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Nada paga isso!

Bike de bambu vence a África e ganha a Europa

Por Therbio Felipe M. Cezar / Fotos Ricardo M. Batista
21.273 visualizações
30/01/2018
Nada paga isso!

Sua trajetória pedalando pela América do Sul já rendeu um livro que deu origem à série. Ricardo Martins Batista descreveu em Roda América – Em busca de nossa gente (2013)  –  sua trajetória composta por encontros inusitados com culturas e consigo mesmo, na viagem que teve início em 2007.

Um ano e quatro meses atrás, porém, ele iniciou em Cape Town (Cidade do Cabo – África do Sul) sua mais nova aventura, desta vez, acompanhado pela popstar bicicleta de bambu Dulcinéia (obra de arte do gaúcho Klaus Volkmann), com o objetivo de dar a volta ao mundo. Como ele mesmo diz, busca “sair da realidade e ir para a página em branco”, com todo o ônus e bônus possíveis e inimagináveis.

A África foi um sem-número de páginas em branco escritas com muito perrengue, paisagens únicas, experiências de sonho, pessoas e suas culturas incríveis.

Nada paga isso! Vamos usar um de seus nobres jargões para aludir à ideia que emerge de seus vídeos postados nas redes sociais, tentando repassar fragmentos de sua passagem pelo continente africano, de sul a norte.

É fato que as incertezas eram imensamente maiores do que as probabilidades, porém, maior ainda era a vontade de escrever uma história para si que extrapolasse arquétipos ou lugares comuns.

Quando sua trip era ainda apenas uma ideia fixa na cabeça, estivemos com Ricardo em Paquetá - RJ, na companhia também do saudoso Glauston Pinheiro, e entre opiniões e debates dos acalorados amigos lembro de termos chegado a questionar se ele “precisava” disto.

Em nosso entendimento tão desprovido de ousadia, era uma loucura assumida, mas era o Ricardo, então, tudo bem. Talvez, nossa pretensa discordância residia em nossa pequena inveja revestida de preocupação, tão certos estávamos de nossos confortos e cotidianos previsíveis. Qual o problema de ele ir adiante? Afinal, era a sua volta ao mundo, então, não nos cabia qualquer censura, apenas apoiá-lo da melhor forma possível.

De alguma maneira sabíamos que Ricardo faria por onde dar corpo à ideia, e mais rápido do que pudéssemos imaginar ele já estava no sul da África, experimentando os sabores e horizontes de estar no mundo com o único compromisso de ser feliz.

Viver e viajar, para Ricardo, são a mesma coisa, em essência, enquanto para muitos de nós são uma complexa dicotomia recobrada de desculpas e procrastinações. 
Quer um resumo do que ele vivenciou neste tempo pelo continente africano?

Pedalou inebriado pelos vinhos da região de Franschhoek, na África do Sul; visitou o duríssimo acervo do Museu do Apartheid, no Soweto, marco de registro do holocausto que foi e continua sendo a segregação racial e o nacionalismo enquanto regime totalitário, como se vê atualmente ressurgir, infelizmente, em outras partes do planeta.

Experimentou a segregação racial na pele e na mente. Adentrou, pedalada a pedalada, nos interiores do desconhecido continente; foi assaltado na Estrada N2; horas depois ganhou ajuda de onde nem sequer imaginava; bateu cartão em Joanesburgo e no Cabo da Boa Esperança; passou rapidinho pela Suazilândia para depois seguir caminho rumo ao Moçambique para ficar cara a cara com elefantes, em Gorongoza Nation Park, coisa simples.Cruzou a Suazilândia, e na Tanzânia, mais especificamente em Zanzibar, refrescou a alma, o corpo e a mente no lago azul de uma caverna. Na mesma Zanzibar teve a casa onde estava hospedado incendiada; no Quênia, passou maus bocados enfrentando o deserto e temperaturas causticantes de cinquenta graus; na Etiópia, ficou decepcionado ao visitar o templo rastafári; repartiu um guarda-chuva com três crianças em meio a uma tempestade; superou montanhas próximas à nascente do Nilo Azul, e entre outras coisas, foi chutado sem motivos por um homem que fugiu correndo, um pouco antes das forças lhe fugirem diante de uma intoxicação estomacal; ganhou um pingente de uma senhora que lhe cedeu hospedagem e comprovou a hospitalidade e a humanidade do povo sudanês; ainda no deserto do Saara, esgotou todas as suas energias por não conseguir sacar grana no Sudão, o que o levou a lembrar da frase “quem tem fome, tem pressa”; lá também experimentou um jeito inusitado de estocar água dentro de uma carcaça de cabra, mas que lhe salvou a vida diante dos cinquenta graus mais uma vez.

Calma, tem mais: deu uma geral no Vale dos Reis, em Luxor, voando de balão; nadou no Mar Vermelho; ajudou, escrevendo uma carta, um egípcio apaixonado por uma espanhola a declarar seu amor, em Assuan; 14 mil km depois, foi recebido pelo Embaixador do Brasil no Cairo, visitou as pirâmides e finalizou sua jornada através da África em praticamente quinze meses.

Dia 23 de setembro, ele palestrou no TEDx em Mannheim, na Alemanha, sendo interrompido duas vezes por aplausos.

As páginas em branco da viagem do Ricardo e da Dulcinéia através da África foram tingidas por uma cor universal e complexa, por matizes que fazem repensar os significados das palavras sonho, cansaço, dor, fome, sede, miséria, bondade, justiça, amizade, humanidade. Dos que discordaram, Glauston faleceu poucos meses depois de nosso encontro em Paquetá. Eu, sem merecer muito, estou aqui a escrever este texto.

Então, Ricardo e Dulcinéia vão continuar sua saga pelos caminhos europeus. E, nada, absolutamente nada paga isso!
Viva a bicicleta, sempre!

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