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O anti-herói Walter Greaves

Eu sei que as paralimpíadas já terminaram faz tempo e que pouca gente deu bola para os atletas do goalbol ou do vôlei sentado. Claro que é impressionante qualquer grande feito esportivo, ainda mais quando se luta contra todas as adversidades. Mas, convenhamos meus amigos da Revista Bicicleta, desafios de verdade exigem duas rodas, um guidão e a incrível superação humana que só os ciclistas conseguem alcançar. Por isso é que hoje apresento a vocês Walter Greaves, o antipático herói do ciclismo.

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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12/06/2017
O anti-herói Walter Greaves
Foto: Arquivo Histórico

Você conhece alguém desagradável? Pense naquele seu colega de trabalho desprezível, que adora tentar te convencer a mudar de opinião política; retire de seu rosto todos os músculos responsáveis pelo sorriso e adicione ao chato duas ou três manias. Digamos: arrogância, soberba e, sendo abstêmio e vegetariano, pedantismo na crítica a carnívoros e bebedores ocasionais. Deu raiva? Em mim também!

Muito bem. Agora coloque este cidadão em cima de uma bicicleta de 15 kg e... arranque fora seu braço esquerdo. O que esperar desse sujeito? Nada? Engano seu. Confira!

Walter Greaves nasceu em Yorkshire, Inglaterra, em 1907. Aos 14 anos perdeu um braço num acidente de carro. O veículo conduzido pelo seu pai, completamente alcoolizado, se aproximou de um bonde e Walter encontrava-se com o braço para fora. A amputação levou a metade do cotovelo para baixo. Numa época em que só restavam aos deficientes os papéis de figurantes na sociedade, Walter tentou protagonizar. E conseguiu muito. A deficiência não o impediu de trabalhar em uma forjaria própria, pintar, consertar tudo o que via pela frente, de carrinhos de bebê a rodas, e até mesmo… tornar-se um ciclista. E dos maiores. Por um longo ano, foi o melhor do mundo, até que sua falta de humildade levou tudo, inclusive o que podia ter conquistado.

Ainda muito jovem, Greaves aderiu ao comunismo e sua fama de chato e criador de caso se espalhou ainda mais, a ponto de, quando já formado em engenharia, ter tido tamanha dificuldade em encontrar emprego que foi considerado indigente.

Sem trabalho, sem renda, sem amigos e sem um braço, Walter Greaves não tinha muito o que fazer da vida naquele ano de 1936 e, portanto, era um grande candidato a bater um dos mais insanos recordes já criados no ciclismo. O recorde de distância pedalada de Ano Novo a Ano Novo. 

A competição havia sido criada em 1911, pela revista Cycling, e premiava inicialmente o ciclista que completasse o maior número de pedaladas de pelo menos 100 milhas (160 km) num ano. Marcel Planes, da França, foi o primeiro campeão, com nada menos que 332 centenas de milhas, ou 55.307 km entre janeiro e dezembro de 1911. 

Desculpe, caro leitor, mas você vai ser envergonhar se olhar agora para o seu perfil do Strava do ano passado mesmo que tenha chegado perto disso… Lembre-se que naquele tempo as bicicletas tinham mais de 15 kg e apenas uma ou duas marchas. As rodas eram de madeira e nada se sabia a respeito de alimentação e preparação física. E os ciclistas em geral eram pobres coitados que viam no ciclismo a última chance de ganhar algum dinheiro honesto.

A competição foi suspensa na I Guerra Mundial e voltou em 1932, com Arthur Humbles e seus 57 mil quilômetros rodados. Em 1933, Ossie Nicholson, na Austrália, ao lado de cangurus e mirando apenas paisagens planas num clima agradavelmente temperado, esmagou o recorde anterior e cravou mais de 70 mil quilômetros. Alguns anos se passaram sem que ninguém tivesse coragem de desafiar Nicholson, e então a crise, o amargor e a necessidade de ganhar algum dinheiro levaram Walter Greaves a se inscrever para a façanha.

Walter, ao contrário de Nicholson, não escolheu as secas planícies australianas e tampouco se preocupou em buscar um clima agradável para seu desafio. Contrariando qualquer lógica - ou talvez por falta de escolha - ficou em casa mesmo, na fria, montanhosa e úmida Inglaterra e lá, no dia 1º de janeiro de 1936, acordou azedo, como sempre, para esperar o único patrocinador entregar sua bicicleta, uma Three Spires, com guidão modificado para seu meio-braço. Aquele chumbo, que na época era muito perto do ápice da tecnologia sobre duas rodas, tinha três marchas, para-lamas, lanternas e um pequeno alforje de couro. Os pneus não eram finos como os de Nicholson, que praticamente só rodou por asfalto, e sim largos e com cravos, para superar a lama e a neve que, Greaves sabia, fatalmente viriam pela frente.

Mas no dia marcado, a bicicleta não chegou. Nem no dia seguinte. E tampouco no outro. Foi somente com cinco dias já entrados em janeiro de 1936 que Walter Greaves recebeu a sua companheira de ferro e então pode finalmente começar o desafio.

Janeiro é o mês mais frio do ano na Inglaterra, mas Walter não podia escapar disso. O recorde só era concedido a quem pedalasse a maior distância entre o dia 1º de janeiro e o dia 31 de dezembro do mesmo ano. E em 1936, o inverno foi particularmente maldoso com os ciclistas. A neve e o gelo na pista só começaram a se dissipar em fevereiro e não foi por outro motivo que Walter caiu nada menos que dezenove vezes nos primeiros cinco dias. Num único dia, caiu oito vezes pedalando em um planalto com muita neve. E mesmo assim foram 800 km. Greaves não desistia e sua persistência começou a ganhar as manchetes. Depois de cair mais uma vez na linha do bonde na cidade de Leeds, Walter foi anunciado pelo jornal The Telegraph como “o herói-ciclista de um braço só”. A cada novo número da revista, uma grande expectativa se formava para aguardar os resultados e as novidades do desafiante.

A neve e o frio cessaram em março, mas só para darem lugar aos ventos, ao granizo e a muita chuva. Walter não tinha patrocínio a não ser a bicicleta, fornecida pela fabricante como forma de demonstrar que o seu produto resistia ao maior desafio da Terra. Contava eventualmente com ajuda de ciclistas ao longo da rota, que forneciam alimentação, água e pouso, sempre meio a contragosto, já que para o desagradável herói nada estava bom o suficiente. E Greaves assim mesmo mantinha uma média de 24 km/h. Quando tudo parecia bem, em julho, Greaves foi atingido por um carro e ficou duas semanas fora do selim, tomando soro e bolachinhas com leite no hospital. Mas nem assim se deu por vencido. Retomou e já no primeiro dia cobriu 260 km, aumentando em seguida o ritmo para a média de 290 km por dia até 13 de dezembro, quando entrou no Hyde Park, em Londres para algumas voltas ao longo do lago Serpentine, que completariam o recorde. Centenas de ciclistas se uniram às últimas pedaladas no lago e depois seguiram juntos para o hotel, onde Walter foi recepcionado por jornalistas.

Já de banho tomado, com as pernas ainda inchadas, Walter se banqueteou com frutas e negou-se aos prazeres da carne e peixe especialmente preparados para a ocasião. Vegetariano e abstêmio, recusou inclusive um brinde com o champanhe que lhe foi oferecido por um jornalista. Como não podia deixar de ser, a recusa deu-se deselegantemente à moda Greaves, em que um “não, obrigado” nunca era suficiente: “Quando eu quiser me envenenar, tomarei arsênico!”. 

Convictamente vegetariano, durante todo o percurso Walter pedalou com leite em sua caramanhola e comia dezenas de maçãs durante o dia. "Era um verdadeiro vegetariano", disse Ron Kitching, ex-ciclista e proprietário de uma loja de bikes, "e dos duros". Tão duro que só depois de concluído o desafio aceitou ir ao hospital para tratar as orelhas, queimadas do frio.

Walter ainda rodou até a meia noite da véspera de Ano Novo de volta à sua cidade, com uma média de mais 210 km por dia, para ampliar o recorde. A chegada em Bradford foi cercada de grande público, e os jornais locais anunciaram a cena como se Walter fosse "a aparição pública de uma estrela de cinema". Os números finais são impressionantes. A maior distância num só dia foi de 443 km. O dia mais curto foi de “apenas" 108 km. O maior trecho sem dormir: 602 km. O total: 73.037 km, e apenas com um braço!

O recorde, contudo, durou apenas um ano. Já em 1937 outros três ciclistas ultrapassaram a marca de Walter e o próprio Nicholson, o australiano, alcançou 100 mil quilômetros. Em 1939 Tommy Godwin bateu os 120 mil quilômetros, marca que durou impressionantes 76 anos até 2015, quando o norte-americano Kurt Searvogel cravou 122.432 km em apenas um ano. Que tal?

Greaves tinha tudo para se tornar uma personalidade britânica e seguir o caminho do sucesso, mas seu temperamento pôs tudo a perder. Isolado, sem amigos, sem dinheiro e sem emprego, Walter tentou ajeitar a vida fabricando quadros para bicicletas, o que lhe rendeu frutos para chegar à velhice. Suas bicicletas, com quadros arrojados para a época, deram relativa fama à Walter Greaves Racing Cycles Co., com os modelos La Victoire, La Prime e King of The Mountains.

Uma série de trapalhadas nos negócios, entretanto, o levou à falência. Sua loja de bicicletas ficava no movimentado cruzamento da Toller Lane, em Bradford, mas o que menos se via lá eram bicicletas. Carrinhos de bebê ou um portão para ser soldado costumavam estar aguardando entrega aos clientes. Nos fundos ficava a forja em que construía os quadros, mas a falta de dinheiro para publicidade fazia esfriar o fogo e em geral pouco se via de trabalho por lá. Walter e sua esposa Renee criavam um macaco de estimação, e o cheiro do local acabava não sendo dos mais convidativos aos clientes.

Uma tentativa de mudar de ares tampouco rendeu alguma coisa. Walter montou um café afastado do centro, acreditando na presença maciça dos ciclistas da cidade, mas sua antipatia não atraía pessoas interessadas em confraternizar e descontrair. E assim Walter foi levando a vida de ex-recordista, até que em 1979 foi diagnosticado com Parkinson. Duro, como todo ciclista, não desistiu da vida e sete anos depois comprava um computador para começar a escrever sua autobiografia que nunca iniciou. No ano seguinte, com 80 anos de idade, morreu em decorrência da doença. 

Um exemplar do seu modelo King of The Mountains ainda está exposto no Museu Industrial de Bradford, juntamente com diversos pequenos anúncios de jornal da marca. Walter Graeves, um grande ciclista que, por seus erros, nos legou a grande lição: no esporte, na arte, na ciência, nos negócios a equação para o sucesso exige a multiplicação entre dedicação e disciplina, com a ponderação da empatia.

 

Catálogo de 1936 das bicicletas Three Spires

Note os preços variando entre £4 a £10!

 

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