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Nos Tire da Copa

Tirar a cadela Odara de perto dos rojões da Copa, e ficar ele próprio, Leandro, longe de tudo que o evento da Fifa implicou no cotidiano das cidades-sede. Este foi o intuito do projeto Nos Tire da Copa, idealizado pelo fotógrafo e videomaker Leandro Franco, paulista que tem seu trabalho voltado para a produção cinematográfica.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Shörner
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22/11/2014
Nos Tire da Copa
Foto: LEANDRO FRANCO

Foram 1.180 km pedalando desde Montevidéu, capital uruguaia, cruzando o país pelo litoral até o Chuí, fronteira com o Brasil, e retornando pelo interior para Montevidéu. A dupla ainda teve um reforço no caminho: El Loco, um cão que – inicialmente apaixonado por Odara – acompanhou os cicloviajantes por mais de 900 km. O carinho de Leandro com os caninos é simplesmente fantástico e inspirador. Conheça um pouco mais sobre este trio cicloviajante na entrevista a seguir.

Como nasceu o projeto Nos Tire da Copa?

LF: “Nos Tire da Copa” surgiu da premissa de que se vai ter Copa, então, tire-nos dela. Para mim, é um direito de todos que não estão de acordo com a realização do evento no país, seja pela supervalorização de serviços voltados ao turismo, por questões políticas ou qualquer outra de ordem pessoal ou canina. Afinal, com os jogos vêm os fogos de artifício e, como a maioria dos cachorros, se Odara falasse ela diria claramente que se apavora com eles.

O destino uruguaio veio junto com o meu interesse pela figura do presidente Mujica e seu estilo de governo que, aparentemente muito humilde, representa uma política voltada para os interesses de seu povo. Ele se demonstra muito sensato nos discursos sobre consumo, meio ambiente ou em assuntos menos discutidos como a legalização do aborto, da maconha e a própria felicidade humana. Sei que no Uruguai, como em muitos outros países latinos, o futebol é cultuado, mas a baixa densidade demográfica é um ponto a favor para quem busca lugares mais tranquilos nessa época. Se por quantidade é tranquilo, por qualidade também, na capital ou em pequenos povoados. O único que vi apressado em alguma circunstância foi eu mesmo. Por cultura do povo, a relação com o tempo dá aos uruguaios uma calma necessária para poder observar o mundo ao seu redor e dar a atenção às coisas independente de seus interesses, tornando-os imensamente receptivos e solidários, dividindo o pão, o fogo e o calor de sua compaixão.

Você deve gostar muito de cachorros. Fale um pouco sobre essa experiência de viagem longa com a Odara: como foi para você e para ela.

LF: Aprendi a caminhar dando meus primeiros passos atrás do cachorro de um vizinho lá de Ubatuba. Acredito que é algo natural do ser humano. Há um ditado popular que diz mais ou menos assim: “melhor um cão amigo do que um amigo cachorro”. Exceto aos que têm fobia, surpreende-me quem não gosta deles e, para mim, é um sinal de seu caráter.

Eu e Odara já havíamos feito uma viagem similar no início de 2012. Percorremos 720 km em 18 dias entre Ubatuba – SP e Ouro Preto – MG, passando pelo Caminho Velho da Estrada Real. Foi uma experiência e tanto. Depois de um grave acidente de moto e três meses sem pisar no chão, aquilo foi uma autoafirmação necessária para mim, com momentos de introspecção ímpar. E a companhia de Odara foi algo surreal, onde praticamente nos fundimos em um único ser (humano, cachorro e bicicleta), com dependência mútua e fidelidade recíproca.

Durante a viagem, Odara é quem me esperava acordar para começar a fazer a festa. Ela ficava com aquele sorrisão na cara sabendo que logo iríamos partir. Quando eu pegava a bicicleta ela já pulava na caixinha. Não tenho dúvidas de quanto gostava. Em subidas íngremes ou em terrenos muito acidentados, quando geralmente estava em baixa velocidade, eu colocava ela para se exercitar. E como todo exercício físico, o pós é muito gratificante e os prazeres se intensificam, desde o comer até o descansar, para o homem e para o cão. A Odara chegava a roncar!

Onde e como El Loco surgiu na viagem?

LF: Era 17 de junho. Não tínhamos percorrido 250 km desde Montevidéu. Chegamos em Jose Ignácio, um povoado litorâneo habitado por ninguém além de corretores de imóveis e uma senhora que vendia artesanatos em uma lojinha na beira da praia. Ela me olhou como se não visse um cliente desde o final da temporada de verão, mas eu só pedi informação. Sem nenhuma padaria ou qualquer comércio aberto para comprar comida, voltei para o posto de gasolina na entrada da cidade. Foi então que veio um cachorro todo animadão se engraçando com a Odara. Eu não dei muita bola e ela não estava aberta a novas amizades. Passei uns 10 minutos ali com o atendente da conveniência me abastecendo para um possível camping à beira da estrada perto da balsa de Laguna Garzón, a 8 km dali. Enquanto isso, o cachorro lá azucrinando a Odara, enquanto ela cortava o barato dele. Pelo porte, humor e beleza do cachorro, achei que era de alguém ali do posto ou que cuidavam dele por ali.

Peguei a bike, Odara na caixinha e começamos o pedal. O cachorro meio abestalhado pulava a nossa volta e começou a nos acompanhar. Cheguei a rir com tanta animação. Começamos a pegar velocidade com o forte vento a favor, distanciando do posto. Fiquei impressionado com tamanha energia do ser e preocupado comecei a tentar espantá-lo, mandando-o de volta. Creio que ele não compreendeu meu péssimo espanhol e nem deu trela, continuou forte como um touro. Eu só pensava: que cachorro louco. E fomos assim até a balsa. Lá, Washington, um lenhador, convidou-me para assistir o jogo de Brasil x México em sua casa, do outro lado da balsa. Ali, pensei, já resolveria a questão do cachorro: ele fica e nós vamos. Subimos na balsa, eu na bike, Odara na caixinha, e Washigton em sua 125cc. Foi tudo tão rápido que quando vi já estávamos no meio da pequena travessia e o cachorro louco debruçado no cano da bike. Vi que daria pano pra manga...

O cachorro, sem a Odara, pulava em mim, mordiscava minha jaqueta, não me dava espaço. “Sai louco, sai louco”, era o que eu dizia. Ele não saiu. Dia seguinte acordei com aquela sensação de ser observado: o cachorro com o olhar vidrado em mim. Seguimos para Rocha, Odara na caixinha e o cachorro livre para sua decisão. O cenário lindo, a estrada, o vento, o mar e o cachorro correndo sem destino. Algo movia o cachorro a estar ao nosso lado, aceitando nossa direção. Não questionava suas maratonas diárias, só as vencia, dia após dia. Foram mais de 900 km honrando em cada passo sua escolha, vivendo a cada dia o prazer da liberdade e somando nos momentos o valor de sua história.

Qual a situação mais inusitada que os seus companheiros caninos proporcionaram?

LF: Todos os dias houveram situações singulares, não só pela peculiaridade de estar com dois cães, mas por estar aberto a me jogar na estrada sem um planejamento ou roteiro engessado, deixando cada dia tomar seu curso. Mas um caso que não estava previsto foi o episódio da “Loquita Kamikaze”, a cadelinha no cio que deixou El Loco cego de paixão e tirou onda da minha cara. Ela me fez voltar duas vezes para a saída de Trinidad e pedalar 20 km sem sair do lugar.

Outra situação interessante aconteceu quando El Loco, cansado depois de 55 km, parou no meio da estrada. Botei Odara para correr e o brutamontes na caixinha. Ele, desengonçado, se deslumbrava com a situação. Odara, sempre muito ciumenta comigo, parecia entender a situação e não se queixou em nenhum momento dos 10 km seguintes até a Vila de Valizas.

Quais serão os frutos deste projeto?

LF: A viagem daria um filme por dia de tão intenso. A ideia era fazer uma crítica sobre a Copa, mas produzir um documentário fazendo uma viagem pode trazer grandes surpresas. El Loco, por exemplo, deu uma lição de força e coragem, e agora talvez a Copa fique só como plano de fundo. A experiência resultará em um ensaio fotográfico e um filme documentário de média metragem. Pretendo também lançar um livro com os relatos e histórias que surgiram nessa trip. A sensação que tenho é que a viagem termina nunca, só vencemos suas etapas. O que comecei com ela levarei por toda a vida e minhas maiores descobertas não estavam lá, mas sim aqui, dentro de mim.

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