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Desistir? Jamais!

O espetacular segundo lugar de Merckx no Tour de 1975.

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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09/09/2016
Desistir? Jamais!
Foto: Arquivo Histórico

Tornar-se campeão não é simplesmente vencer. Há quem vença, e muito, e nunca tenha merecido de verdade o título de campeão. Escolha algum destes ilustres do futebol. Muito dinheiro e pouca raça; muita graça e pouco amor. Campeões não são carinhas bonitas no Instagram. São seres alados, semi-deuses; imortais. Campeão é uma palavra cuja etimologia agrega suor, paixão, honra e lealdade; é uma condição moldada no fundo do espírito, num lugar tão fundo que nunca chega a ouvir a palavra desistir. Desistir, aliás, é vocábulo banido dos dicionários, é pecado. Eddy Merckx, o maior campeão de ciclismo de todos os tempos, que o diga.

O ano era 1975, e a corrida nada menos que o Tour de France. Eddy vinha numa ascendente naquele ano. As clássicas de primavera já estavam na sua conta. Ganhou pela sexta vez a Milão-San Remo, venceu com brilho o Tour de Flandres pela segunda vez e simplesmente detonou na Liège-Bastogne-Liège pela quinta vez. Mas, chegado o verão, ficou em segundo lugar no Tour de France. 

E foi justamente este segundo lugar que cravou seu nome para sempre no hall da fama do ciclismo.

A corrida começou em um nível absurdamente alto. Francesco Moser, que naquele ano ganharia a recém-inaugurada camisa branca (melhor jovem de até 25 anos), havia vencido o prólogo e se manteve na primeira colocação geral até a quinta etapa, quando os ciclistas tinham pela frente um pequeno contrarrelógio de 16 km. Merckx não se abalou e partiu para o ataque. Em 16 km, com uma coroa de 56 dentes, colocou mais de 30 segundos sobre Francesco Moser e tomou para si a camisa amarela.

Eddy Merckx no Tour em 1975 com a camisa amarela pela última vez.

A briga era de cachorro grande. Além de Moser, em 1975 disputavam cada centímetro de asfalto com Merckx ninguém menos que Bernard Thévenet, Felice Gimondi e Joop Zoetemelk. Merckx vinha se mostrando forte nos contrarrelógios e a cada etapa se aproximava mais da liderança. Mas isso até chegar à décima quarta etapa, uma cronoescalada.

Se você não conhece uma cronoescalada, não queira conhecer. Cronoescaladas são pura maldade dos organizadores. Você larga sozinho, sem seus companheiros de equipe, sem ter com quem conversar. E nem daria. É um sprint só morro acima, sem dó nem piedade. O coração quer pular pela boca, as pernas queimam, mas você sabe que não adianta chorar. Eddy sabia como vencer aqui também, mas não contava com a rivalidade francesa.

Nos últimos metros, quando já avistava a meta, Merckx, que é belga, foi atacado por um espectador francês. Eddy buscava sua sexta vitória no Tour de France, o que tiraria o recorde do francês Jacques Anquetil. Os ânimos estavam acirrados. A cena lembra aos brasileiros o ocorrido em Atenas, em 2004, com o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima. Eddy recebeu um soco no lado direito do abdome, no rim, e sentiu na hora. "Eu estava quase pegando Zoetemelk na subida... levei muito tempo para recobrar a respiração".

Merckx sabia que se perdesse muito tempo nunca mais usaria a camisa amarela na vida, e certamente por saber disso é que chegou aflito ao final da etapa, chocado com o ataque e esgotado pelo esforço físico descomunal. A camisa amarela tinha sido mantida, mas as dores continuavam; e a dúvida: o que mais viria depois daquilo?

O Canibal, como era conhecido, já havia ganhado praticamente tudo o que é possível a um ciclista ganhar. Corredores como Merckx não nascem em abundância. Eddy não era apenas mais um corredor. Era um devorador de provas, e nem lhe passou pela mente desistir do Tour de France. Os números de Merckx sempre fazem qualquer um perder o fôlego. Que fiquem de lado. Basta lembrar que por mais de uma década Eddy só era notícia quando perdia alguma corrida. Aliás, supõe-se que em toda a carreira tenha vencido nada menos que uma em cada três provas que disputou, para o delírio de seus fãs! Não, não era por si nem pela equipe que o belga se transformava num canibal sobre o selim, mas sim pela nação inteira, que vibrava e se arrepiava com cada um de seus pódios.

Depois do soco no estômago, a corrida por sorte teve um dia de descanso e então retornou com mais estágios de montanha; e com mais brutalidade. Merckx disputou com Thévenet uma etapa épica na Col d´Allos, mas perdeu ritmo na chegada a Pra Loup. Thévenet ao perceber Merckx sem ritmo, pulou do selim e botou toda força que tinha nos pedais. Além de zerar o minuto de distância que os separava, colocou dois minutos sobre Eddy, que então se despediu da camisa amarela.

A etapa seguinte começou cercada de expectativas. Merckx conseguiria retomar a primeira posição? Era físico ou psíquico o abalo que o soco do torcedor francês lhe causara? Com o viço de um moleque com sua nova camisa amarela, Thévenet pedalou como nunca e colocou mais dois minutos em cima de Merckx. O Canibal sentiu a derrota, mas manteve o foco. Seria impossível conseguir recuperar tanto tempo numa prova como o Tour de France e com aquele nível de adversários? 

Foi então que, na 17ª etapa, em Valloire, Merckx teve novamente problemas. Já nos primeiros quilômetros, o belga colidiu com Ole Ritter, um ciclista dinamarquês, e caiu de rosto no chão. A velocidade não era alta, mas foi suficiente para que os estragos logo aparecessem. Merckx, ultrajado por um soco no estômago, virtualmente derrotado em uma de suas provas preferidas, agora tinha fraturado o zigomático (em alguns registros consta que foi a mandíbula). O osso que formava as proeminentes maçãs do rosto de Merckx havia recebido a pancada da queda e o destino convidava o ciclista novamente a se retirar. Uma saída ali, todavia, seria indigna do atleta que por conta de sua carreira viria a receber o título de Barão Merckx, pelo rei Albert II da Bélgica, em 1996.

Eddy levantou-se, rejeitou embarcar no carro de apoio (o que o desclassificaria), e sem medo ajustou novamente o selim, para então subir na bicicleta e estoicamente seguir adiante. A expressão de dor ao longo da etapa não podia ser pior. Mas não era apenas dor. Era fome. Experimente comer algo sólido com um osso do rosto quebrado. Agora tente fazê-lo em cima de uma bicicleta a 40 km/h. Eddy reconheceu, anos depois, que se arrependia de ter prosseguido, porque o sofrimento foi brutal. No entanto, arrematou: "eu não tinha muito o que fazer; eu tinha prometido aos companheiros de equipe dar-lhes uma mão para chegarmos ao pódio".

E de fato, o esforço foi recompensado. Eddy não venceu - e por isso aquele Tour entrou para a história - mas manteve honrosos três minutos de diferença para Thévenet e conseguiu o segundo lugar no pódio, de onde pode dar as mãos aos colegas e consagrar a equipe Molteni no hall da fama do ciclismo. 

Estátua de Merckx. 

40 anos depois...

Quarenta anos depois. Tour de Oman de 2015. Ciclistas param a prova e se reúnem para pedir a suspensão da etapa. Alegam calor e ventos fortes. "Somos todos pais e filhos, não estamos aqui para lutar uma guerra. Ninguém quer colocar suas próprias vidas em jogo", diz Tom Boonen ao organizador, que mantinha o rosto impassível visivelmente contrariado.

Depois de um suspiro de quem tinha muito mais o que falar, o organizador contra-argumenta: "Segurança? E a Paris-Roubaix quando chove? É tão perigosa quanto. E quando chove nos Pirineus no Tour de France? Os ciclistas descem pedalando na chuva sem visibilidade e ninguém reclama".

Os ciclistas não se demovem. Protestam. Ameaçam não pedalar mais. O organizador cede, irresignado e já sem paciência. Seus 70 anos de idade já não lhe permitem perder tempo com discussões banais. Havia algo mais a dizer, mas preferiu calar. A imprensa filmava tudo. Édouard Louis Joseph Merckx, mais conhecido como Eddy Merckx, o Canibal, puxa o rádio e comunica a todos que a etapa está cancelada - "a pedido dos ciclistas", bem entendido. E suspira: "dane-se". 

Não é que aquele ciclismo de 1975 tenha desaparecido. Aquele mundo é que desapareceu. Culpe as constelações, os deuses, a mídia, as grandes corporações; culpe os homens também. Não se faz mais ciclistas como antigamente. Não há mais Eddys por aí girando com fome de vitória. Os desafios, claro, são outros.

Apêndice

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