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La Frida

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
6.970 visualizações
30/08/2017
La Frida
Foto: Petterson André / Juh Almeida / Marcio Luis

Mulher negra. Por maior que seja a sua capacidade de se colocar no lugar do outro, se você é um homem branco jamais conseguirá sentir o que é, para uma mulher negra, carregar todos os significados históricos e rótulos que em si encerra. Só ela sabe, verdadeiramente, o que isto significa. Também, seria pequena qualquer tentativa de explicar a enorme admiração que provoca, quando seu sorriso mais sincero contrasta com o desmensurado e cruel preconceito com que a sociedade, historicamente, não lhe sorri de volta.

Fotos Petterson André / Juh Almeida / Marcio Luis

Mas, como no poema de Victoria, quando a mulher negra compreende afinal que já tem a chave, projetos lindos certamente nascem. Um desses projetos vem de Salvador-BA, o La Frida.  

“Tinha sete anos apenas, apenas sete anos... Que sete anos! Não chegava nem a cinco! De repente umas vozes na rua me gritaram: Negra! Negra! Negra! Negra! ‘Por acaso sou negra?’, me perguntei. Sim. ‘Que coisa é ser negra?’ E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia. E me senti negra, como eles diziam, e retrocedi, como eles queriam. E odiei meus cabelos e meus lábios grossos, e mirei apenada minha carne tostada, e retrocedi. E passava o tempo, e sempre amargurada, continuava levando nas minhas costas, minha pesada carga, e como pesava... Alisei o cabelo, passei pó na cara, e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra: Negra! Negra! Negra! Negra! Até que um dia que retrocedia, retrocedia e que ia cair, e daí? E daí? Negra, sim! Sou negra. De hoje em diante não quero alisar meu cabelo, não quero, e vou rir daqueles, que por evitar – segundo eles – que por evitar-nos algum dissabor, chamam aos negros de gente de cor. E de que cor? Negra. E como soa lindo! Negro. E que ritmo tem! Negro. Afinal compreendi, afinal já não retrocedo, e avanço segura, avanço e espero, e bendigo aos céus porque quis Deus, que negro azeviche fosse minha cor. E já compreendi, afinal, já tenho a chave, negra sou!”                                         (Poema da compositora, coreógrafa e desenhista peruana Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra).
Livia Suarez (cicloativista), Maylu Isabel (coordenadora criativa) e Jamile Santana (poesia) estão à frente do bike-café poético, que surgiu como um projeto móvel com ideia social, para encher a cidade de poesia e incentivar um estilo de vida saudável, simples e sustentável. Assim como fez a icônica artista Frida Kahlo, que serviu de inspiração para batizar o projeto, La Frida intervém com toda a beleza e a arte que pode nascer da sua própria dor.
 

Café, manifestações artísticas, e até um mini-sebo que possibilita a troca de livros demonstram o bom gosto dessas mulheres. Mais que isso, o La Frida se tornou um projeto feminino de cicloativistas negras! Segundo as idealizadoras, “La Frida une a bicicleta à arte de rua, estimula a representatividade feminina na mobilidade urbana, ampliando as vozes das mulheres negras e ocupando espaços, sendo a bicicleta um instrumento de empoderamento e transformação na sociedade. O objetivo é ter uma mobilidade justa para todxs”.

Tudo começou como um empreendimento sustentável, o bike-café. Mas, ao acessar e sentir a cidade com a bicicleta, elas logo perceberam o quanto as pessoas amam bicicleta – e quantas não sabem pedalar ou têm medo de acessar a cidade com este modal, diante da falta de estrutura e respeito no trânsito.

“Percebemos que uma grande parcela das mulheres negras”, contam elas, “principalmente as que moram nas periferias, não sabem pedalar ou aprendem de forma muito tardia. Além disso, as que sabem pedalar têm receio de utilizar a bicicleta como meio de transporte, pois além do assédio, elas são apontadas como hipossuficientes, diferentemente das mulheres brancas, que são tidas como esportistas ou como as belas revolucionárias. Uma das nossas iniciativas, o ‘Preta, Vem de Bike’, busca exatamente desconstruir este cenário, por mais mulheres pretas na rua pedalando e lutando juntas pela destruição desse preconceito”.

Fotos Petterson André / Juh Almeida / Marcio Luis

Na poesia, outra veia forte do projeto, elas encontram uma forma de falar de suas dores enquanto mulher na sociedade “racista, machista, patriarcal”, como bem definem, e “tirar a mulher do foco do papel de submissa e da exclusão social. Semeamos a poesia negra musicalizada, e em nossa fala inspiramos o dia a dia, valorizando o poder da mobilidade urbana, sustentabilidade e empoderamento feminino. Desenvolvemos poesias com tais temáticas”.

Com um ambiente livre e descontraído, La Frida se consolidou como um espaço itinerante para quem quer sentir e compartilhar um tantinho de poesia, valorizando a interação pessoal, estimulando boas ideias e debates. Além disso, todos são convidados e livres para fazer intervenções artísticas. Enfim, onde a bike estiver, ali será um espaço aberto para que as pessoas de todas as classes, cores e origens possam partilhar ideias, criar e expor a sua arte.

Fotos Petterson André / Juh Almeida / Marcio Luis

La Frida já ensinou mais de 60 mulheres a pedalar, sendo que muitas dessas já utilizam a bike como meio de transporte; já instalou mais de 10 bicicletários pela cidade de Salvador; e já inspirou milhares de pessoas, seja com sua presença ocupando as ruas da capital baiana ou com fotos, vídeos e relatos nas mídias digitais. “Estamos plantando a sementinha agora em São Paulo e pretendemos partir para o nordeste e logo para o Rio de Janeiro”, afirmam.

Livia, Maylu e Jamile seguem realizadas, representadas. E quando, de repente, umas vozes na rua lhe gritam: “Negra! Negra! Negra! Negra!”, com a cabeça erguida, do alto de suas bicicletas, na companhia de outras negras, certamente sorriem e pensam: “como soa lindo... E que ritmo tem”...

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