecido por Jason Dias, que também seria o nosso guia. Aliás, como forma de agradecimento, fizemos uma camisa com a sua caricatura, que foi usada durante toda a viagem. No entanto, seríamos cerca de 30 pessoas, o que muda toda a logística, inclusive de reserva de pousadas e restaurante. Foram 4 meses de preparação, afinal, para muitos, era a primeira cicloviagem, a primeira vez que pedalaria tantos quilômetros em vários dias seguidos, a primeira vez com peso na bicicleta.

Revista Bicicleta por Marcella Marconi
4.928 visualizações
10/10/2015
CicloDendê 2015
Foto: Marcella Marconi

Com participantes que vieram até de Maceió, muitos do grupo se conheceram no primeiro dia de viagem, quando chegamos no Terminal de São Joaquim, em          Salvador - BA, para pegar o Ferry Boat, às 5 h.

O clima de ansiedade e descontração dominava o ambiente. Fomos brindados por um belo nascer do sol na Baía de Todos os Santos.

Após 1 h de travessia, desembarcamos e paramos para tomar café da manhã. Entre sucos de laranja, pães na chapa e pães com ovo, saímos para iniciar nossa pedalada.

O primeiro trecho da BA-001 transcorreu sem problemas. Paradas para lanches e hidratação, muitos pegando o ritmo, acertando a cadência. O terreno, sem grandes elevações, ajudava a manter um ritmo bom. No entanto, o acostamento é muito usado por ciclistas locais e moradores da Ilha de Itaparica, além do movimento de veículos entrando e saindo das localidades, o que demandava muita atenção para evitar um acidente.

Alguns já se destacavam pelo preparo físico e destreza com a bike. Apesar do grupo ser muito eclético, com bicicletas dos mais variados tipos e grandes diferenças de idade, o grupo permanecia coeso.

A primeira foto oficial do CicloDendê 2015 ocorreu na Ponte do Funil, local de grande beleza e que liga a Ilha de Itaparica ao continente. Era o momento de exibirmos as nossas camisas, patrocinadas pela Litoraneus, que apostou no sucesso de nossa empreitada.

A parada para almoço foi em Nazaré das Farinhas. Descansamos um pouco e nos reabastecemos de água.

A sobremesa foi uma ladeira intimidadora. Frios e de barriga cheia, o ritmo foi bem lento. Após algumas subidas e descidas, tivemos a primeira corrente quebrada. Power link para cá, emenda para lá, seguimos viagem. Esse segundo trecho da viagem foi sofrido. Muito calor, um sol para cada um. Terreno inóspito, sem grandes atrativos, ladeiras incômodas. Se esse trecho era o mais longo, porém, mais plano, não sabíamos o que esperar do temido terceiro dia. Passamos pelas cidades de Jaguaripe, Aratuípe e pelo entroncamento de Maragogipinho.

Apesar de termos enchido várias garrafas e squeezes, a água foi acabando. Cada gole era racionado, o que estava deixando a todos nós um pouco apreensivos.

A alguns quilômetros de Valença, os policiais rodoviários estaduais nos deram água. Revigorados e com as garrafas cheias, pedalamos rumo à primeira cidade de pernoite. Logo na chegada, fomos recepcionados por Agamenon Fonseca, do grupo Valença Bike, que tirou fotos conosco e nos guiou para o hotel. Fica aqui o registro de nosso agradecimento pela acolhida. Bicicletas acomodadas, todos foram procurar um lugar para comer e voltar rapidamente para o hotel e descansar, afinal, o primeiro dia começou muito cedo e ainda havia mais dois dias pela frente. Neste primeiro dia foram 107 km percorridos.

2º dia de viagem

Nosso destino era a cidade de Camamu. O roteiro prometia ser mais agradável que o do dia anterior. A saída demorou um pouco. Calibrar e regular tantas bicicletas demandou tempo. Era preciso paciência.

O terreno contava com mais subidas, mas a geografia também nos ajudava nas descidas, poupando nosso esforço. O trecho era mais arborizado, a Mata Atlântica nos dava sombra e vento fresco, além de lindas paisagens. Passamos inicialmente pela cidade história de Taperoá, a maior produtora de guaraná do Brasil, e que conta com um píer náutico que se debruça sobre o extenso manguezal.

Paramos em Nilo Peçanha para almoçar. Nesse momento, encontramos também nossos batedores, o noivo de Flavia Bahia e o namorado de Taty Gonçalves, que colocaram alguns alforjes e bagagens na mala do carro. Sim, alguns de nós preferiram diminuir o peso carregado na bicicleta. Seguimos para o restaurante Siri Cascudo, um barco ancorado no Rio das Almas. A experiência já valeu o pedal até ali.

Deixamos as bikes em uma margem, sob os cuidados de Saramandaia, e atravessamos em um barquinho. Nesse momento, o nosso terceiro batedor, marido de Marcella Marconi, se juntou ao grupo. Teve banho de rio, comida boa, cochilo na rede e energia renovada. 

Agora era força no pedal para a segunda etapa do dia. Não, espera, alguém esqueceu a carteira. Volta para buscar. Não achou, volta. Segue o grupo. Desencontro. Ultrapassaram o batedor. De repente, éramos pequenos grupos pedalando de forma esgarçada. Para tudo e vamos ajeitar isso. Enquanto esperávamos, rolou sorvete e até ganhamos um saco de laranjas. Vários minutos se passaram na cidade de Ituberá até que estivéssemos todos reunidos novamente. Perdemos muito tempo. A visita à Cachoeira da Pancada Grande, a mais alta da Bahia, com 61 m de queda livre, estaria prejudicada. Um clima um pouco tenso dominou o ambiente. A parada foi providencial para que o grupo voltasse a sorrir e o ar ficasse mais leve.

No entanto, fatalmente pegaríamos a estrada durante a noite. Alguns estavam receosos, mas não havia nada que pudesse ser feito, apenas garantir uma condução segura. Pedimos para Erico ir à nossa frente. Leo e Rafa iriam atrás. Ainda assim, o grupo em vários momentos se distanciou. Foram cerca de 30 km de escuridão quebrada basicamente pelo farol dos carros e nossas luzes. Tenso, emocionante e divertido. Subíamos e descíamos ladeiras sem vê-las. Passamos pela cidade de Igrapiúna e chegamos sem incidentes a Camamu após 80 km percorridos. Aqui, a esposa de Moisés Matos e sua filha se juntaram de carro ao grupo.

O medo do dia seguinte dominava as rodas de conversas. Quase todo mundo admitia a possibilidade de pedir para ir em um dos carros. Quem conseguiu dormir de tanta ansiedade?

3º dia de viagem

Amanhece o dia e começa o último trecho da viagem. Seriam 66 km, 26 ladeiras, 1.536 m de elevação. Serra das Onças. Subidas de paredão. Já na saída de Camamu, pegamos uma logo de cara. Era o aperitivo. Logo depois, outra. E outra. E essa descida? Frio na barriga. Segura esse guidão! Melhor nem olhar o ciclocomputador. Primeira queda. Lourdes Pinto comprou um terreno na Costa do Dendê. Tudo bem, vamos colocar essas ladeiras no bolso. Todos subiram sem descer da bike, mesmo Renata Aiala, que estava com uma bicicleta vintage, dos anos 70, com apenas 10 marchas.

Depois de 25 km, paramos para conhecer a Cachoeira do Demé e do Tremembé. Banho maravilhoso. De roupa e tudo, que o calor estava de matar.

Atravessamos a pista e fomos para a Ilha Veneza, propriedade particular que conta, além do restaurante, com uma cachoeira que deságua diretamente no mar. Teve pitú, moqueca de palmito, peixe frito, mel de cacau e uma demora sem fim para a comida ficar pronta. Muitos se estressaram na saída, por conta do receio de pegar a estrada novamente à noite.

Partimos.

Último trecho antes de Itacaré. Como seriam as ladeiras? Aguentaríamos? Pediríamos socorro aos batedores e colocaríamos as bicicletas no transbike? E elas começaram. Uma, duas, duas em uma só, longos trechos de subida. Para na metade. Respira, descansa. Ajeita a marcha da bike, que não estava passando para a mais leve. Olha para o chão. Não olha para cima! Inspira. Expira. Opa, nessa aqui dá até para conversar. E sorrir! Mais subidas. Descidas. Não existe trecho plano não?

E daí ela veio. Umas das subidas mais difíceis. Sofrida, 4 km/h. Procura uma marcha mais leve. Não tem. Cata o restinho de força. Não, descer não era uma opção. Acabou! Acabou! Agora é descida! A melhor. A mais incrível. A mais emocionante. Mais de 65 km/h. Na fé. Solta o freio! Sai da frente! Risadas. Lágrimas. Eu consegui. Nós conseguimos! Olhamos para trás e nos demos conta do que acabamos de fazer.

Vamos em frente. Mais uma queda. Calma, vai dar tudo certo. Ainda resta uma subida difícil. É a última. A gente consegue. Já deixamos tantas para trás. Força, se não deu para subir pedalando, empurra. O que importa é chegar lá em cima. E que chegada. O que é esse pôr do sol? Isso é que é prêmio! 

Ainda faltavam alguns quilômetros para Itacaré, mas aquele ali, de certa forma, foi o nosso ponto de chegada.

Nossos acompanhantes continuavam fazendo um trabalho impecável nos ajudando. Faziam fotos, filmavam, nos davam água, diziam palavras de incentivo... E se divertiam, claro!

Mais um trecho de estrada à noite. Sem problemas, faltava pouquinho agora. Até ciclofaixa tinha. Bem-vindo a Itacaré. Obrigada! Chegamos. Alguns muito antes, outros um pouquinho antes, mas um grande núcleo permaneceu junto e compartilhou do momento e da emoção da chegada.

Em três dias, 28 pessoas e duas ou três quedas. Nenhum problema mecânico grave. Sem brigas. Muitos alcançaram seu objetivo de fazer a viagem de forma independente, contando apenas com o que havia levado em seu bagageiro. Outros preferiram despachar parte da bagagem e garantir um pedal mais tranquilo. Alguns optaram por imprimir um ritmo forte, e seguiram praticamente sem o grupo boa parte do tempo. Houve quem, podendo fazer mais, respeitasse o ritmo acertado, ainda que em determinados momentos desse aquela esticada. E teve os que permaneceram juntos o tempo inteiro. Conversando, se ajudando, dando força, compartilhando as conquistas, trocando emoções. No fim das contas, apenas uma pessoa decidiu, por limitações de saúde, não pedalar o último trecho. Mas ela chegou junto conosco, com certeza.

E assim concluímos o CicloDendê 2015, Salvador – Itacaré. Qual será nosso próximo destino?

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