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Cicloturismo de experiência Simbiose entre pessoas e as cidades

Por Leandro Karam
1.378 visualizações
15/12/2016
Cicloturismo de experiência Simbiose entre pessoas e as cidades
Foto: Andruz Vianna

A origem etimológica da palavra “cultura” remete à “ação de tratar”, “cultivar”, inicialmente aplicada ao conjunto de operações necessárias para que a terra expresse seu potencial de fertilidade. Mais recentemente, este significado estendeu-se para o campo antropológico, referindo-se ao desenvolvimento de capacidades intelectuais e educacionais das pessoas. Algo que se relaciona com a instrução, estudo e construção de conhecimentos sobre o mundo onde vivemos e sobre a nossa situação e postura diante dele.

A construção das cidades acompanha a trajetória humana a partir do momento em que o homem passa a criá-las e reconstruí-las intermitentemente, conforme suas necessidades e aspirações. Como seres culturais, a espécie humana vive em constante evolução em seu modo de compreender, interagir e modificar este meio do qual é parte indissociável.

De uma maneira muito especial, tanto para quem vive ou quanto para quem está interessado em viver experiências originais e genuínas nas cidades que visita, a vivência do turismo em bicicleta representa o aumento significativo de possiblidades de viver-se dimensões ainda inimagináveis se comparadas ao uso de outro meio de transporte.
O objetivo deste ensaio é traçar alguns paralelos entre a experiência turística realizada em duas rodas ciclísticas e a qualidade das mesmas como potenciais geradores de empirias positivas tanto para o turista quanto para as cidades visitadas, tomando como referência a municipalidade de Pelotas e suas características promissoras de uso recorrente e prioritário da magrela, seja por visitantes que aqui aportam.

Os efeitos positivos do cicloturismo urbano são tantos e por sua vez tão benéficos para o visitante e para as cidades que é praticamente inconcebível pensar sobre uma urbe suave e humanizada sem pensar e agir para torná-la plena e efetivamente ciclável em todas as suas dimensões.

Adentrar o universo da experiência turística em bicicleta significa aflorar ótimas chances de tornar uma simples manhã, tarde ou dia inteiro de folga em histórias riquíssimas e aprendizados que farão parte de suas melhores memórias. Para melhor compreensão é oportuno pensarmos no conceito de hospitalidade para além da qualidade na recepção do visitante pelas comunidades locais.

Na perspectiva do desenvolvimento urbano e da construção qualitativa das relações socioculturais entre a estrutura física das cidades e as pessoas, a hospitalidade se refere às diversas possibilidades de mobilidade e acesso a lugares, serviços e experiências que farão o visitante sentir vontade de retornar e indicar estes destinos aos amigos.
Em uma conversa com Maurício Polidori, especialista em Planejamento Energético e Ambiental, mestre em Planejamento Urbano e Regional e doutor em Ciências na área de Ecologia de Paisagem; atualmente exercendo o cargo de diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas, falamos sobre diversas formas pelas quais as cidades se beneficiam no tocante à implementação de serviços de cicloturismo. Dentre elas a estratégia de gerar maior envolvimento e empatia com o público turista.
Apesar das limitações do uso da bicicleta em algumas circunstâncias que o ambiente urbano dispõe, ela apresenta muitas potencialidades que merecem distinta atenção. Das primeiras décadas do século XX até hoje a distância apontada como segura para deslocamento por bicicleta se elevou de 2 km aos atuais 5 a 7 km por diferentes razões, que variam do aumento da qualidade das bicicletas à ampliação da malha viária dos municípios brasileiros.

Segundo Polidori, o uso da bicicleta como opção de deslocamento urbano apresenta o potencial de atender plenamente ao acesso e mobilidade das populações em municípios de até 50 mil habitantes. Como esta é a realidade de aproximadamente 90% das cidades brasileiras é de bom tom dizer que os processos de transformação e readequação dos espaços urbanos tenham foco estratégico em cidades pequenas.

No entanto, Pelotas é uma cidade de porte médio, com cerca de 350 mil habitantes e que reúne uma quantidade interessante de potencialidades para o uso da magrela. Uma delas é o fato de que o centro da cidade coincide com seu centro geométrico. Isso faz com que a maioria dos deslocamentos das pessoas passem pelo centro. Esta característica aumenta também as possibilidades de rota entre uma região e outra percorrendo distâncias menores. Além disso, os lugares remotos da cidade estão conectados por grandes avenidas que formam o que chamamos de vias “radiais”, que facilitam as opções de rotas e as possibilidades de exploração do espaço urbano para fins turísticos.
Informado de que em Pelotas está sendo estruturado um serviço de comercialização de roteiros de cicloturismo urbano cultural, Polidori menciona a importância deste tipo de serviço para a valorização da experiência turística e ilustra com empolgação a experiência que teve na cidade de Faro, em Portugal, onde experimentou um serviço de aluguel de bicicletas que o impressionou pela qualidade e opções oferecidas.

Ao telefonar para a empresa prestadora solicitando o serviço, um rapaz levou até ele, de Van, um conjunto de bicicletas Specialized de diferentes modelos a escolher conforme o tipo de uso pretendido. A partir daí, Maurício pedalou livremente pela cidade e teve acesso a lugares, pessoas e comunidades que não teria sido possível acessar de carro ou a pé. O fato de ter fácil acesso à bicicleta agregou inigualável qualidade à sua estadia em Faro e contribuiu para que ele tenha até hoje o desejo de lá retornar, além de que passou a recomendar recorrentemente aos amigos para que também experimentem o turismo naquela cidade.
Questionado sobre as novas ciclofaixas e ciclovias da cidade, Maurício menciona que melhoramos muito a nossa situação, e como contribuição aponta duas questões importantes a se observar. Uma de cunho prático e outra conceitual.

A questão prática se refere à falta de conexão entre as ciclofaixas e ciclovias da cidade e a falta de sinalização para a segurança dos usuários. Além disso, ainda vivemos a falta de opções de espaços seguros para deixar a bicicleta quando se alcança o destino final. Pois além da mobilidade, é preciso que se providencie maior e melhor acesso aos serviços e espaços urbanos, pois uma vez que a pessoa chega a seu destino, é preciso “se livrar” da bicicleta, seja para ir ao cinema, ao banco, ao banheiro etc.
Sobre a questão conceitual mencionada e não restrita à realidade pelotense é a ideia generalizada da concepção da bicicleta como excepcionalidade, como algo extravagante, fora do “normal”. Menciona que muitas pessoas imaginam que bicicletas sejam meios de locomoção de quem é pobre demais e paga R$ 100 por uma, ou ricos demais, que paga R$ 5 ou 10 mil pelas suas, e não relevam a existência de bicicletas de R$ 600 que podem dar conta perfeitamente da necessidade de transporte diário, por exemplo.
Polidori menciona também que ao longo do avanço da construção das cidades, primeiro foram dados espaços para a circulação de carros e motorizados e somente depois é que resolveram pensar em proteger quem opta pela bicicleta. Se formos de carro para um lugar é natural pensarmos que haja meios para ir e estacionar. Se o cidadão for de bicicleta já não é garantido, e quando tem, não raro é visto como excepcionalidade. Portanto, ainda não há uma equalização do sistema, mas admite que estamos avançando bastante nos últimos anos, ainda estejamos longe de termos cidades cicláveis.

Uma das iniciativas pró ciclomobilidade existentes na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAURB), instituição da qual é dirigente, é o projeto piloto Ciclo.UFPel, que há cerca de um ano disponibiliza o total de quatro bicicletas para uso dos alunos e comunidade universitária para uso em deslocamentos às diversas unidades da instituição, distribuídas em várias regiões da cidade.

Alguns trechos interessantes de nossa conversa fazem referência à relação entre a prática e a sistematização do conhecimento por ela gerado.

Seguem algumas observações feitas pelo urbanista:

“Quando se pratica algo, se produz conhecimento sobre este algo. A experiência em uma cidade pesada e bruta contribui para a formação de agressores. Da mesma forma, uma cidade suave e hospitaleira no sentido de possibilidades de deslocamentos e geração de experiências agradáveis também contribui potencialmente para a formação de cidadãos suaves, pacíficos e agradáveis”.

“As pessoas que usam o serviço da Ciclo.UFPel acham simplesmente maravilhoso e elas próprias tornam-se mais maravilhosas a cada experiência. Tabular o conhecimento gerado é a intensão do pesquisador em descobrir mais sobre a cidade. Mas o andador é que é a chave, não o pesquisador. O charme da história é a experiência. O usuário, em si, é um agente multiplicador pelo simples fato de experimentar a cidade de bicicleta”.

Trocando em miúdos, quanto mais bicicletas nas ruas, melhores se tornam estas ruas. Combater esta ideia com o argumento de que o seu uso não é viável é apenas uma maneira frágil de camuflar a inviabilidade explícita de um sistema estabelecido e centralizado no automóvel e nos motorizados que das mais diversas formas e nas mais diversas dimensões reforçam a continuidade de um modelo de reconstrução urbana contrário à pacificação, à hospitalidade e ao convívio social. Isto é, afasta a urbe daquilo que é desejável e necessário para deixarmos aos nossos filhos o legado de um ambiente urbano minimamente digno, confortável de ver, conviver estar e sentir-se bem.

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