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Mecânica Quântica

Revista Bicicleta por Antonio Olinto
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22/02/2014
Mecânica Quântica
Foto: Rafaela Asprino

Justamente quando Daniel e Inglid resolveram fazer uma viagem pelos caminhos de nosso Guia de Cicloturismo – Mantiqueira nós estávamos na região e pudemos nos encontrar. Conversamos muito e falamos da intenção de viajar pela Índia.

Pouco tempo após o término da viagem deles, Inglid me passa um link de um site e, apreensiva, aconselha tomar cuidado na Índia. O link do UOL trazia a trágica notícia do estupro coletivo de uma cicloturista suíça no estado de Madhya Pradesh, Índia, dia 17/03/13.

Acredito que nada seria mais temerário que isto para um casal de cicloturistas como nós. O fato me arrepia só de pensar, é algo que só aparece nos piores pesadelos de um casal de viajantes. Minha primeira reação foi negar. Negar a existência do fato, negar a possibilidade de acontecer com a gente, enfim, negar.

Madhya Pradesh é um estado situado no centro da Índia, região altamente povoada, nada a ver com Ladakh, onde pretendíamos viajar. Li e reli a matéria sempre com um nó na garganta. Em meio aos nossos preparativos esta história sempre me incomodava. Não consigo imaginar um assunto mais inapropriado que este em véspera de viagem.

Enquanto viajava pelo mundo aprendi a conviver de perto com o medo e a insegurança. Percebi que assim como tudo no mundo, o medo tem sua utilidade e importância; ele serve para nos proteger do perigo. Entretanto, acredito que temos que ter uma atitude corajosa frente a vida, o medo não deve nos impedir de realizar nossos sonhos. Perceber e realizar nossos mais sinceros e profundos sonhos é, para mim, a forma mais eficiente de cumprirmos nossa “missão” na Terra. Mas, na prática, até onde devemos avançar ou retroagir em nossas atitudes, influenciados pelo medo?

Com todas estas ideias agitando minha mente, no final do mesmo mês surge outra notícia no UOL: “estupro coletivo de uma estrangeira dentro de uma van no Rio de Janeiro”. De forma indireta esta outra tragédia mostrou qual caminho tomar.

Inglid e Daniel moram em Niterói, ao lado do Rio, e conforme apurado posteriormente, Niterói também era local de atua-» ção  da gangue de estupradores. É importante lembrar que meus amigos cariocas continuaram suas vidas normalmente sem qualquer alteração, mesmo após esta tragédia.

Como conciliar todas estas coisas? Será que não devemos viajar de bicicleta pela Índia? Neste caso, não deveríamos andar de van no Rio também? Como qualquer um pode sair de casa com notícias assim?

A maioria das pessoas teme o que não conhece. Em nossas viagens sempre escutamos, “aqui onde moro é tranquilo, mas ‘lá’ é perigoso”. 

Atualmente este fator tem se agravado principalmente por causa da mídia. Existe uma “máxima” no jornalismo que diz que “a desgraça vende mais”. Explico: uma notícia trágica atrai mais a atenção das pessoas que uma boa notícia e, consequentemente, o veículo de divulgação vende mais quando publica uma tragédia na capa. Com tantas fontes de informação, cada veículo busca desesperadamente atrair nossa atenção, existem noticiários especializados que vomitam tragédia o tempo todo. 

A rigor, se prestar atenção nestes noticiários de fim de tarde, perceberá que apesar do empenho em coletar todas as desgraças de nosso grande país, eles mal conseguem preencher os 30 minutos que transmitem em cadeia nacional. Geralmente ficam repetindo detalhes sórdidos, por vezes, com o pretexto de auxiliar nas investigações.

Quando focamos nossa atenção neste tipo de fonte de informação acabamos desinformados e com uma noção errada do mundo lá fora. O que quero dizer é que o mundo é formado massivamente de gente como eu e você, meu caro leitor. Ou seja, gente boa e honesta, que na oportunidade de encontrar um estrangeiro irá oferecer sorrindo alguma ajuda.

Não sou ingênuo o bastante para pregar que no mundo não há maldade, mas percebo que as pessoas vidradas nestes noticiários têm medo de tudo e acabam se fechando cada vez mais dentro de suas casas.

Vamos fazer um teste: “Você gostaria de viajar de bicicleta pelo Irã?”

Nos noticiários só ouvimos falar sobre desgraças neste país.

Pois bem, quando estávamos em Ladakh, encontramos Jude Kriwald, um cicloturista inglês que veio pedalando desde Londres. Ele comenta, assim como tantos outros cicloturistas, que no Irã foi muito bem tratado e que lá é ótimo para viajar de bicicleta. “Quase nunca conseguia pagar uma conta no restaurante, pois sempre alguém se adiantava e pagava para mim, às vezes nem sabia quem era”, completa.

Em qual noticiário você veria uma notícia como esta? Bem... Aqui nesta revista você pode ler sobre muitos cicloturistas que compartilham desta visão de mundo.

Modernamente, filósofos tem se apoiado nas teorias da Mecânica Quântica para explicar o mundo de uma forma subjetiva, ou seja, assim como os elétrons de um átomo mudam de posição conforme nós o observamos, o mundo muda conforme nós mudamos a forma de observá-lo.

Existem coisas que ainda não posso mudar nem controlar. Mas posso escolher o que leio e por quais ideias me influencio. O homem também é fruto do meio onde está mergulhado e por isso prefiro mergulhar nas impressões que tenho quando estou viajando de bicicleta.

Em Ladakh fomos muito bem tratados, e apesar de ser uma região encravada entre dois arqui-inimigos da Índia, nos sentimos livres e seguros para acampar em qualquer lugar que elegêssemos. É tão tranquilo que chegamos a ver moças viajando sozinhas de bicicleta.

Ao invés de acreditar na mídia de massa, acreditamos em outra forma de ver as coisas, esta forma de ver o mundo é compartilhada com outros colegas cicloturistas de vários países que repartiram as estradas de Ladakh com a gente.

Em cima de nossas bicicletas, uns mais, outros menos, todos acreditamos em liberdade, sustentabilidade, paz, generosidade e amor. Boas festas a todos e que cada um consiga percorrer em seu próprio ritmo o caminho rumo ao seu sonho de viagem de bicicleta.

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