REVISTA BICICLETA - Grupos de Pedal - Unidade na Diversidade
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Grupos de Pedal - Unidade na Diversidade

Não se assuste, meu senhor. Eles estão pelas ruas, a qualquer hora do dia. Até mesmo pelas madrugadas, eles se movem. Não se assuste, minha senhora. Eles vestem formas multicoloridas e, por vezes, refletivas e luminosas, alguns silvam apitos que sinalizam sua presença, outros têm gritos próprios, característicos. Não se assustem. Eles se movem sem deixar marcas, veloz e silenciosamente. Não se assustem. Eles tomaram as cidades e estão invadindo os campos, praias, montanhas e florestas. Eles estão entre nós desde 1992 e já se tornaram parte daquilo que percebemos ao nosso rededor. Parte do cotidiano. Parte de nós. Não são aliens, meu senhor, minha senhora. São os Grupos de Bicicleta e vieram para ficar!

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
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09/01/2016
Grupos de Pedal - Unidade na Diversidade
Pedalada das Meninas
Foto: Soul Frame Foto e Vídeo

Sinto uma inveja danada dos ciclistas que participam de grupos organizados pelo país. Como viajo semanalmente para várias e diferentes partes do Brasil, não tenho a oportunidade de integrar estes coletivos de ciclistas. Mais ainda, quando os visito a convite ou de forma oportuna, sinto respeitosamente a estreita ligação que, naturalmente, se constituiu entre seus integrantes, rolê a rolê, trilha a trilha, passeio a passeio.

Ainda que, em grande parte, sejam receptivos a visitantes, os grupos de bicicleta têm características bastante peculiares ao esporte e se adaptar a elas não é tarefa fácil. 

Cada grupo tem um ritmo, uma pegada, um horário, um dia da semana, um motivo, um objetivo, um método, uma estética, um repertório de roteiros/rotas, um líder ou responsável, um símbolo, um grito de guerra, uma logo, enfim. 

Sendo assim, cada grupo tem a sua personalidade e, como tal, se tornam interventores concretos da realidade, seja lá na capital manauara com o Pedala Manaus e Guaribike, seja em Pelotas – RS com o Pedal Curticeira e o Pedal Domingueira; com o PBA – Pedalando Bem Acompanhado e com o SingleTrack na capital alagoana; com o Lapa Bike, Gira Bike, Pedala Joinville, Pedala Jaraguá, Pedala Pomerode, com o Pedal Goiano, Pedala Uberaba, com o Brutas do Pedal, com o Poa Bikers, Katingudos, Pedala Vovô, Pedala Paraíba, Pedala Mooca, Pedala Guará, Pedala Schroeder, Pedala Gente Limas, As Amazonas da Bike, Pedala Itapema, Pedala Planalto, Pedala Floripa, Pedalagente, Pedal Pesado, Pedala Ciclo Regert, Pedala Blumenau, Pedala Bauru, Vamos de Bike CG, Bikers Rio Pardo, Pedalli, Papaléguas Bike, Pedal Cerrado, Rebas do Cerrado, Trator do Cerrado, Elas no Pedal, Tribo das Bikes, Saia na Noite, Pedal das Meninas, Pérola Bike, Pedal Maravilha, Brasília Batom Bikers, Rodas da Paz, ou até mesmo a Bike Patrulha da Polícia Militar de Santa Catarina e a turma do Pedalentos, entre milhares de outros elencos de ciclistas praticamente em todas as regiões do país. Ufa!!

Vamos ser práticos. Imagine que, hipoteticamente, nas cidades com população entre 5 e 85 mil habitantes, que deve ser em torno de 55% das mais de cinco mil municipalidades brasileiras, exista um grupo de ciclistas organizados com mais de 20 integrantes. Conseguimos fazer o cálculo aproximado de quantas pessoas, organizadamente, estão pedalando pelo Brasil varonil?

Ocupando as ruas em horários alternativos, os grupos de bicicleta retalham o tecido urbano em busca de ver, perceber e sentir a cidade que constroem, diuturnamente. Não importa se usam mountain bikes, speeds, fixed gears, clássicas, confort ou do autêntico estilo SRD (Sem raça definida). Costuram, logo depois, por ruas inacessíveis durante o horário comercial. Contudo, não estão invisíveis. Se fazem notar desde as concentrações em praças públicas, postos de gasolina, padarias, lojas de bicicletas, portas dos shopping centers, petshops ou até mesmo nos bike-cafés. 

Antes de dar o primeiro giro em grupo, têm seus posts repercutidos e curtidos milhares de vezes nas mídias sociais por todo o tipo de pessoa, sejam adeptos adictos do ciclismo, amigos, familiares, esportistas de outras modalidades, incluindo também aqueles indivíduos que não pedalam, ainda.

Vale salientar, porque é justo, que o pioneirismo da organização destes grupos se deve a algumas pessoas que, há alguns anos, alcançaram extrema notoriedade. Renata Falzoni, Arturo Alcorta e Paulo de Tarso Martins, possivelmente, sejam os precursores na história do ciclismo nacional referente à criação de grupos urbanos de ciclismo organizado; o Night Bikers, de Renata e o Sampa Bikers, de Paulo de Tarso. Ambos deixaram um legado de imenso valor para os atuais grupos de bicicleta, os quais, além de pedalar semanalmente ainda organizam eventos, cicloviagens e ações de cunho social. Porém, nos chega por sussurros das mídias sociais que, talvez seja possível, na mesma época, a existência de outro grupo de ciclistas, na capital Rio de Janeiro, com o sugestivo nome de Rio Bikers.

Muitas vezes, pergunto para um integrante ou outro, quando visito algum grupo de ciclistas, os motivos de pertencer àquele grupo. As respostas, por mais que possam gerar interpretações sem fim, invariavelmente, são concluídas pela expressão “...e eu me sinto muito bem com isto!” 

Mais do que unir-se a um grupo de ciclistas pelo conjunto de desafios que este lhes proporciona, os integrantes estão cientes dos benefícios quanto à saúde física e mental que este lazer descompromissado lhes permite. Indo além, também estão cientes do testemunho positivo dado diretamente àqueles que se encontram vitimados pela dependência do automóvel, ironicamente, impassíveis, inertes e amedrontados.

Mas, nem tudo são flores. Concordando com Sérgio Novis, um dos precursores de pedalar em grupos da capital das Alagoas, ainda existem em várias partes do país os grupos seletivos no tocante à performance, nos quais só participa aquele ciclista que se encontre dentro dos parâmetros que o grupo determina. Da mesma maneira, também, ainda existem aqueles grupos que selecionam seus integrantes pelo valor ou marca da bike. 

São realidades elitistas que ainda persistem, mas que são a minoria, na verdade. Em sua essência, os grupos de ciclistas são fraternos, identificados com a cultura de sua região e com as realidades desiguais que apresentem. Pluralidade e companheirismo são palavras que encontram ressonância quando o tema são os Grupos de Pedal.

Neles, percebemos cada vez mais a figura feminina, motivada pelo esporte e pela sensação de segurança que pedalar acompanhado proporciona. São mulheres de diferentes faixas etárias, nível socioeconômico e experiência com a bicicleta.

Porém, lá encontram uma maneira de lazer ativo que as condiciona a encarar os desafios cotidianos em uma sociedade machista que não aceita as diferenças, e que sequer oportuniza que as desigualdades se percebam, a cada dia, mais débeis.

Tenho encontrado, da mesma forma, um sem-número de ciclistas acima dos 65 anos de idade. Estes companheiros são reconhecidos por seus confrades como mestres do pedal e da vida, como é o caso do Arestides Porangaba, de 73 anos, recém-chegado de um pedalzinho pela Patagônia Argentina. Confidenciou seu parceiro de pedaladas, o experiente ciclista Claudovan Freire, que Arestides representa muito para os ciclistas alagoanos. Bom, agora já se tornou público o apreço que os membros dos grupos de pedal sentem pelos amigos que a bicicleta oportunizou.

Não podemos nos furtar de dizer que tais grupos são instrumentos para que a Ciclocidadania alcance patamares mais altos a cada dia. Mais estruturas cicloviárias para trabalho e lazer estão, forçosamente e ainda a passos lentos, sendo implantadas pelo país, dada a presença cotidiana destes coletivos de ciclistas transformando a paisagem urbana como uma lufada de vento e exigindo melhorias. Se trata de um ativismo silencioso, pero no mucho.

É bem possível que poucos integrantes dos grupos de ciclistas se deem conta de seu contributo para mitigar a neurose urbana. Na verdade, muitos deles nem sequer saberão. São eles agentes de transformação social pelo testemunho, não pelo discurso. 

Tudo bem, alguns críticos irão dizer que “estes caras estão aí fazendo o seu lazer, nada há nisso de tão compromissado politicamente”. Pois bem, então, eu prefiro considerar e reforçar que não existe uma forma de convencimento maior do que dar o exemplo. Fazer é bem mais concreto do que dizer que se irá fazer.

Os grupos de bicicleta estão fazendo a sua parte na construção de uma ideia positiva e irreversível a respeito do irrefutável benefício que a bicicleta proporciona, individual e coletivamente. Perdoem o trocadilho, mas é a Corrente do Bem.

Mal sabem eles que participam de um movimento social e antropológico de proporções globais, ainda que mascarado de lazer ativo sobre rodas e dependente da propulsão humana. Este é, determinantemente, um caso de aprender e ensinar ludicamente.

Andando de bicicleta em grupo, ensinam brincando que juntos se pode muito mais do que isoladamente. Juntos se transforma muito mais e melhor, a todos e a cada um. Pedagogicamente, isto é revolucionário.

É nosso desejo que novos grupos se formem ou que se reforcem os laços que unem os membros de antigos grupos. Que nossa presença nas ruas, ainda que a lazer e esporte, seja uma presença carregada de sentido, além do mero diletantismo. Que os grupos de bicicleta, formados por atletas ou esportistas, sejam exemplos de homens e mulheres que encaram seu lazer como uma maneira de transformar a realidade, mesmo que não saibam. E que sua constância pelas ruas e ladeiras seja a viva presença de um futuro melhor.

E viva a bicicleta, sempre! 

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