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Expedição Across The Marajó

Com quais e com quantas palavras poderíamos resumir a Expedição Across the Marajó? Poderíamos dizer que foi cheia de tensão, nível de dificuldade elevadíssimo, insana, ou até mesmo surreal. São tantas as palavras que poderíamos empregar para descrever essa Expedição, que o ideal é não resumir, e sim detalhá-la...

Revista Bicicleta por Sérgio Batista
39.496 visualizações
26/11/2015
Expedição Across The Marajó
Foto: Sérgio Batista

A Expedição Across the Marajó nasceu da vontade de superar em dificuldade outra expedição que realizamos no Marajó, em 2008: a Expedição Cabo Maguary, que até então era o mais difícil trajeto que já havíamos pedalado. Desta vez, nos inspiramos na Expedição Guerreiro Aruã, realizada de caiaque, que também cruzou o Marajó há algum tempo atrás. Além da vontade de conhecer, explorar e vivenciar o cotidiano mais íntimo e primitivo da ilha.

Marajó

Localizada no estado do Pará, com área aproximada de 40,1 km², é considerada a maior ilha costeira flúvio-marítima (cercada por rios de um lado, e por mar do outro lado) do mundo.

A maioria dos municípios na Ilha do Marajó são de difícil acesso. Tivemos que pegar um voo de 40 minutos para Macapá – AP, pernoitar e no dia seguinte enfrentar uma viagem de barco de oito horas pelo rio Amazonas até Chaves – PA. Essa viagem de barco não é recomendável a quem não esteja habituado a navegar por muitas horas, com fortes balanços. Com a embarcação ancora em local tranquilo, em Chaves, dormimos acomodados em nossas redes.

Iniciamos o pedal com o visual do rio Amazonas e da grande Ilha de Mexiana à frente da cidade. O trajeto inicial foi bem parecido com a vegetação da região de Salvaterra e Soure, em que estamos acostumados a pedalar, já que também é um trecho litorâneo. De diferente, só a grande quantidade de poeira que as nossas bikes levantavam, que parecia mais um talco, de tão fina. O calor aumentava conforme o desenrolar do dia, com pico em 50°C. Ao meio-dia, chegamos à Vila Bacuri, onde descansamos e aproveitamos a água de um poço para aliviar o calor quase insuportável.

Detalhes da viagem

Data: 08 a 15 de dezembro de 2013
Saída: Chaves – PA
Chegada: Ponta de Pedras - PA
7 ciclistas
8 dias de pedal
350 km percorridos

Quando se pedala no Marajó, você fica literalmente à mercê da natureza, seja por causa do calor, da água potável ou do tempo de maré. Ao chegar ao litoral, tivemos que ficar horas e horas em um retiro até a maré baixar ao ponto de podermos atravessar os igarapés (furos de água doce na praia). Durante nossa estada no retiro, aproveitamos para descansar e contemplar a lua ao calor de uma fogueira à beira da praia virgem da costa marajoara. Vez ou outra, íamos verificar se já havia condições de passar um dos furos. 

Finalmente, às 21 h 30 min, começamos nosso deslocamento com destino ao retiro Katarina. Era uma pequena distância, aproximadamente 13 km, mas que consumiu bastante tempo, pois tínhamos que andar em ziguezague na praia para desviar dos lagos que se formavam e da parte mais funda dos furos. Ao chegar no retiro, nos deparamos com uma casa em madeira com um pequeno “pátio”, de aproximadamente 7 m². Não havia ninguém no local, então, nos acomodamos no pátio e revezamos durante toda a noite para observar qualquer movimentação estranha. Em toda a Expedição, nunca dormimos de maneira tão desconfortável.

O segundo dia de pedal começou com algumas horas de atraso, pois tivemos que esperar a maré baixar. Chegamos à Fazenda Cajú, e a partir deste ponto, iríamos deixar o litoral e começar a pedalar para o interior do Marajó. Os vaqueiros nos receberam com espanto, após contarmos de onde estávamos vindo e para onde íamos. Nossos mantimentos foram usados na cozinha da fazenda. Quem já fez expedição sabe que nessas horas, providencialmente, sai uma saborosa comida, batizada em uma expedição anterior de “codificada” (como um biker disse, ao querer expressar que as refeições estão bem “condimentadas”).

Nosso destino do dia era o rio Cururú, onde faríamos um pequeno translado até a margem oposta. O trecho até o rio foi muito proveitoso e o pedal rendeu bastante. O visual mudou completamente. Passamos a ver muitos animais mortos, poucas árvores e um solo já rachado, em decorrência do verão impiedoso marajoara. Água potável nesse momento era ouro, e regrar era preciso. Ao chegar à margem do rio Cururú, ainda descansamos no assoalho de uma das casas e fomos agraciados com um café quente pela proprietária da casa.

A travessia foi feita em um batelão movido a motor. Nossa referência era uma torre que parecia não ficar tão longe de onde estávamos. Mas de tão sinuoso que é o rio, a torre sumia em alguns momentos. Ao chegarmos ao nosso destino, em meio a uma escuridão, o barqueiro nos apresentou a um vaqueiro que cedeu um espaço para passarmos a noite. 

Despertamos com os primeiros raios de sol adentrando no beiral onde nossas redes estavam atadas. O nascer do sol estava belíssimo. Logo no início do pedal nos deparamos com uma escola à margem do nosso caminho, ainda no rio Cururú. Fomos surpreendidos com a classe toda vindo para fora da sala de aula nos prestigiar. Para as pessoas dali, tudo é mito natural e cotidiano, então, todos estavam curiosos para saber o que estávamos fazendo ali. Para nós, foi um momento inesquecível de envolvimento e uma descoberta fascinante do Marajó. Partimos com as energias completamente renovadas.

Ao chegar a um retiro, um dos vaqueiros se ofereceu para ser nosso guia até a Fazenda Providência. Foi um trecho sofrido, com o maior tempo sem pedalar na Expedição: cerca de 14 km empurrando a bike. As terruadas foram impiedosas conosco. O desgaste foi imenso e só o que víamos à nossa frente era um horizonte sem fim. Ao chegar à fazenda, vaqueiros que ferravam o gado da propriedade nos receberam. Informamos que queríamos água e um espaço para fazer o nosso “codificado” e descansar. Eles disseram que o patrão estava vindo e que só depois de falar com ele poderíamos usar o espaço e pegar água. Foram 30 minutos de suspense até que o patrão apareceu. Sr. Nicolau, o proprietário da fazenda, despojava muita simplicidade, e do alto da varanda nos chamou: “Venham, subam. Vocês são meus convidados para o almoço”. Churrasco, feijão, arroz e farinha da boa... Tudo muito farto e servido pelas funcionárias. Depois, Sr. Nicolau ainda nos mostrou um pouco da Fazenda Providência. Ele nos surpreendeu com sua história de vida e com a solidariedade que teve conosco. Fica nossa gratidão, pois nunca imaginamos que comeríamos tão bem no Marajó, após um trecho tão sofrido.

Seguimos em direção ao município de Santa Cruz do Arari, à margem de um dos maiores lagos de água doce do mundo. A terruada marajoara não dava trégua. Após mais 4 km empurrando a bike, chegamos em uma espécie de represa e avistamos o início da estrada para Santa Cruz do Arari. Foi um alívio, pois sabíamos que a partir daquele momento seria o fim das terruadas.

Seguimos pela estrada e começamos a passar por muitas porteiras, fazendas e retiros. Ao final da tarde, a preocupação começou a ser as cobras da região. A jararaca, uma das cobras mais perigosas do mundo, é bastante comum nessa parte do Marajó. Não poderíamos recuar, e seguimos. A 25 km de Santa Cruz do Arari, chegamos à propriedade de Fernando Lobato, que nos cedeu sua residência na cidade para pernoitarmos.

A escuridão na estrada de chão era imensa e a todo tempo precisávamos de uma lanterna forte à frente do grupo. Encontramos muitas cobras pelo caminho, o perigo era iminente. A tensão e o estresse tomaram conta do grupo.

Ao chegarmos em Santa Cruz, procuramos a casa do Fernando Lobato, onde tivemos uma excelente acomodação e uma merecida boa noite de sono. O peso da nossa bagagem já não era mais o mesmo. Estávamos pedalando mais leve e isso era um ponto a nosso favor. Ao sair da cidade nos deparamos com o Lago Arari. Imagine que só para contornar uma parte do lago, pedalamos 30 km sob um sol escaldante.

O trecho até Cachoeira do Arari não era tão difícil de pedalar, mas era muito descampado e o calor muito intenso. Com a noite chegando, decidimos pernoitar 15 km antes do destino previsto, pois já havíamos encontrado uma jararaca e a tensão de encontrar mais cobras no caminho era grande. Uma tempestade com ventos nos fez pedir abrigo dentro do casarão do retiro onde estávamos acampando, e pudemos dormir sossegados.

A manhã nublada proporcionou um pedal intenso. Passamos por Cachoeira do Arari ainda pela manhã, e logo pegamos a estrada para o Porto do Caracará. Teríamos que atravessar dois rios: o rio Caracará e o Fábrica. Pegamos uma embarcação até a Ilha de Santana e outra, menor, até a costa do rio Fábrica. A maré estava bastante revolta, mas contamos com a perícia e conhecimento do piloto da região. Durante uma hora do percurso, ficamos praticamente todos deitados e imóveis no barco. 

Foi um alívio chegar ao destino para iniciar os últimos 35 km de pedal. Realizamos este último trecho extravasando emoção, felizes e com um nó na garganta, para terminar e gritar: “Nós conseguimos”. Aos poucos, já íamos vendo as luzes das praias que rodeiam Ponta de Pedras.

Chegamos exaustos, famintos, sujos, mas felizes e completos. Não tem como descrever com palavras a emoção de completar uma Expedição desse nível. Foram 350 km em oito dias intensos que nos levaram a um limite extremo. Um grupo de sete pessoas (Claudio Bessa, Nilson Bastos, Rodrigo Estrada, Samuel Burlamaqui, Roselma e Vera Serra) focadas e com o psicológico perfeito para o grau de dificuldade imposto. 

O Marajó foi improvável e surpreendente conosco. Alcançamos o âmago do Marajó, sentindo e conhecendo sua mais pura essência, onde ninguém nunca tinha pedalado antes, de norte a sul, de Chaves a Ponta de Pedras. A solidariedade das pessoas foi impressionante em nosso caminho. Conhecemos pessoas que jamais iremos nos esquecer – e que provavelmente nunca nos esquecerão. 

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