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Dick Poole e o recorde que não foi quebrado

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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09/11/2015
Dick Poole e o recorde que não foi quebrado
Foto: Arquivo Histórico

Os marceneiros têm um ditado: meça duas vezes, corte uma só. E se você pretende bater um recorde mundial sem passar vexame, a regra também se aplica ao ciclismo. Richard William Ewart Poole, com este nome pomposo, teve que engolir seus instintos de nobre inglês e baixar a cabeça ao constatar que no ciclismo não adianta choro nem mimimi. É um esporte para quem tem garra.

No Brasil temos o Oiapoque e o Chuí, que distam uma da outra 5.500 km. Para os mais exigentes geograficamente, o correto é falar em Caburaí a Chuí, que tem “apenas” 300 km a mais entre um ponto e outro. São as duas localidades mais distantes uma da outra no Brasil. São então quase 6.000 km de estrada, de uma ponta a outra do Brasil.

Quando as duplas sertanejas tocam na Grã Bretanha, falar em Oiapoque (ou Caburaí) ao Chuí não faz sentido algum. Pode não dar rima, mas lá a maior distância entre um ponto e outro está entre Land’s End e John o’ Groats. Pelas estradas disponíveis a rota fica em aproximadamente 1.350 km.

Com rodovias bem pavimentadas, e com uma distância não tão absurda, não foi difícil para uns britânicos malucos, que adoram recordes mundiais, começarem uma nova brincadeira. Quem consegue ir de Land’s End para John o’ Groats em menos tempo?

Sentados num pub, com seus bigodes molhados de cerveja Pale Ale, comendo batata e peixe frito e sem muito o que fazer enquanto não começava a colheita, alguns amigos resolveram que aquele seria o desafio do mês. Enxugaram a boca com a manga das puídas camisas amareladas e definiram a única regra para a competição: o ciclista escolhe o percurso, qualquer que seja.

O primeiro a se impor o desafio foi J. Lennox, um ciclista que levou 6 dias e 16 horas para o desafio. Mas como foi ajudado por outros ciclistas em tandens (aquelas bicicletas para duas pessoas), pareceu fácil demais. Novamente no pub, com mais cerveja, desta vez uma Stout, e lá vem a regra número dois: o ciclista não pode receber ajuda externa.

George Mills, de 18 anos, que já havia vencido a primeira edição da Bordeaux-Paris, bateu na mesa e se dispôs à brincadeira. E foi o primeiro recordista oficial do percurso ponta-a-ponta da Grã Bretanha. Foram 5 dias, 1 hora e 45 minutos para rodar os 1.350 km. Mas George não usou uma bicicleta de carbono, com vinte marchas e 6 kg de peso… Isso foi em 1886, com uma penny-farthing, aquelas bicicletas de roda dianteira de até 60 polegadas (1,5 m) de diâmetro, rodas traseiras minúsculas e com 16 kg de peso total! Até hoje o recorde permanece. Ninguém nunca mais pedalou tão rápido uma penny-farthing de uma ponta a outra do país.

Em 1908, já com bicicletas mais parecidas com as atuais, Tom Peck pedalou o percurso em muito menos tempo. Levou 2 dias, 22 horas e 42 minutos. A façanha é considerada maior ainda porque Tom caiu duas vezes da bicicleta, com severos machucados. E lembre-se de que o câmbio só seria inventado três décadas depois!

Mas nada disso importa. Richard Willaim Ewart Poole, mais conhecido como Dick Poole, é o homem que colocou o percurso para sempre nas páginas da história do ciclismo mundial. E não por conta do recorde que ele quebrou, mas pelo recorde que ele não quebrou.

Nascido em 1934 e trabalhando em período integral como contador, Dick tomou para si o desafio de superar seu amigo Reg Randall, que tempos antes havia cravado 2 dias e 10 minutos no percurso. Ambos pertenciam a clubes de ciclismo distintos e rivais entre si. Sim, imagine um Fla x Flu da bicicleta. Middlesex era o time de Dick Poole; Reg Randall defendia o Harlequin. “É teste para cardíaco”, diria Galvão Bueno. Eram 9 h 45 min da manhã quando Dick subiu em sua Mercian em Land’s End em direção a John o’ Groats com o objetivo de concluir o percurso em menos de 2 dias. A moderna bicicleta, sonho de todo atleta na década de 1960, já era equipada com câmbio no guidão e oito marchas. Entusiastas disparavam na frente com seus carros para ajudar a bloquear os sensores dos semáforos, que se fechavam automaticamente quando um veículo se aproximava pela via principal. Os sensores serviam justamente para detectar a presença de automóveis. Como uma bicicleta não é tão volumosa quanto um carro ou uma moto, o sinal permanecia aberto, colocando em risco o corajoso desafiante do recorde. Amigos servem para estas coisas, e lá estavam eles, colocando almofadas de borracha sobre os sensores, que mantinham a pista livre para o recorde.

As regras então já haviam sido aprimoradas. Agora era proibido até mesmo que os veículos de apoio ultrapassassem o ciclista, para não gerar qualquer tipo de ajuda aerodinâmica. Numa época sem Google Maps ou GPS, era complicado encontrar rotas alternativas para sair de trás do ciclista e chegar na frente dele sem ultrapassá-lo pela mesma via. Tão estressante quanto pedalar era acompanhar o ciclista de um carro.

Poole começou a pedalar e logo começou a chuva. E o frio. Assim que a noite caiu suas lanternas se mostraram inúteis. A água não deixava as baterias funcionarem. As roupas, feitas ainda de lã, encharcaram. A brutalidade mal havia começado. Comida, pelo menos, não podia faltar: foram dois quilos de arroz, cinco litros de salada de frutas, três litros de bebida láctea, doze laranjas, quatro litros de café, cinco litros de chá e quatro litros de um refrigerante chamado Ribena. E Dick finalmente quebrou o recorde, com 1 dia, 23 horas, 23 minutos e 1 segundo.

Mas, quando qualquer um cairia desmaiado no chão, Dick decidiu pedalar mais um pouco…

“Eu estava naquele estado que se espera de alguém que tenha pedalado de uma ponta a outra do país”, Dick Poole afirmou anos depois. “Mas eles começaram a dizer que eu deveria continuar um pouco mais e tentar o recorde das 1.000 milhas (1.609 km), o maior que existia. Eu não queria, mas me convenceram dizendo que faltavam apenas 200 km e que bastava eu prosseguir em ritmo de passeio. Eu concordei. Descansei um pouco e retomei em seguida”.

Sim, até ali Dick Poole já era o recordista mundial do percurso original, de Land’s End a John o’ Groats. Mas os amigos queriam mais. E ele sabia que podia. Dick descansou por trinta minutos e subiu novamente em sua Mercian. Bastava pedalar a 20 km/h para quebrar dois recordes de uma vez só. As pernas mal haviam esfriado e o guidão apontou para a estrada novamente. E então veio o vento contra. E começou a chover granizo. Foi sofrido, mas ele não desistiu. Como o percurso de 1.000 milhas ainda não havia sido medido, a partir de John o’ Groats o organizador pegou o carro e acompanhou Dick Poole pelos 200 km restantes, tomando o seu tempo periodicamente, para ter certeza de que o ritmo seria apto à quebra do recorde. E para maior garantia, resolveram que Dick pedalaria não “apenas" 1.000 milhas, mas 10 milhas a mais, para que o recorde fosse realmente incontestável.

Com 2 dias e 8 horas, sob aplausos e gritos eufóricos de satisfação, Dick e seus amigos estouraram a champanhe que comemorou a quebra do recorde mundial também das 1.000 milhas, com mais de duas horas e meia de folga.

Para a homologação do resultado, o percurso teria que ser medido novamente, já que até então não havia marcas claras. Começaram então os trabalhos e, ao final da medição, a cara dos árbitros não foi nada bonita. Quietos, decidiram rever o trabalho. E assim fizeram mais uma vez para, depois de alguns dias, concluírem que… faltavam míseros 250 metros para que Dick Poole tivesse completado as 1.000 milhas. Com a firmeza de um inglês que está acostumado com o chá sempre às cinco horas, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos, o árbitro declarou que Dick podia ter batido o recorde de Land’s End a John o’ Groats, mas não havia nem sequer feito cócegas no recorde das mil milhas. Parabenizou-o pelas 999,9 milhas mais rápidas do mundo, mas declarou que o recorde não havia sido quebrado.

As medições foram refeitas ainda mais uma vez. Os clubes de esportes motorizados ajudaram a medir com os odômetros de seus veículos, mas, não havia como esticar as estradas. 999,99 milhas nunca serão 1.000 milhas. A matemática é tão severa quanto uma septuagenária britânica importunada no meio de sua novela favorita por uma visita que não se anunciou.

Poole nunca mais tentou bater o recorde e até hoje acredita piamente que seu nome deveria ter sido inscrito nos anais do ciclismo mundial por este feito. Mas o fato é que faltaram 250 metros, muito mais que “quase nada” para quem já havia pedalado mais de um milhão e seiscentos mil metros naqueles dois dias. Para se consolar, em sua aposentadoria, Dick Poole conta ainda hoje às suas netas Gemma e Elysia, na cidade de Reading, onde vive, que sim, o vovô Dick foi campeão e seu recorde durou mais de três décadas até ser quebrado em 2001 por um rapaz chamado Gethin Butler, que levou 2 dias, 7 horas e 53 minutos para completar as 1.000 milhas - 1.000 milhas mesmo, sem faltar nem um metro. 

 

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