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Keyce Jhones

Manaus – AM

Revista Bicicleta por Keyce Jhones
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25/02/2014
Keyce  Jhones
Foto: Keyce Jhones

Lembro-me dos tempos em que eu ia para a escola, e o que me marcou mais foi o compromisso do meu pai em levar eu e minhas irmãs todos os dias de bicicleta. Ele nos deixava na escola pela manhã bem cedo, e voltava nos buscar por volta do meio-dia. Nós saíamos da Rua Paraíba, ainda bidirecional naquela época, e seguíamos até o bairro da Cachoeirinha, na Escola Batista das Américas.

O percurso não era longo, mas também não era fácil, pois moramos em uma região elevada (Adrianópolis e Aleixo) e o bairro da Cachoeirinha já é uma área mais baixa, então, enfrentávamos muito a ladeira do início da Rua Paraíba, mas sempre íamos desmontados correndo pela calçada bastante arborizada e meu pai seguia logo atrás. Assim que saíssemos da ladeira, corríamos até a bicicleta para que o meu pai continuasse a nos levar para casa pedalando, pois o prazer era tão grande que até ele se divertia.

São momentos que não voltam, mas podem ser resgatados pelas gerações atuais, onde é possível incentivar seus filhos a irem com segurança para a escola pedalando, de preferência próxima de casa, por percursos não muito críticos, para que eles possam começar a enxergar a cidade com outros valores, e passar a adotar um modal eficiente e prático como rotina em suas vidas.

Assim foi um dos primeiros momentos que tive e que ficaram registrados na minha vida, do prazer que é usar a bicicleta e como ela precisa ser resgatada e incentivada pelo poder público. Quem sabe um dia veremos diversas redes de escolas disponibilizando bicicletas e criando parcerias entre instituições privadas e públicas para implantarem infraestrutura que assegure a vida dos usuários, ou quem sabe, com essa parceria possam surgir mecanismos que desestimulem cada vez mais o uso do automóvel nas grandes cidades.

Atualmente, os valores ficaram limitados em esperar os pais na frente da escola para que ele possa abrir a porta do carro e ligar o ar-condicionado. Esse é o “prazer” que algumas crianças sentem quando voltam da escola. Óbvio que ter a companhia dos pais e irmãos é o prazer mais significativo, algumas crianças nem isso tem, mas se estivessem de bicicleta, a rua seria a extensão da escola, como aprendizado para a vida.

Voltei a usar a bicicleta na adolescência. Pedalava mais por lazer com amigos da rua onde moro. Sempre fazíamos percursos por vários lugares, nos divertíamos muito, sempre tinha alguém na garupa de uma bike alegrando a todos.

Um dia fui me arriscar a pedalar sozinho pela cidade. Decidi ir até o Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Foi uma decisão arriscada: a ida foi divertida e contemplativa, mas na volta eu sofri um acidente na Avenida Torquarto Tapajós. Um carro me jogou para a sarjeta, a bicicleta tombou entre a vala e a calçada, amassando o quadro e o pneu, e eu tive apenas alguns arranhões nas mãos e nos braços. Esse momento foi assustador e decisivo para me fazer largar a bicicleta por um bom tempo e mergulhar em um mundo de frustrações diante tanta violência no trânsito.

Voltei a andar de bicicleta há oito anos, quando larguei o carro que utilizava. Esse período conciliou com o momento em que eu tinha acabado de ir morar sozinho, então, buscava um novo sentido para uma postura mais ativa aos preceitos que eu já adotava, como prática de consumo consciente e ter uma vida mais saudável. Sou vegetariano há 23 anos e foi nesse momento que me tornei vegano. Então, tudo entrou em uma sintonia perfeita para que eu pudesse vivenciar até hoje todos os momentos de prazer pleno para curtir uma vida mais justa comigo mesmo.

No início não usava a bicicleta direto, utilizava o transporte público e caronas, mas não demorou muito para que eu tomasse coragem e enfrentasse o trânsito caótico de Manaus.

Nesse tempo eu não conhecia ninguém mais que usava a bicicleta no dia-a-dia, mas trocava experiências pelas redes sociais, através de algumas comunidades que existem. Com isso pude me orientar melhor sobre algumas condutas no trânsito, o que facilitou bastante para entender o mecanismo de comportamento do usuário de bicicleta, não como esporte ou lazer, mas como meio de transporte.

Aprendi muito, mais do que esperava, sobre a vivência sobre duas rodas, e acrescentei isso à minha cadeia de valores. Muitas pessoas também passaram a adotar a bicicleta após ver que é possível, em plena Amazônia, com tanto calor e umidade, conseguir pedalar e fazer todas as atividades como ir ao supermercado, padaria, feiras, faculdade e lazer.

Atualmente tenho desenhado um trabalho que pretendo desenvolver sobre a cultura da bicicleta, o Ciclourbano Manaus, um programa que quero implementar para fomentar ainda mais ação e iniciativas que possam favorecer o uso da bicicleta na cidade, desenvolver ações que possam inserir a cultura da bicicleta. O programa visa favorecer a mobilidade por toda a cidade, de forma a contemplar os espaços de uso social, como centros culturais, restaurantes, pontos inusitados e localidades, incluindo a bicicleta em roteiros rurais e ecológicos.

Participei também do Fórum Internacional de Sustentabilidade, no início de 2012, quando indiquei a realização de uma pedalada para encerrar o evento. Conseguimos colocar o governador e seus secretários sobre as bicicletas e após ele realizou um discurso amplo e plausível a favor do uso deste modal, afirmando que a bicicleta deveria receber incentivos por promover qualidade de vida para a cidade. Depois, estive no Fórum de Bicicletas de Manaus, realizado pelo movimento Pedala Manaus, para o qual desenvolvi a identidade do “Respeito ao Ciclista”, que cria um visual lúdico para alertar quanto à distância de 1,5 metro de distância (meia faixa de rolamento) que o motorista deve respeitar ao se aproximar e ultrapassar uma bicicleta.

No Dia Mundial Sem Carro, comemorado todos os anos em 22 de setembro, criei em Manaus a Vaga Viva, uma intervenção urbana que consiste em ocupar uma vaga de um carro com ações mais humanas e interagindo com a sociedade, para mostrar que precisamos ter mais espaços de convivência. Outra intervenção importante que consegui em um importante evento da Secretaria de Cultura foi o “Mania de Ler, Mania de Pedalar”. A principal ideia era mobilizar quem usa a bicicleta a doar livros à campanha da secretaria, e obtivemos grande êxito. Outra ação importante que realizei com a colaboração de grandes amigos foi a “Manifestação por Respeito aos Pedestres e Ciclistas”, um alerta quanto à importância do respeito no trânsito.

Eu acredito muito neste poder de transformação que uma bicicleta pode proporcionar na cidade. Ela pode envolver as pessoas e criar diversos campos que integrem a cidade. A minha luta está neste ponto, sou cicloativista por defender os direitos à mobilidade por bicicleta, e defendo a implantação de uma infraestrutura que assegure a vida dos usuários de bicicletas. Acredito que o compartilhamento da via seria o mais ideal, mas para isso é necessário uma alteração cultural ou outra formação para as pessoas que parecem se transformar quando entram em um carro e viram motoristas: talvez esse seja o “poder” que a máquina proporciona ao homem, a necessidade de ser mais do que é.

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