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O futuro da energia renovável - De cabo a cabo numa e-bike

Gijs Stevers, pesquisador holandês de 26 anos, atravessou 23 países em 10 meses, cobrindo 20 mil quilômetros do extremo norte europeu, em Cabo Norte, Noruega, até o extremo sul da África, onde encerrou sua jornada em Cabo da Boa Esperança: tudo a bordo de uma bicicleta elétrica.

Revista Bicicleta por Anderson Ricardo Schörner
40.698 visualizações
24/05/2015
O futuro da energia renovável - De cabo a cabo numa e-bike
Foto: Gijs Stevers

A população da Holanda é conhecida mundialmente pelo amplo uso que faz da bicicleta. Com os recentes avanços de tecnologia e fabricação das bicicletas elétricas, muitos holandeses têm optado por esta versão com auxílio elétrico, inclusive para situações que tipicamente seriam encaradas com bicicletas convencionais. Uma jornada cicloturística de 20 mil quilômetros, por exemplo!

Gijs Stevers nasceu em 1987 em Eindhoven, na Holanda, e em 2009 começou o seu mestrado em Meio Ambiente e Economia dos Recursos Naturais, na Universidade de Copenhague. Com a intenção de explorar o futuro da energia renovável, ramo em que pretende trabalhar futuramente, ele planejou sua viagem para conhecer como as comunidades utilizavam suas fontes de energia. “Não quis apenas instalar painéis solares e dirigir um carro elétrico. Achei que viajar com uma bicicleta, conversar com as pessoas que estão trabalhando no futuro da energia renovável e compartilhar meus aprendizados ministrando oficinas em escolas secundárias seria mais proveitoso. O projeto da viagem veio em um momento perfeito, em que eu queria estar em forma, aberto para um mundo em mudanças e curioso como sempre”, conta Gijs.

O holandês disse que a sua paixão por mapas foi um dos motivos para a realização da expedição. “Quando eu era adolescente, tinha o hábito de ler atlas antes de dormir. Eu podia ficar horas vendo todos os tipos de mapas, sendo surpreendido com a quantidade de informações que podem ser armazenadas ali. Nos meus pensamentos, eu fazia mapas e viagens imaginárias. Eu percebi que o mundo inteiro já havia sido explorado por homens como Vasco da Gama e Cristóvão Colombo, então, eu pensei: o que eu gostaria de explorar? Meu plano inicial era partir de Copenhague até a Cidade do Cabo; mais tarde percebi que de Cabo a Cabo (Cape to Cape, como foi batizada a viagem do Cabo Norte até Cabo da Boa Esperança) soa muito melhor, além de a rota ficar mais agradável em um mapa”.

A viagem também foi um teste extremo para a sua bicicleta elétrica, considerada por Gijs, como bom holandês, o melhor meio de locomoção para a empreitada. “Ela saiu intacta, pronta para mais 20 mil quilômetros”, afirma. A cultura da bicicleta está impregnada no seu modo de vida. Isso é bem marcante quando ele conta sobre como o projeto o ajudaria a vencer outro duelo: “meu pai, quando era mais jovem, pedalou de Tilburg, na Holanda, até Roma, na Itália, e me desafiou a superar isso. Eu consegui superar ao completar o percurso”.

A bicicleta é um símbolo de aproveitamento inteligente de energia, e mesmo com o auxílio elétrico, o holandês acredita que tenha sido a melhor escolha. “Acho que a bicicleta elétrica se encaixa muito bem com o tema das energias renováveis. E, para esta viagem, acredito que a bicicleta elétrica foi uma opção melhor do que uma bicicleta comum, por poder contar com o motor quando eu subi as terras altas da Etiópia, por exemplo. Eu sei que uma bicicleta elétrica é menos sustentável do que uma bicicleta normal, e que eu não pude carregar minha e-bike apenas usando energia renovável ao longo de toda a rota. No entanto, ela ainda é mais sustentável do que qualquer outro meio de transporte. Eu poderia ter feito a viagem de moto, carro, transporte público, mas essas opções deixariam uma pegada maior no meio ambiente”, explica Gijs. Mesmo assim, após a viagem, ele instalou 16 painéis solares na casa de seus parentes. “Em duas semanas a instalação irá produzir a mesma quantidade de energia elétrica que consumi com a minha e-bike em 10 meses de viagem”, comemora.

A bicicleta utilizada no trajeto possui duas baterias de platina que permitiram uma grande autonomia, de 100 a 150 km. Estas baterias recarregam totalmente em três horas. O motor, acoplado na roda dianteira, tem potência de 250 W. A bicicleta foi levemente personalizada e ganhou raios da roda traseira mais fortes e garfo dianteiro também mais forte, para suportar os alforjes com a bagagem de cerca de 70 kg, ou mais. Um exagero para os cicloturistas, que Gijs diz poder ter se permitido por estar em uma e-bike. “Com o auxílio elétrico, pude levar uma bagagem mais pesada”, afirma.

Em meio à sua bagagem estavam os equipamentos de camping, já que o holandês preferiu economizar com estadias. Para isso, ele também ficou em casas de amigos e conhecidos, além de encontrar abrigo com pessoas cadastradas no Couchsurfing.org, um serviço de hospitalidade que busca ligar pessoas e lugares: o usuário anfitrião cadastra-se oferecendo alojamento, a priori, de maneira gratuita. 

Dos medos da viagem, como uma chuva de pedras lançadas por meninos etíopes, tempestades de areia, leões no Quênia ou regiões com conflitos, o que mais desafiou o viajante foi a solidão. “Parecia algo tão grande antes de começar a viagem, mas uma vez que eu estava na estrada, foi surpreendentemente fácil. O maior desafio foi o tédio; eu passei muito tempo sozinho, às vezes pedalava por 100 km sem cruzar com nenhum ser humano. Na próxima vez, uma coisa que eu faria diferente seria levar alguém comigo”, analisa.

Personagens e ideias do caminho

Gijs conheceu muitas pessoas e ideias pelo caminho, e afirma que a energia que mais lhe atraiu foi a humana. “Durante a viagem, aprendi que as pessoas que estão envolvidas com o futuro das energias renováveis têm um denominador comum: todas são positivas e cheias de energia. Elas parecem mais felizes por estarem contribuindo por um mundo mais sustentável”. Gijs diz que a humanidade, ao invés de explorar os recursos, deveria ser capaz de trabalhar em conjunto com a natureza. Acompanhe abaixo algumas das pessoas e das ideias que surgiram em seu caminho.

Parque eólico Havoygavlen, em Masoy, Noruega: o parque é o mais setentrional do mundo em funcionamento, onde se encontra ventos muito fortes e tempestades de neve. O francês Aurelien e o alemão Hans usaram a rica experiência que possuem com parques eólicos europeus para abastecer 7 mil domicílios com o Havoygavlen.

Energia que vem do mar, em Uppsala, Suécia: a Universidade de Uppsala utilizou turbinas com eixo vertical no fundo do mar para capturar as imensas forças naturais das correntes de água e transformar em energia. Anders, Stefan e Sandra receberam Gijs na estação onde estão construindo as turbinas.

EgenEI, paraíso da energia renovável, Suécia: trata-se de um centro construído por Johan, dono de uma revista, para mostrar que qualquer pessoa pode produzir energia e ganhar dinheiro com isso, ao invés de pagar para ter acesso à ela. Neste centro há várias formas de geração de eletricidade, como a solar e a eólica.

Hidrelétricas em pequena escala, Suécia: Jan-Ake mostrou ao cicloturista uma forma interessante de interação entre homem, máquina e natureza. Ele propaga o desenvolvimento de pequenas hidrelétricas, que ao contrário das grandes hidrelétricas, não altera a vazão do rio, sendo uma maneira mais sustentável de produzir eletricidade. Depois de 30 anos de monitoramento, Jan-Ake nota que o fluxo em “seu” rio só aumenta.
A ambiciosa Dinamarca: Gijs esteve com Martin, ministro dinamarquês do Clima, Energia e Construção, que possui a meta de substituir de 50 a 75% da energia gerada a carvão por energias renováveis nos próximos 20 anos. Cerca de 80% dos investimentos em nova capacidade de geração de energia na Europa são direcionados para formas de energia renovável.

A ilha das energias renováveis, Samso, Dinamarca: a população desta ilha foi incentivada, especialmente nos últimos 15 anos, a encontrar opções alternativas de geração de energia. Todas as emissões de CO2 são neutralizadas e projeta-se que a ilha esteja livre de combustível fóssil até 2030.

Plantas e bactérias geram energia em Wageningen, Holanda: na Universidade de Wageningen, pesquisadores produziram eletricidade a partir de plantas vivas e bactérias. Annemieke explicou a Gijs sobre a eletrólise microbiana, e David falou sobre a sua empresa de produção de eletricidade com a ajuda de plantas, que geram 0,2 W por metro quadrado.

Biodigestor em Klarenbeek, Holanda: Tonnie construiu um biodigestor em sua fazenda. O esterco, sob a ação de bactérias, produz gás que gera calor e eletricidade. Gijs brinca que essa “vaca de concreto” precisa ser alimentada como tal.

O brinquedo de infância que virou estação de energia, Holanda: a energia eólica é bastante efetiva naquele país, e há quem queira torná- la ainda mais barata e espetacular. A Siemens já está construindo aerogeradores de 100 metros de altura, mas o sonho de Robin, John, Melvin e Allert é ir muito mais alto. Para aproveitar a densidade de potência eólica, que é maior quanto maior for a altitude, o grupo está testando pipas. Conforme os ventos desenrolam a linha, geram eletricidade. Apesar dos testes já gerarem 20 kW, o sistema ainda não é eficiente e automático como os pesquisadores querem o tornar.

Energia solar na Alemanha: o país passou a incentivar o uso de painéis solares em empresas e residências, através da Lei da Energia Renovável. O resultado foi claramente visível na paisagem alemã, com mais da metade dos telhados virados para o sul cobertos com os painéis em várias comunidades.

Energia do morango, em Belgrado, Sérvia: não é a fruta que gera energia, o nome deve-se apenas à criatividade com que o sérvio Milos nomeou a sua start-up. A ideia é plantar miniestações de energia solar para recarregar gadgets, como o celular ou o Ipad. A “árvore” possui bancos e wi-fi, tornando-se um local de descanso e um ambiente sócio- educador sobre as formas de energia renovável.

Professor Venko, Bulgária: o professor de engenharia química e bioquímica recebeu Gijs e lhe explicou sobre duas formas de geração de energia bem peculiares. Uma delas é aproveitando a matéria orgânica depositada por milhares de anos no Mar Negro, por rios como o Danúbio, por exemplo. Essa matéria produziu um acúmulo de gás tóxico de sulfeto de hidrogênio abaixo dos 200 metros da superfície. O que era um incômodo passou a se tornar uma oportunidade para gerar energia há cerca de 20 anos, através das pesquisas do grupo de Venko, que encontrou uma forma de concentrar o gás e extrair o hidrogênio. Além disso, o professor falou sobre a pirólise a 3 mil graus, que transforma tudo em monóxido de carbono, hidrogênio e carvão em poucos segundos, podendo ser um ótimo método para gerar energia.

Energia Solar Concentrada, Cairo, Egito: a Usina Kuraymat mostra uma forma inovadora de aproveitar a grande quantidade de energia recebida pelos desertos. Os estudos de viabilidade começaram em 2009, e a ideia é que grandes espelhos consigam concentrar o sol e o calor em um ponto, e a partir daí ele seja utilizado para dessalinizar a água, gerar eletricidade ou como entrada para processos industriais. 

Energia do esterco para a produção de alimentos, Etiópia: sempre que Gijs passava por alguma aldeia na Etiópia, sentia o cheiro de fumaça. Para cozinhar, a maioria dos etíopes utiliza lenha e carvão vegetal. Mas em alguns dos locais foi possível perceber a presença de biodigestores, alimentados por excrementos de gado (e até de humanos) que resultam em biogás utilizado em fornos para o cozimento, além de compostos que podem ser usados no campo.

Solarkiosk, Etiópia: também conhecida como uma unidade de negócios autônoma, trata-se de um quiosque otimizado com painéis solares, planejado para ser instalado em áreas de países em desenvolvimento que não estão conectadas a uma rede elétrica. “Ali eu pude desfrutar de uma bebida fria e um chocolate não derretido”, diz Gijs. 

Olkaria, usina geotérmica no Quênia: quem conduziu a visitação foi Isaac, um engenheiro de perfuração. O potencial desta energia no Vale do Rift é enorme e tem alimentado o crescimento do país. A usina encontra-se no Hell's Gate National Park, um parque cheio de zebras, leões e outros animais selvagens pelo qual Gijs teve que cruzar com sua bicicleta. A energia térmica gerada pelo calor do interior da terra é transformada em energia elétrica. Atualmente, o Quênia depende fortemente de usinas hidrelétricas, e nas épocas de seca a geração de energia fica fortemente comprometida.
Módulos de painéis solares “made in Kenya”, Quênia: a Ubbink, inicialmente uma empresa de materiais de construção, é a primeira fábrica de módulos de painéis solares na África Oriental. Além de aproveitar uma boa oportunidade de negócio, a empresa é uma iniciativa empreendedora que auxilia no desenvolvimento da região. Enquanto Elizabeth mostrava a fábrica para Gijs, ela afirmou sentir orgulho de trabalhar lá. “Este trabalho está em sintonia com minha formação em Engenharia Elétrica. É fascinante ver como, a partir do zero, podemos conectar as partes e fazer os painéis que podem fazer tantas coisas para uma casa”, vibra Elizabeth.

Energia solar em Malaui: o jovem Makaiko comprou um painel solar que gera até 85 W para ter em sua loja. Ele percebeu uma oportunidade para gerar renda oferecendo o serviço de carregar telefones celulares das pessoas de sua aldeia por 40 kwacha, o que equivale a 0,10 euros. Parece pouco, mas ele conseguiu pagar o painel e já pensa em comprar uma bateria melhor.

ONG que auxilia pessoas afetadas pela Aids em Harare, no Zimbábue: a fundação Seta auxilia com alojamento e tratamento medicinal contribuindo a reintegração social de pessoas portadoras do vírus HIV. Localizada na Sociedade de Engenharia e Tecnologia na África, a fundação tem a meta de ensinar habilidades para reparar e até produzir os seus próprios gadgets, ao invés de importar tudo do Japão. Gijs pôde ver um conjunto de luzes de LED recarregáveis por painéis solares e um balde especial que pode ser utilizado para tomar um banho quente.

"Quando podemos colocar em prática o aproveitamento da energia naturalmente produzida pelo vento, a água ou o sol, sentimo-nos mais leves, mas felizes. É o mesmo princípio que nos leva a defender o uso da bicicleta para a mobilidade."

Essas e outras ideias e pessoas resultaram em uma rica experiência para Gijs, que agora colocará em andamento a sua própria empresa de energia renovável. O impacto da interferência humana no meio ambiente é um problema que pesa em nossa consciência, e quando podemos colocar em prática o aproveitamento da energia naturalmente produzida pelo vento, a água ou o sol, sentimo- nos mais leves, mais felizes. É o mesmo princípio que nos leva a defender o uso da bicicleta para a mobilidade. É uma integração entre nós, o suprimento de nossos desejos e necessidades, e o que de mais natural e sustentável está disponível no mundo. Inspirações não nos faltam.

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