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Deixem em paz quem precisa do carro!

Revista Bicicleta por André Geraldo Soares
36.768 visualizações
19/06/2015
Deixem em paz  quem precisa do carro!
Foto: Charnsitr / Shutterstock.com

É comum a queixa, por parte dos motoristas, de que o discurso ciclístico não considera que o carro é uma necessidade. “Eu preciso do carro, não posso pedalar nem andar de ônibus”, dizem uns. “Nós temos pressa, não atrapalhem o nosso trânsito”, imploram outros. Pois bem, por defendermos que a sociedade não pode abrir mão do carro, vou me aliar aos queixosos e pedir: ei, motoristas que não precisam usar carros, deixem em paz quem precisa deles!

Ou seja: ao invés de se fazerem de vitimados pelos ciclistas – que não pedem mais que seu justo quinhão –, quem precisa do automóvel deve reclamar com quem verdadeiramente paralisa e parasita a cidade e transforma a vida de todo mundo em um inferno.

Num extremo: ambulâncias precisam do trânsito desobstruído, entregadores de materiais de construção precisam de local para estacionar, mecânicos de elevadores têm pressa para liberar pessoas presas nos elevadores. E no outro extremo: dondocas que vão passear no shopping não precisam ir de carro, jovens sarados e sem outro compromisso não precisam de carro para cursar uma universidade, não dá pra cada membro da família ter seu próprio carro.

Entre um extremo (a sociedade precisa do carro) e outro (os motoristas paralisam a sociedade) existem infinitos casos, que ilustram tanto os benefícios e potencialidades dessa extraordinária ferramenta tecnológica que é um veículo a motor, quanto a incrível capacidade que o ser humano tem de desperdiçar recursos e de atrapalhar a vida alheia.

Não se pode afirmar, sem mais, que um carro é uma necessidade. Necessário é aquilo que não pode deixar de ser ou de se fazer, aquilo do qual não se pode abdicar, o que é essencial e imprescindível. Ora, muito poucos usos do carro cabem nessa definição.

Em primeiro lugar e diretamente porque uma boa parte do que é definido como necessário não passa de comodidade, de falta de hábito ou de pura preguiça. E, de forma ampla, porque a atual dependência do carro é originada do modelo de mobilidade urbana implantado pelo Estado para gerar o consumo de carros. Assim sendo, o que é necessário mesmo, mas mesmo realmente, é privilegiar o transporte público e o transporte a propulsão humana, para que os carrodependentes não possam alegar falta de condições para deixar de usar o carro.

Ou seja, quanto mais eficientes, confiáveis, seguros, confortáveis e baratos forem os ônibus, o ciclismo, as calçadas e as próprias ruas, mais pessoas poderão migrar do congestionamento e da guerra que causam para a fluidez e a paz que o transporte público, a bicicleta e o caminhar proporcionam.

Nós não precisamos, nem conseguiremos, definir com exatidão o que é um uso necessário do carro, menos ainda impedir que quem não se encaixe nesse perfil use o carro. Mas é plenamente possível planejar uma cidade e oferecer mais de uma alternativa adequada para as necessidades de deslocamento de cada cidadão.

Portanto, antes de tudo, é preciso pesquisa, levantamento de dados sobre a mobilidade urbana: conhecer a quantidade, funções, extensões, destinos e rotas dos deslocamentos que os membros das famílias fazem cotidianamente. Só assim será possível dimensionar o transporte público e a infraestrutura cicloviária, só assim tais modalidades poderão ser desenhadas de forma adequada e tornarem-se atraentes mesmo para quem tem crise de abstinência quando está longe da cabine do seu possante.

Mas é preciso querer essa transformação e, receitinha da autoajuda, correr atrás do seu desejo. Quem tira o carro da garagem todo dia está respaldando o modelo automotivo e, mais do que autorizando, solicitando que os gestores públicos canalizem mais grana para viadutos, vias expressas e estacionamentos. Quem afirma que não deixa o carro porque o transporte coletivo é ruim e porque a bicicleta é perigosa, este elemento está enganando tanto a si próprio quanto aos seus concidadãos, porque quem é maior de idade já teve experiência social suficiente nessa vida para saber que a prefeitura não vai democratizar a cidade sem a pressão social nesse sentido.

Os ciclistas ativistas também se compadecem de quem fica preso inutilmente no asfalto, além de lamentarem a energia e a matéria prima consumidas em vão e as toxinas e dejetos danosamente emitidos por um sistema que não funciona e nunca vai funcionar em lugar nenhum. E muitos desses ciclistas até estariam dispostos a abandonar os motoristas no buraco em que se meteram se eles não levassem, com isso, toda a sociedade para lá. Já há ciência suficiente e ética inquestionável para demonstrar o apocalipse motorizado, a tal ponto de podermos duvidar da sanidade de quem não as considera.

Então, se não for pelos ciclistas e pelos pedestres, que vocês desdenham em atos e omissões, que seja em favor de vocês mesmos: motoristas, deixem em paz quem precisa do carro.

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Carlos Alberto Duarte

14/07/2014 às 12:59

Realmente, deixem em paz quem precisa de carro.
Aconteceu comigo no inicio dos anos 80 quando mudei para Jacarepaguá, RJ, e trabalhava no centro do Rio.
Nos primeiros dias enfrentei um transporte público horrível. Pegava o ônibus 240 no meio do caminho, e já vinha botando gente pelo ladrão. Não aguentei muito tempo. Ir de carro também não dava. Já naquele tempo o centro não apresentava condições. Engarrafamentos e falta de estacionamento...Comprei uma moto e trabalhei 13 anos indo de moto todos os dias. Com chuva ou sol. Hoje, vejo este problema de uma forma diferente. Faria um transporte misto. Tenho uma serra brava no meio do caminho, a grajau/jacarepagua. Então eu iria de carro até o grajau, onde com certeza seria fácil estacionar, e seguiria o resto do trajeto de bike, que estaria levando em um suporte no carro, ou mesmo uma bike dobrável.
É bom lembrar que o transporte público continua horrível!!
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