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Revista Bicicleta - Edição 83

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O Caminho de Santiago de Compostela

Por Paulo de Tarso
32.655 visualizações
13/02/2018
O Caminho de Santiago de Compostela
Foto: Paulo de Tarso

A Espanha é um país menor que o estado da Bahia, dividido em cinquenta províncias que, agrupadas entre si, formam onze regiões (ou comunidades) onde se concentram diferentes etnias, com línguas e culturas próprias e um certo grau de autonomia política.

O Caminho de Santiago começa no País Basco e termina na Galícia, duas das mais peculiares dessas regiões espanholas. São dois mundos distintos, apesar da igual beleza da paisagem e da sempre generosa acolhida do povo espanhol. As terras bascas, nas quais o peregrino avança cerca de um terço da viagem, até a cidade de Logroño, são como um barril de pólvora prestes a explodir – a maioria da população deseja a independência da região. Já a Galícia resume uma Espanha eminentemente camponesa, tranquila, verde e agrícola, que avança até a costa do Atlântico. Tais diferenças revelam outra diversidade cultural. Muda a arquitetura das casas, costumes e, principalmente, a língua. O galego, por exemplo, poderia ser classificado como uma versão genuína do portunhol – é o espanhol mesclado ao sotaque e à forma do português clássico, de Portugal.

Escolha da rota

Existem várias rotas: Caminho Francês, Caminho Aragonês, Caminho Português, Caminho do Norte e Via de La Plata.  A rota mais conhecida é o Caminho Francês, de aproximadamente 748 km. O Caminho Francês se encontra com o Caminho Aragonês em Puente de La Reina, a 672 km de Santiago de Compostela, e de lá tornam-se um só até o final.

O cotidiano de um peregrino parece metódico, mas jamais é monótono. Ele acorda cedo, ainda antes do sol. Um bom café e pedal na estrada, eis a receita do dia. O Caminho de Santiago não é uma trilha linear, única, que corre sempre por um mesmo tipo de terreno. Ora cruza pastagens, ora lavouras, ora autopistas e às vezes é mesmo uma trilha picada aberta no meio da vegetação. Parece complicado, mas é difícil de se perder. Por todos os lados, placas de metal, antigos marcos de concreto ou simples setas amarelas pintadas em rochas e paredes orientam a direção do peregrino.

Santiago de Compostela é a capital da Galícia e principal centro cultural e administrativo desta comunidade. Sua população é de 120.000 habitantes e seu índice de crescimento é o mais alto da Galícia. É uma cidade movimentada, por causa dos muitos visitantes e da vida agitada dos jovens de toda a Galícia que enchem a universidade local. Tudo ali gira em torno da mítica Praça do Obradoiro, verdadeira clareira entre ruelas do centro histórico e onde se concentram as três principais construções antigas da cidade: a Catedral de Santiago, o Palácio do Ayuntamento e o antigo Hospital de Los Reyes Católicos. O objetivo é alcançar o túmulo de São Tiago. A reação dos peregrinos ao chegar à praça é imprevisível. Uns choram ao entrar na igreja, alguns admiram sua beleza, outros vêem simplesmente como o complemento da viagem e querem mais é descansar.

Mais além de todas as experiências vividas o mais importante acima de tudo é estar no caminho.

O Caminho Português

Os portugueses sentem -se muito orgulhosos de ser, desde as origens, o povo mais ligado à cultura do Caminho de Santiago, e de possuir uma grande variedade de rotas para encaminhar-se ao Apóstolo. Essa forte aderência do culto português ao Apóstolo Santiago exprime-se nas igrejas românicas que se situam pelo caminho. Não só o estilo é que tem ligação com a peregrinação jacobeia, mas também as albergarias, hospitais e templos dedicados ao apóstolo.

Reis e rainhas portugueses sempre mostraram o interesse da corte, empreendendo pessoalmente a peregrinação ao túmulo do apóstolo. O primeiro foi D. Afonso II, em 1220. Em 1225, depois da morte de D. Dinis, a Rainha Santa Isabel peregrinou até Santiago. Lassota de Steblovo, em 1581, e Leão de Rosmithal, em 1446, saíram de Porto, passando por Braga e Ponte de Lima, um caminho que ainda hoje os peregrinos trilham. Portugal sempre esteve ligado ao Caminho de Santiago. A lenda do Galo de Barcelos, o símbolo de Portugal, está ligada à peregrinação jacobeia, assim como o símbolo, a Vieira, que foi instituído a partir de um fato ocorrido com um cavaleiro português de Maia.

Mas entre todos, assume particular relevo a estrada real Porto-Barcelos-Valença, conhecida também como Caminho do Lima, onde confluem quase todos os demais, reforçando este percurso como a espinha dorsal dos caminhos portugueses de Santiago.

Com tudo isso, me faz sentir que o Caminho Português é o melhor de todos. Mais bonito, cidades mais legais ao longo do trajeto, pessoas mais receptivas e muitos outros fatores. Mas isso é uma opinião pessoal, pois gosto não se discute. Nesse ano percorri pela 13ª vez o caminho, sendo que é a 4ª vez pelo caminho português, que havia feito pela última vez em 2003. Fiquei surpreso e feliz em ver como o caminho português se desenvolveu. Recomendo fazer sozinho seguindo as setinhas amarelas e se hospedando em albergues ou de uma forma organizada, como fazemos no Sampa Bikers.

Separamos algumas dicas importantes para quem pretende percorrer o caminho:

Peregrinação

A peregrinação é um ato essencialmente religioso. A arte e a paisagem do Caminho de Santiago, além de outros valores ligados à Rota Compostelana, como a solidariedade ou a auto superação, contribuem em boa medida para engrandecer esta dimensão espiritual.

No entanto, ao longo dos séculos, o Caminho também gerou uma extraordinária vitalidade cultural e socioeconômica, que transformou esta via de peregrinação num espaço aberto ao encontro cultural entre os diversos povos, motivo pelo qual foi declarado Primeiro Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho de Europa.

Antes de começar

Percorrer o Caminho de Santiago de bicicleta não é tarefa fácil, mas ele pode ser completado por qualquer pessoa com uma mínima preparação física. E não é fácil porque são quase 800 km por estradinhas de terra, as vezes com muitas pedras e possivelmente com água na maior parte do ano. Desse trajeto aproximadamente a metade é em zonas com contínuas subidas, descidas e alguma outra serra de considerável desnível. Mas o peregrino pode planejar seu trajeto dependendo da sua preparação física e do tempo disponível.

Os fatores mais importantes a levar em conta antes de iniciar o percurso são: a preparação da bicicleta, a preparação física, a alimentação, a planificação do percurso, o previsível estado do caminho e a bagagem.

A preparação da bicicleta

A bicicleta ideal para o caminho é uma mountain bike; o equipamento básico de qualquer cicloturista costuma ser bastante adequado para encorajar o caminho, mas é preciso conferir se tudo funciona perfeitamente, e não esperar o último dia para revisar a sua bicicleta. De qualquer jeito, deve-se instalar os bagageiros onde será transportado o peso extra. Um outro complemento de grande utilidade é a bolsinha embaixo do selim, lugar ideal para guardar as ferramentas. Também podemos repartir o peso com pequenas sacolas especiais que se penduram no guidão e que são muito úteis para carregar a documentação necessária e os mapas do roteiro. (É muito importante organizar equilibradamente a bagagem na bicicleta).
Se a sua bicicleta não dispõe do tradicional descanso (aquele pezinho), é conveniente instalá-lo.

Também pode ser conveniente estar equipado com um GPS. Facilitará muito a compreensão dos mapas, ajudando na planificação do roteiro durante o percurso.
Hoje é possível alugar boas bicicletas no caminho e evitar o inconveniente de problemas com as companhias aéreas que costumam cobrar alto para transportar as bicicletas.
A empresa Bicigrino oferece um serviço de locação de bicicletas que entrega no seu ponto inicial e que depois pode ser devolvida no final da pedalada em Santiago de Compostela.
www.bicigrino.com

A preparação física

Para os já iniciados basta manter um ritmo de pedaladas, mas para os menos acostumados é importante a preparação para pedalar em trechos que oferecem uma certa técnica. Por exemplo, é importante se acostumar a pedalar em singletracks e a fazer downhill com os bagageiros na bicicleta, ou pedalar em zonas rochosas ou com musgo.

Os não iniciados deverão começar por um treino leve de aclimatação à própria bicicleta e pedalar por terrenos irregulares. Não convém tentar fazer muitos quilômetros nos primeiros dias de treino. É suficiente começar a treinar um mês antes da viagem. Mas é preciso treinar todos os dias aumentando gradativamente a quilometragem e a complexidade da pedalada. Durante a última semana é bom treinar já com a bagagem na bike e carregando as mesmas coisas que na viagem. É muito importante experimentar tudo antes de partir, como por exemplo: a sapatilha, os freios, kit de remendos, etc.

E é muito importante saber resolver os pequenos problemas mecânicos, que sem dúvida aconteceram no meio da viagem.

A planificação do percurso

O Caminho de Santiago não é uma corrida até Compostela, mas um passeio onde o peregrino desfruta de todas os componentes do caminho: paisagens, praias, museus, etc.
Na hora de planejar a viagem, são importantes as seguintes coisas: tempo disponível, preparação física, condições do clima e flexibilidade nas mudanças de planos.

O lugar escolhido para dormir é um outro fator importante. Não devemos esquecer que são os peregrinos a pé os que tem prioridade nos abrigos; por isso é bom ter alguma outra alternativa na hospedagem.

O site oficial do caminho, www.xacobeo.es, ajuda muito nessa planificação. Vale a pena conferir!

O estado do caminho

No Caminho são importantes três elementos: o calor, a chuva e as zonas cheias de água ou lama. Sem dúvida a melhor data para fazer a viagem é o mês de junho ou os primeiros quinze dias de setembro; uma outra opção é entre o final de maio até os primeiros dias de julho.

Os meses de julho e agosto são os mais utilizados para fazer a peregrinação porque é a época de férias na Espanha, mas também é a mais quente. De novembro até maio o caminho é intransitável para ciclistas e é uma época muito fria. Em minha opinião, os melhores meses são junho, setembro e os primeiros 15 dias de outubro.

A bagagem 

O peso e o volume da bagagem deve ser o menor possível, já que vai ser carregado nos alforjes instalados na bicicleta:  uma sacola ou pequena mochila para carregar os mapas e documentos e a máquina fotográfica, roupa especial para pedalar, sapatilha, uma roupa de frio para os locais altos, luvas, óculos escuros e uma capa de chuva que não ocupe muito espaço. Se você escolher uma época que não seja verão para fazer a viagem terá de incluir roupa de agasalho, luvas cumpridas e um gorro.

Outros elementos básicos são um saco de dormir, caso você opte por ficar nos albergues, um kit de primeiros socorros, câmara de ar reserva, kit de remendos e todas as ferramentas que você possa precisar para arrumar sua bicicleta.

A bagagem pessoal deverá ser mínima e leve, sendo suficientes duas camisetas de algodão, meias, uma sunga, uma roupa de agasalho, um tênis, o necessário para o asseio pessoal, protetor solar e a documentação pessoal.

Alguns abrigos dispõem de máquina de lavar roupas, mas você também pode lavar suas roupas em rios.

Além de tudo isso, você poderá carregar um farol, um plástico com o qual você poderá cobrir sua bagagem se chover, e xerox dos mapas, porque nunca se sabe as surpresas que podem vir pela frente.

Agora só falta você pendurar a típica concha do peregrino na bike e iniciar a pedalada.

ULTREYA!

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