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Diário de viagem - Chapada Diamantina, vereda do rio Salitre, baixo vale do rio São Francisco e litoral dos arrecifes de Alagoas e Pernambuco 1800 km, 50 dias

Por Felipe Batista / Fotos Felipe Batisa e Iara Pezzuti
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25/01/2018
Diário de viagem - Chapada Diamantina, vereda do rio Salitre, baixo vale do rio São Francisco e litoral dos arrecifes de Alagoas e Pernambuco 1800 km, 50 dias
Foto: Felipe Batisa e Iara Pezzuti

A simplicidade faz da bicicleta o veículo de transporte mais utilizado no mundo. Seu potencial para cobrir curtas distâncias é perceptível e faz parte da rotina de muitos, mas seu potencial como modal de transporte de longa distância ainda merece ser valorizado. Nossa viagem de bicicleta cobriu cerca de 1.800 km, abrangendo da Chapada Diamantina, na Bahia, às veredas do Rio Salitre no sertão baiano, o vale do Rio São Francisco - de Petrolina e Juazeiro até a foz em Piaçabuçu -, todo o litoral do Estado de Alagoas e parte de Pernambuco, finalizando em Recife. Nosso trajeto não se prendeu apenas a pontos turísticos, mas nos levou a pequenos lugarejos quase desconhecidos, ao cotidiano das sertanejas e sertanejos, à caatinga e sua fauna e flora característicos, ao Velho Chico e sua despedida para o mar, e ao litoral de águas cristalinas e paradisíacas do nordeste.

Decidimos por Lençóis, um dos sete municípios inclusos na área do Parque Nacional da Chapada Diamantina, como ponto de partida de nossa viagem. Despachamos as bikes no Aeroporto de Confins, e partimos de Belo Horizonte de avião para Lençóis, com escala em Salvador. Descansamos na cidade por dois dias: montamos as bikes, organizamos equipamentos, compramos alimentação, e visitamos um pouco da redondeza. São inúmeras as cachoeiras e trilhas pela região, atrativa especialmente para os amantes da natureza. Para sair de Lençóis há uma subida de aproximadamente 12 km, mas vencido esse primeiro obstáculo, uma série de atrações turísticas encadeiam-se em curtas distâncias. Nestes primeiros dias de viagem optamos mais por nos aclimatarmos à vida de estrada – montar acampamento, cozinhar, organizar os alforjes -, do que propriamente a cumprir longas distâncias, de forma a acostumar o corpo gradativamente à rotina.

Nosso roteiro passava pelo Poço do Diabo, Morro do Pai Inácio, Morro do Camelo, Gruta da Pratinha, as cachoeiras do Ferro Doido e Paiaiá. Em muitos lugares foi possível acampar. No entanto, a prolongada estiagem que assola o interior do país tem secado várias nascentes de rios da região, e por consequência, muitos poços, quedas d’água e cachoeiras revelaram-se completamente secos. Um nativo ribeirinho, próximo ao Rio Paiaiá, afirmava ser a primeira vez em seus oitenta anos de idade que ele vira o rio e sua cachoeira principal secarem. Não só a cachoeira do Paiaiá estava seca, mas também os 98m de queda d’água da cachoeira do Ferro Doido, próximo ao município de Morro do Chapéu. Mesmo sem água, ambas ofereciam um visual belíssimo e perfeito para camping. Jacobina, conhecida como a região do Piemonte da Chapada Diamantina, encerrava a primeira etapa da viagem, quando nos despedíamos do cerrado para adentrar na caatinga.

Chegamos em Campo Formoso após pedalarmos em torno de 450 km. Daí para frente, adentraríamos o sertão: a Vereda do Rio Salitre. Região relativamente deserta de população e mais seca, nos impunha assumir maior cuidado com nossa logística de comida e água. Também maior cuidado com a bicicleta, porque aí os auxílios seriam mais complicados.
Lagoa dos Porcos e Juazeiro - do início da vereda até que ela se encontre com o Rio São Francisco - distam 150 km. A caatinga predomina por esta região. Na maior parte do tempo, a vista se perde em embuzeiros e cactus. Estes, com o tempo, vão até se tornando mais familiares: xique-xique, mandacaru, cabeça de frade, palma. Os bodes, por sua vez, compõem a fauna. Aparecem como se do nada viessem, e quando as bikes lhes aproximavam, fugiam desnorteadamente.

Os caminhos que encontramos pela vereda do Rio Salitre eram completamente desprovidos de sinalização. Todas as estradas eram de terra, repletas de costelinhas nas laterais e areais. Os caminhos multiplicavam entrecruzando-se, e nossa melhor possibilidade de orientação consistia em perguntar nossa direção nos pequeníssimos vilarejos ou aos nativos que por ventura apontavam.

Encontramos o Rio São Francisco na cidade de Juazeiro da Bahia. O rio renova a esperança no sertão, mas só o faz a quem vive colado a seu vale - e, mesmo assim, de maneira mais efetiva, somente a partir de Paulo Afonso. Neste trecho, destacamos Curaçá, cidade que respira cultura e tem nas vaquejadas a mais forte. Seu mercado, conhecido historicamente como centro de distribuição do sertão faz jus à fama, assim como seu belíssimo pôr do sol à beira do rio.

As principais atrações turísticas no vale do Rio São Francisco encontram-se, todavia, na tríade: Piranhas, Penedo e Piaçabuçu, já em Alagoas. Piranhas, dotada de interessante centro histórico - o qual recua às invasões holandesas do século XVII – é conhecida por sua íntima relação com o cangaço e as belezas dos cânions do Rio São Francisco nas proximidades do município. O mais famoso dos cangaceiros, Lampião, foi morto em 1939 próximo a um de seus distritos, Entremontes, na gruta do Angico. Neste interessante povoado de casas perfiladas e multicoloridas, as mulheres ribeirinhas preservam a tradicional arte do bordado. Já a originalidade e conservação da arquitetura colonial garantem a Penedo posição proeminente como atração turística aos amantes da história e arquitetura. Várias de suas igrejas barrocas, casas e conventos são datados do século XVIII, destacando-se as Igrejas de Nossa Senhora do Rosário (Diocese), a Igreja da Imaculada Conceição e o Convento Franciscano. Piaçabuçu, foz do Rio São Francisco, terá sempre importância turística. Uma longa faixa de dunas com palmeiras espaçadas perfazem o cenário do encontro das águas do Velho Chico com o Oceano Atlântico, momento inesquecível na viagem.

Chegamos ao litoral após pedalar mais de 1.300 km. Viajar por praias costuma quase sempre ser agradável. O litoral brasileiro - e, mais especificamente as praias de Alagoas e Pernambuco, são de rara beleza. A água do mar tem tonalidade azulada e cristalina, a areia da praia é branca e os coqueiros são abundantes por toda orla. Quando surgem os recifes de corais, na altura de Maceió, as praias parecem renovar sua beleza a cada novo ciclo da maré. Trecho altamente recomendável este entre Maceió e Recife, majoritariamente plano e com boa infraestrutura. Destacamos as Praias do Gunga (pouco antes de Maceió), Carro Quebrado, São Miguel dos Milagres, Patacho e, claro, Carneiros.

Recife foi atingida após 1.800 km pedalados. Como Recife foi também a maior cidade de toda viagem, a impressão era a de que havíamos gradativamente retornado à típica vida urbana brasileira. Ao longo de cinquenta dias, havíamos, lentamente, percorrido e experimentado um pouco do nordeste. Compartilhamos a sede dos sertanejos pela Vereda do Rio Salitre e experimentamos o renascimento de esperanças ao encontrarmos o Rio São Francisco. Dormimos em cachoeiras secas e na caatinga, mas também nas praias mais belas do nosso litoral. Em nosso roteiro, as desigualdades e contradições do país se explicitaram dia após dia. Nesse sentido, o contato direto e imediato com a natureza e com o povo nativo é o que o cicloturismo possui de melhor.

Assista ao vídeo Cicloturismo Brasil - Nordeste de bicicleta

cicloturismo Brasil: nordeste de bicicleta from Iara Pezzuti on Vimeo.

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