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No Quintal do Mundo

É no imenso quintal do mundo que o casal Alexandre Garibaldi e Luciane Derrico vive, pedala, acampa, experimenta o novo. E apesar dos contratempos, eles seguem firmes para cumprir o objetivo de pedalar pela América do Sul, leste e sul da África e, finalmente, alcançar o Himalaia.

Por Revista Bicicleta
2.868 visualizações
13/02/2017
No Quintal do Mundo
Foto: Arquivo pessoal

Há mais de um ano, Alexandre e Luciane iniciavam o pedal em Ushuaia, extremo sul da Patagônia Argentina, e já haviam pedalado por diversas cidades da Argentina e Chile, quando um problema de saúde os tirou da estrada. Mas foi só por um tempo. Agora de volta à aventura, eles seguem superando obstáculos rumo ao Himalaia.

“Nos primeiros quatro meses de viagem, em 2015”, relembra Lu, “percorremos quase três mil quilômetros, visitamos mais de 60 cidades, percorremos a bela Carretera Austral, e quando estávamos em Bariloche eu me machuquei, resultado do grande esforço físico diário, frio e muitas noites dormindo na barraca. Tive uma inflamação na região da cervical que logo depois acometeu quase toda a coluna. De Bariloche seguimos a Pucón, onde fomos gentilmente recebidos por um jovem médico em sua casa através do site Couchsurfing. Ficamos duas semanas na casa do Miguel, fazendo repouso e recebendo alguns cuidados, mas infelizmente não foi suficiente para minha recuperação e em maio de 2015 decidimos interromper a viagem e voltar ao Brasil”.

O recomeço em 2016

Por Luciane Derrico

Eu me dediquei a minha recuperação, pois estávamos convictos de que não abandonaríamos o projeto. Neste meio tempo, Garibaldi voltou a cuidar de seus negócios, trabalhamos muito todo o restante de 2015 e logo que me recuperei pudemos cumprir a promessa de voltar para a estrada.

Decidimos voltar a pedalar saindo do Brasil mesmo – aliás, saímos literalmente do quintal de casa, em Batatais. Saímos em janeiro de 2016 rumo ao nosso principal destino dentro do território nacional: Bonito – MS. Pedalamos cerca de mil quilômetros e ficamos muito felizes com a receptividade que tivemos em todos os lugares pelos quais passamos neste nosso Brasil.

Passamos as noites acampados e somente quando muito necessário optamos por alguma hospedagem para descansar, poder tomar um banho quente e organizar o planejamento da próxima travessia. Procuramos lugares mais remotos para acampar, para nos sentirmos mais “conectados” com a natureza. Apesar disso, sempre somos surpreendidos com convites de famílias que nos encontram ao acaso e nos convidam para passar a noite em suas casas, ou mesmo armar a barraca no quintal.

Lembro-me muito bem do dia que uma senhora, Dona Rosa, fez questão de nos oferecer o seu humilde quintal à beira de um rio, pois estávamos em uma região considerada um pouco perigosa, e depois de uma linda noite fomos surpreendidos no dia seguinte com um banquete daqueles que só uma mãe prepara para o filho: arroz, feijão e pirão de peixe. Nesta segunda temporada, optamos por não recorrer a hospedagens através de Couchsurfer e Warmshowers, já que sempre somos surpreendidos com convites e encontros assim, casuais. Quando se viaja de bicicleta, parece que o universo conspira ao seu favor.

Fomos recebidos por um casal de amigos em Bonito. Com eles, conhecemos alguns pontos turísticos da cidade e juntos também fomos ao Pantanal, um presente de aniversário para o Garibaldi. Mas infelizmente, ao voltarmos, nós dois incrivelmente tivemos dengue ao mesmo tempo. Ficamos 10 dias de cama e logo que nos sentimos melhor, caímos na estrada para seguir ao Paraguai. Foram seis dias sob muito sol até lá. Ao cruzarmos a fronteira, nos hospedamos em hotel para recuperar as energias, pois o próximo desafio seria atravessar o Paraguai em 10 dias. Foram 600 km, enfrentando temperaturas acima dos 40°C diariamente. Antes de chegar ao nosso destino final, Assunción, passamos por Caacupe para visitar a Basílica La Virgencita, que é comparada com a Basílica de Nossa Senhora Aparecida aqui no Brasil.

Na Argentina entramos por Clorinda e decidimos visitar o Parque Nacional Rio Pilcomayo, um lugar com excelente estrutura de camping e lazer. Nossa ideia foi providenciar um churrasco já no primeiro dia, mas em poucas horas uma chuva nos alcançou. Despertamos no dia seguinte literalmente alagados no meio do pátio e fomos obrigados a dormir dentro da administração do parque por três dias.

Durante a travessia na Argentina, Alexandre Garibaldi começou a sentir dores durante o pedal, mas não sabia identificar o que era. A princípio achamos que era algo relacionado ao esforço extremo exigido durante tanto tempo. Seguimos por mais uns dias pedalando pela província de Formosa, até que chegamos na pequena cidade de Fortín Lugones. Acampados em um barracão ao lado da praça, decidimos buscar um médico, já que as dores se tornaram muito intensas. No pequeno hospital da cidade, o médico nos deu um diagnóstico bastante desanimador: se tratava de uma hemorroida, decorrente do esforço diário e também dos mais de 20 anos praticando o esporte.

O médico e a equipe nos aconselharam a voltar pra casa, para evitar que algo mais grave ocorresse. Todos sugeriram cirurgia como solução do caso. Ficamos arrasados! Não queríamos desistir mais uma vez do nosso sonho, depois de tanto planejamento e dedicação. Procuramos vários outros médicos neste tempo e o diagnóstico era sempre o mesmo. Já estávamos pesquisando passagem aérea para voltar ao Brasil. Enquanto isso, trabalhamos para recuperar os gastos que estávamos tendo. Garibaldi trabalhou como pintor e eu de faxineira. Apesar de termos nos preparado financeiramente para esta viagem, nunca perdemos uma só oportunidade de trabalho para tornar cada vez mais viável o nosso tempo na estrada.

Depois de tantos diagnósticos negativos, pegamos um ônibus e seguimos para Salta. Buscamos como último recurso apoio do seguro viagem para uma nova avaliação de um especialista, já que estávamos em uma cidade maior. Incrivelmente, conhecemos o Dr. Juan Cornejo, que com todo seu profissionalismo e generosidade não cobrou uma consulta sequer, e pela primeira vez tivemos uma boa notícia. Juan vez uma nova avaliação e pôde resolver o problema em 15 minutos. Depois de um mês de repouso e quase decidindo retornar ao Brasil, Dr. Juan explicou que se tratava de uma trombose hemorroida, que nada mais é que sangue coagulado. Em um simples procedimento de 15 minutos, tudo estava resolvido e voltamos para a estrada em dois dias.

A beleza de uma cicloviagem consiste em realmente poder estar em contato com a natureza e observar detalhes da paisagem pela qual passamos. Um dos nossos desejos era passar pela famosa Rota do Vinho, entre Salta e Cafayate. A rota é perfeita para o cicloturismo e fica difícil escolher um lugar para acampar, já que as opções são infinitas. Nela encontramos uma das mais belas paisagens até agora, além de podermos conhecer as inúmeras e centenárias Bodegas de Vinho que se encontram por todo o caminho.

Foi ainda na Argentina que concluímos um grande desafio. Subimos os quase 5.000 m de altitude pelo Abra Del Acay, já que decidimos seguir pela Ruta 40 até Paso Sico. Foi a maior altitude em que acampamos até hoje. Não temos palavras para descrever o nascer do sol visto lá de cima. Viajar de bicicleta significa superar desafios todos os dias, mas de uma forma especial, pois a recompensa é impagável. Foi a maneira que encontramos de poder conhecer o mundo.

Tivemos momentos e passagens inesquecíveis e, certamente, estamos também enfrentando grandes desafios, mas para mim o mais expressivo até hoje foi o dia em que estávamos seguindo pelo último trecho até Paso Sico, e uma frente fria nos alcançou em questão de minutos, resultado de uma nevasca que atingiu a Cordilheira dos Andes. Estávamos acima dos 4.000 m. Fomos surpreendidos e não estávamos preparados para aquilo. O vento nos impedia de avançar e logo minha temperatura corporal despencou e entrei em hipotermia. Meus dedos das mãos se contraíram e comecei a vomitar e tremer de forma violenta. Tomamos um grande susto e graças ao Garibaldi as coisas não ficaram piores. Com toda a sua habilidade e calma, ele trocou minha roupa molhada de suor, montou a barraca em questão de minutos, em meio a toda aquela ventania que arrastava e derrubava tudo a nossa volta, envolveu-me no coberto de emergência e buscou pedras de gelo para derreter e fazer uma sopa quente. Me salvou!

Muitas pessoas nos questionam se vale a pena correr riscos como este. Em nossa avaliação, tivemos muitos mais momentos de êxito do que de desafios extremos. Também, acreditamos que riscos corremos em qualquer lugar: no trânsito caótico, violência em grandes cidades e, porque não dizer, no estresse que acomete este nosso mundão.

Estamos passando por uma experiência única. Jamais nos esqueceremos de cada pôr-do-sol, de cada paisagem que nos deixaram sem palavras, por cada momento de silêncio em que pudemos sentir a presença de Deus por estes caminhos de beleza inexplicável. Apesar de estarmos protagonizando uma grande aventura, buscamos sempre fazer de maneira segura, e por isso, depois deste episódio fatídico, resolvemos passar alguns meses em San Pedro de Atacama, esperando assim o fim do inverno para sairmos novamente em segurança no início da primavera. Até agora, foram 3.000 km este ano e cinco países visitados.

Já estamos há três meses no Deserto de Atacama e trabalhamos muito por aqui em uma agência de turismo, o que nos ajudou muito financeiramente e contribuiu para nossa experiência profissional, afinal, trabalhamos em um dos lugares mais visitados do mundo. Somente aqui, Garibaldi já percorreu mais de 1.000 km pelas trilhas e paisagens atacamenhas. Neste momento estamos nos preparando para seguir viagem e o próximo desafio será seguir para Bolívia, cruzando todo o deserto até chegar ao Salar de Uyuni. Este é um trecho considerado como um dos mais difíceis da América do Sul, e estamos muito empenhados em ultrapassar mais este desafio.

"Viver um sonho ousado desses exige muita coragem e determinação. Mas sonho bom é sonho vivido!" Viaje junto com Alexandre e Luciane acompanhando as publicações do No Quintal do Mundo em sua página no Facebook: facebook.com/noquintaldomundo

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