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Circuito Lagamar São Paulo de Cicloturismo: história, cultura e paisagens.

Uma das dimensões fundamentais do Cicloturismo é a questão ambiental, a conservação da natureza pelo uso sustentável. Pedalar por entre imensidões verdes sob o risco de degradação é uma maneira de permitir que mais e mais gente se sensibilize sobre aquele patrimônio e, assim, tome consciência. Lançado em Novembro de 2015, o Circuito Lagamar São Paulo de Cicloturismo lançou também um desafio às comunidades pertencentes ao circuito e aos visitantes: conservar a maior extensão contínua de Mata Atlântica do Brasil através do Cicloturismo! Já preparou seus equipamentos? O convite já está feito. É hora de pedalar por aqui!

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
2.699 visualizações
05/04/2016
Circuito Lagamar São Paulo de Cicloturismo: história, cultura e paisagens.
Foto: William Mendes

Emociona cruzar a ponte que liga Ilha Comprida (ponto de partida do Circuito) a Iguape e deparar-se com um cenário que conta uma parte quase esquecida da história do país, datada de 1.531 ou antes, possivelmente. Emociona mais ainda ver a senhorinha pedalando com um pouco de esforço sua bicicleta sem raça definida, indo para o trabalho, feliz. Como ela, centenas de outros ciclistas cruzam por nós, nos dois sentidos, como se fizéssemos parte do vai-e-vem cotidiano daquele lugar cheio de memórias, onde o tempo fez por onde esquecer de si mesmo.

Vale ressaltar, inicialmente, que a proposta de lançar um circuito de Cicloturismo reunindo cidades onde a bicicleta já faça parte do dia a dia da população é uma cartada certeira.

Em uma iniciativa inédita no país entre uma consultoria ambiental e uma intendência municipal, a WM Multiambiental e a Prefeitura de Ilha Comprida respectivamente, foi levada a cabo a ideia de proteger o rico patrimônio socioambiental e cultural daquele contexto geográfico através de uma prática responsável de Turismo. Entre tantas opções, a escolha foi pelo Cicloturismo, reconhecido pelo mundo como uma das experiências de Turismo com maior geração de benefícios a médio/longo prazo. É possível que em nenhum outro circuito de cicloturismo no país tenha havido tal preocupação a priori, de garantir a sustentabilidade socioambiental tendo como meio a atividade cicloturística.

O Circuito Lagamar São Paulo de Cicloturismo, distante pouco mais de 200 km da capital paulista e 260 km de Curitiba, tem início na municipalidade de Ilha Comprida, passando pelos municípios de Iguape, Pariquera-Açu, Jacupiranga e Cananéia, regressando à Ilha Comprida pela beira do mar, passando pelas dunas de Juruvaúva, Boqueirão Sul e Estrada da Vizinhança, perfazendo aproximadamente 180 km. Nenhum dos trechos que compõem o circuito superam 65 km de distância entre os pontos.

Pedalamos por lá em final de agosto a convite dos responsáveis pelo circuito e nos deparamos com um tipo de experiência que, no mínimo, vai mexer com a cabeça dos amantes do esporte.

Primeiramente, este é um circuito concebido para favorecer que principiantes em Cicloturismo tenham acesso imediato à prática, dada a mínima altimetria dos caminhos rurais, ribeirinhos e litorâneos. Inúmeras passagens de pontes, várias balsas, presença constante de parques estaduais como o de Campina do Encantado, a Estação Ecológica dos Chauás e da Estação Ecológica Juréia-Itatins. E os atrativos não param por aí: são incontáveis mananciais, cachoeiras, comunidades agroecológicas que praticam o repovoamento de abelhas, praias, dunas (possivelmente as últimas dunas intocadas do estado de São Paulo), canais, manguezais, povoados históricos, enfim, tudo isto gerando um conjunto eclético de motivadores que soma-se à docilidade da cultura caiçara daquele povo, revelando cenários plenos de simplicidade.

Quando citamos simplicidade queremos abordar a maneira tremendamente tranquila com que se pode percorrer tais caminhos, o que motiva sobremaneira a que novos cicloturistas aceitem a mínima dificuldade como um convite. É comum ouvir a passarada num alvoroço e estardalhaço pelas manhãs e aos finais de tarde, cruzar com espécimes lindos como a Maria-Faceira ou com o voo estonteante pelo estuário lagunar dos quase extintos Guarás, naquele vermelho absoluto pintando a tela do dia e tirando o fôlego dos desavisados. Também chama a atenção a presença dos botos em seu bailado, ora ou outra sendo avistados pelos canais.

As Vilas Caiçaras, como a de Pedrinhas, por exemplo, conservam a cultura nos mínimos detalhes, como a cachaça com cataia e os pratos à base de pescado feitos à maneira Caiçara. As festas religiosas também atraem turistas aos milhares para a região, como a de Bom Jesus de Iguape, no final de julho e começo de agosto. Não deixe de conhecer as rabecas e violas feitas artesanalmente por caiçaras na Vila Nova, antigamente usadas para animar os fandangos, além da comunidade caiçara de Vila do Prelado. Ou seja, como se vê este circuito é muito mais do que feito de belas praias.

O centro histórico de Iguape, por sua vez, abriga um sem-número de casarios coloniais datados do final do século XVIII, tombados pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, em 2009, além da Basílica de Bom Jesus do Iguape onde se encontra o Museu de Arte Sacra. Passear por entre as ruas deste casco repleto de patrimônios a céu aberto é bastante aprazível, contando com variada e saborosa gastronomia local à base de peixes e frutos do mar, banana verde, taioba e arroz lambe-lambe (cozido com caldo de peixe, mariscos e vinho branco). Quem já experimentou o bolinho frito de taioba sabe do que estamos falando. A simplicidade presente na cozinha caiçara é, possivelmente, sua grande surpresa.

Pariquera-Açu é o caminho de acesso a Jacupiranga, ladeado por mangues, campos e pequenas colinas. Nesta última, Jacupiranga, esperam o cicloviajante as corredeiras dos rios Pindaúva Grande e Guaraú, além das Cachoeiras do Roncador, do Desemboque, da Queda, da Figueira, Setúbal e do Ribeirão do Salto. Então, os banhos de água doce de ótima qualidade também estão garantidos aos cicloviajantes. Os grupos de pedal, como o MTB Riders de Jacupiranga, têm realizado um importante trabalho de monitoramento de trilhas além de atividades culturais e sociais que amplificam a caracterização de um circuito plural e diverso, além de aumentar consideravelmente o número e qualidade dos praticantes de Mountain Bike.

Seguindo de Jacupiranga em direção a Cananéia, voltam os caminhos rurais cercados de muito verde pelo trecho de 45 km. Com mais de quatro séculos de história, Cananéia é uma estância balneária tranquila em meses fora da temporada alta de verão, sendo possível acessar com facilidade os casarios do centro da cidade próximos à Avenida Beira Mar. Os restaurantes e o artesanato local brindam os visitantes, além da cidade oferecer boas opções de hospedagem e serviços, incluindo as sete praias de seu território e a Ilha do Cardoso.

O último trecho, de 65 km, leva de Cananéia ao Centro de Ilha Comprida, inicialmente por um trecho muito interessante, sendo possível pedalar na areia da praia. O contraste de abandonar a pedalada por entre a mata e jogar-se a pedalar pela extensa faixa de areia junto ao mar possibilita a reflexão, tamanha é a amplitude da visão e a ausência quase total de civilização. O pedalar tranquilo favorece que logo a faixa urbanizada de Ilha Comprida que orienta em direção ao centro da cidade, apareça.

A Estância Balneária de Ilha Comprida conta com variada gastronomia, locais para camping, pousadas, padarias e cafés, passeios de Catamarã, além de ser o ponto de encontro de esportes de aventura e da boa música.

Agora, Ilha Comprida também passa a ser um lugar no sul do estado de São Paulo onde o Cicloturismo é muito bem-vindo. Citamos a visão de futuro do atual prefeito municipal, Sr. Décio José Ventura, que voltou parte de sua atenção para a potencialidade do Cicloturismo, apostando na criação do circuito que também irá beneficiar as cidades circunvizinhas.

Em nossa opinião, aproximar os cicloviajantes destas comunidades é uma ação ciclocidadã baseada em multidiversidade, portanto, cabe o elogio ao gestor público e ao consultor ambiental pela ousadia. Vale lembrar também que o Turismo de Massa (aquele baseado em consumo gerado pela aglomeração de centenas de milhares de pessoas em uma temporada alta) está com os dias contados, dada a tomada de consciência da população de que, muitas vezes, destinos massificados são sinônimo de péssimo atendimento, esgotamento de recursos, violência urbana, falta de água e saneamento, filas intermináveis nos restaurantes e supermercados, trânsito caótico em plena época de férias, pessoas estressadas, produtos servidos de qualquer forma, entre tantos outros agravantes. Isto não é desenvolvimento, ao contrário, isto é um retrocesso.

O Cicloturismo é uma forma inteligente de conservação da biodiversidade: cultivar uma presença positiva junto à natureza e o convívio com as culturas tradicionais, investindo em Turismo de Experiência. Como dissemos ao começo desta matéria, conservar através do uso sustentável é uma maneira de educar para o presente e para o futuro. E o Cicloturismo pode ser, com certeza, uma das formas mais interessantes de gerar desenvolvimento cidadão, limpo, responsável, humanizado, acessível a todos.

Ficamos felizes por mais um circuito assumido pela gestão pública e oferecido à comunidade.

 

E viva a Bicicleta, sempre!

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