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Expedição Handgrinos

Evandro Bonocchi e Josimar Sena da Silva fizeram história ao se tornarem os primeiros cadeirantes brasileiros que cruzaram o Caminho de Santiago. O percurso foi realizado com handbikes.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
35.957 visualizações
05/03/2014
Expedição Handgrinos
Foto: Graziela Teixeira

Completar o Caminho de Santiago é um símbolo de superação para qualquer indivíduo. A rota, uma das mais famosas entre os peregrinos, com mais de 700 km que levam à cidade espanhola de Santiago de Compostela, é envolta em crenças e quem procura percorrê-la está em busca de um reencontro com si mesmo, ter tempo para pensar em si, vivenciar dias fora do sistema... Enfim, quem busca percorrer o caminho sempre tem um bom motivo para fazê-lo.

Nas estradinhas entre os albergues, é comum cruzar com caminhantes, ciclistas e pessoas a cavalo. Mas o desafio foi ainda maior para os paraplégicos Evandro Bonocchi (38) e Josimar Sena da Silva (29). Há oito anos, Evandro sofreu um acidente de moto que o tornou deficiente; Josimar, um acidente de carro em 2003 o deixou paraplégico. Ambos moram em São José dos Campos, interior paulista, onde se conheceram e passaram a ser amigos.

Escoltados por uma equipe de apoio formada pelos bikers André Silva, Leandro Bonocchi, Luis Pimentel, Miltinho Miranda e Graziela Teixeira, eles alcançaram Santiago de Compostela com handbikes, bicicletas adaptadas para serem impulsionadas com as mãos. A expedição ganhou o nome de Handgrinos, junção da palavra peregrino com a palavra hand (mão). Evandro conta: “um amigo falou sobre o Caminho há 17 anos, e eu fiquei encantado”. Josimar aceitou o convite e embarcou no sonho de Evandro.

Segundo Graziela, “o significado da palavra irmão foi vivenciado em todo o trajeto, não apenas no sentido da irmandade que foi criada entre os sete handgrinos, mas também literalmente na maneira como os cadeirantes fizeram o caminho: ir + mãos = ir com as mãos”.

Evandro tem experiência em corridas de aventura e corridas de handbike nacionais e internacionais, como as de Nova York e Miami. Ele afirma: “nada se compara a um dia seguindo o Caminho de Santiago. A superação acontece a todo momento”.

Foram 18 dias com uma média de 30 km percorridos e usufruídos ao extremo, enfrentando grandes desafios desde antes da peregrinação. “Planejamos iniciar nossa viagem em Roncesvalles, mas para  
nossa surpresa, a handbike do Josimar foi destruída e três outras bicicletas extraviadas pela companhia aérea. Por sorte, uma fundação de Madri, a Fundación Tambíen, que promove o bem-estar à pessoa com deficiência através do esporte, sensibilizou-se com o ocorrido e, aos 45 minutos do segundo tempo nos emprestou uma handbike, evitando o retorno antecipado de Josimar ao Brasil. Nossa peregrinação, então, começou em Pamplona, Espanha, a 40 km de Roncesvalles, com quatro dias de atraso”, explica Evandro. 

O ocorrido alterou todo o planejamento de mais de 10 meses. Rota, quilometragem diária, gastos extras e transporte tiveram que ser revistos, mas a motivação para percorrer o Caminho só aumentou. As paisagens maravilhosas e os grandes aprendizados tornaram incríveis os dias desses brasileiros. Em um grupo heterogêneo como este da Expedição Handgrinos, a compreensão sobre as diferenças físicas, de personalidade, de valores e a forma como cada um enfrenta as dificuldades são experiências destacadas, engrandecedoras. 

“Para muitos o Caminho é mágico, mas são as pessoas que encontramos pelo caminho que fazem a magia acontecer. Quando imaginávamos ser impossível, o Caminho nos presenteava com algum peregrino que, às vezes, sem perceber, motivava o outro com a frase que por lá é universal: Buen Camino!”, relembra Evandro. 

Evandro e Josimar foram guerreiros e com enorme força de vontade mostraram que a deficiência física não os impede de realizar sonhos e grandes desafios. Eles fazem questão de ressaltar a importância dos quatro bikes que acompanharam e deram todo o apoio durante a peregrinação. “Por muitos quilômetros, as pernas de André, Leandro, Miltinho e Pimentel ajudaram os nossos braços”, relembram os cadeirantes. 

Muitos momentos especiais surgiram durante a viagem. Na passagem pela Cruz de Ferro, conhecida como o teto do Caminho, a 1.505 metros de altitude, local em que é de costume colocar algo que se deseja deixar para trás, os viajantes prestaram uma homenagem ao amigo Clodoaldo Luciano, paratleta que faleceu no início do ano. Em Ponferrada, durante a visita a um Castelo Templário, o contraste entre a construção medieval e as handbikes roubaram a cena.

Mas o momento mais difícil, segundo os viajantes, foi a subida de O Cebreiro, pequena e antiga aldeia de origem Celta. “Foram mais de seis horas de subida para chegarmos a 1.300 metros. Instalamo-nos em um albergue municipal excelente e adaptado para cadeirantes. Passamos a noite confraternizando com peregrinos de outros países e pudemos desfrutar um pouco mais da energia incrível desse lugar”, relataram. Muitas descidas rápidas também foram obstáculos duros para eles.

Ao final de 450 km inesquecíveis, a entrada na praça da catedral de Santiago de Compostela foi celebrada com uma sensação de dever cumprido, sonho realizado e a finalização de um ciclo para início de um novo. Animados ao som de uma gaita de fole, os peregrinos se abraçaram chorando para comemorar a conquista do Caminho, o entusiasmo para ir sempre adiante, independentemente de qualquer limitação ou dificuldade.

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