REVISTA BICICLETA - Pedalada na Suíça
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Pedalada na Suíça

A Suíça é um país que praticamente não tem fronteiras demarcadas visualmente, isto porque os Alpes, que formam a maior parte de seu território, se estende para leste até a Áustria, para oeste até a França, e para o sul formando vales até a Lombardia, onde a fronteira se espalha por muitos lagos. Embora a fronteira norte siga o curso do Reno, mesmo aqui ela cruza este traçado natural abrangendo um mosaico de enclaves alemães e suíços em torno da região de Schaffhausen. Sem acesso ao mar e bem no centro cultural e geográfico da Europa, o país é admirado pela beleza de seu ambiente alpino, o povo é respeitado por sua engenhosidade industrial e técnica, pela responsabilidade social e por um governo democrático direto. É também uma das nações mais ricas do mundo. Foi este país interessante de paisagens únicas que nosso grupo de pedal, Os Dinossauros, resolveu conhecer de bicicleta, em um total de 510 km percorridos!

Revista Bicicleta por Ruben Wanderley Filho
1.352 visualizações
06/09/2017
Pedalada na Suíça
Foto: Ruben Wanderley Filho

Nós, do grupo de pedal Os Dinossauros, sempre priorizamos o conhecimento de novas culturas, histórias, costumes, pessoas e lugares através de uma atividade ao ar livre como o MTB ou o cicloturismo. A partir daí passamos a nos conhecer melhor e evoluímos como seres humanos no ambiente que vivemos dentro de nosso planeta. Nosso lema sempre foi união, companheirismo e respeito ao meio ambiente, tudo com muita diversão.

Foto: Ruben Wanderley Filho

Fomos para a Suíça no começo de junho e um detalhe que não sabíamos é que nesta época, temporada do verão europeu, é o período com maior índice pluviométrico no país. Chove muito! Chegamos a Zurique em uma terça-feira, e fomos conhecer um pouco dessa cidade que é atravessada por elegantes pontes baixas, já que o Rio Limmat divide a cidade conforme sai do lago Zurique e ruma para o norte. Já era fim da tarde, fomos jantar e aproveitamos para apreciar seu lindo visual à noite.

Montamos nossas mountain bikes que trouxemos do Brasil, visitamos algumas bicicletarias para nos equiparmos para a chuva e fizemos um pedal de reconhecimento para testar as magrelas nas redondezas de Zurique. Foram 60 km em um dia perfeito e com sol. No dia seguinte, novamente com tempo bom, aproveitamos para conhecer o outro lado da “Costa de Ouro”, 40 km de pedal ao largo do lago de Zurique, que é um dos maiores da Suíça. A alta qualidade de vida na cidade é em grande parte graças a este lago. O litoral norte é um dos mais procurados para viver. O nome “Costa de Ouro” vem dos altos preços de seus imóveis de um lado, e da localização geográfica de outro. As magníficas moradias no norte são banhadas pelo sol até tarde. O lado que pedalamos neste dia foi o sul, o lado oposto que jocosamente é chamado de “Costa Sniffle”. Esta costa é coberta pela sombra das montanhas no início do dia e é causa de muitos resfriados e narizes entupidos, daí seu apelido.

Zurique a Einsiedeln

35 km + trem

Estávamos com as malas etiquetadas no hall do hotel esperando a empresa de transporte e iniciamos nossa pedalada de Zurique a Einsiedeln sob forte temporal, já protegidos e preparados. Começamos atravessando uma área residencial na costa dourada, com subidas curtas e íngremes em direção a Rapperswil. Utilizamos a rota 66, que por conta de suas ensolaradas encostas é também uma área vinícola. Pedalamos com subidas sempre curtas, mas de intensas inclinações e finalizamos em Pfäffikon, após 35 km de pedal. Seguimos a partir daí em uma curta viagem de comboio para Einsieldeln.

Foto: Ruben Wanderley Filho

Pernoitamos nesta pequena cidade com 15.000 habitantes localizada no planalto sul do lago em Zurique. É enorme o número de religiosos na cidade, que é uma rota popular de peregrinação, inclusive para o Caminho de Santiago, na Espanha.

Existe um lindo mosteiro barroco, que conta-se, foi iniciado por St. Meinrad, um homem piedoso que foi atraído para uma vida de reclusão e que construiu uma pequena capela no local. Ele mantinha dois corvos como companheiros. Diz a lenda que foi morto por ladrões e que vários milagres ocorreram ao redor de seu corpo. Seus corvos perseguiram os assassinos até que eles foram capturados e levados a julgamento em Zurique. O mosteiro e a igreja foram construídos no exato lugar da capela construída por St. Meinrad e seu vão livre de telhado está entre os maiores da Suíça.

A igreja, que forma a parte do complexo barroco central do conjunto, possui em seu interior murais e detalhes em ouro. Dentro dela existe a capela da misericórdia, construída onde St. Meinrad costumava rezar. Ela abriga a Madona Negra, uma estatuazinha da virgem que se misturou à fuligem das milhares de velas e incensos ao longo dos séculos, até que foi pintada com tinta preta em 1803. Se assemelha à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.

Einsiedeln a Lucerna

75 km

Tomamos a rota 22, com um percurso que logo no início nos levou até um aclive bastante íngreme. No topo, uma pausa para as fotos e para desfrutar de uma vista panorâmica deslumbrante. Tudo parecia perfeito, para quem treinou no agreste e no sertão nordestino entre cactos, mandacarus, rasga beiços e xiquexique, aquilo tudo parecia um jardim. Nesta hora passamos a admirar mais este país ao mesmo tempo que valorizamos a brava gente sertaneja do nordeste brasileiro, sobretudo pela capacidade de vencer as adversidades.

Zurique a Einsiedeln - foto: Ruben Wanderley Filho

Depois de uma descida perigosa e longa no início para alcançamos a rota 9 em Bilarrstag, saímos da estradinha asfaltada para entrarmos por um desfiladeiro profundo na floresta com várias redes de cavernas com estalactites e pequenos lagos. Para a visitação é recomendável utilizar roupas quentes, pois é muito frio lá embaixo. Seguimos margeando um estreito rio pelo vale até alcançarmos Lucerna, uma das cidades mais lindas que conhecemos pedalando, com uma população de 60 mil habitantes e cortada pelo Rio Reuss que separa a cidade velha dos distritos modernos. Sua localização em estreita proximidade com as montanhas e vários monumentos culturais fizeram dela um dos primeiros centros de indústria do turismo nascente da Suíça.

Ao chegarmos, atravessamos pela Nadelwehr, que é uma estrutura de controle de inundação que foi construída em 1852 e regula a altura da água do lago Vierwaldstättersee que atravessa a cidade. Nos acomodamos no hotel e fomos a pé conhecer um dos símbolos de Lucerna que remonta ao século XIV, a “Ponte da Capela”, que é a ponte de madeira mais antiga da Europa e cartão postal da cidade.

Lucerna a Interlaken

60 km + comboio

União, companheirismo e respeito ao meio ambiente, tudo com muita diversão - foto: Ruben Wanderley Filho

 

eixamos Lucerna pela manhã bem cedo e seguimos para Interlaken em um pedal tranquilo, admirando os visuais incríveis do lugar e sua bela arquitetura. Quando pensamos na Suíça, sempre vem a ideia dos Alpes e sua montanhas majestosas ou, em outras palavras, muitas subidas! Não foi bem assim, nossa pedalada foi classificada como de nível três, ou seja, do tipo moderada, nada que uma pessoa com condicionamento em dia não possa fazê-la. Já para se alcançar as grandes altitudes existem trens de montanha que podem levar as bicicletas e uma vez lá em cima é só se jogar para baixo e curtir o visual incrível das paisagens. Foi o que fizemos neste percurso, inclusive indo conhecer o famoso Grandhotel Giessbach, ao pé da Giessbach Falls, cachoeira que é alcançada a partir do lago por um dos mais antigos funiculares na Europa.

Visuais incríveis e bela arquitetura entre Lucerna e Intelaken - foto: Ruben Wanderley Filho

Na planície entre o lago de Thun e o lago Brienzersee reside Interlaken, cujo nome latino “entre lacus”, ou “entre os lagos”, remonta a um antigo mosteiro. Chegamos já um pouco tarde por um percurso na floresta admirando as águas azuis-turquesa do lago.

Interlaken a Berna

40 km + boat trip

Neste dia dormimos até mais tarde e saímos por volta do meio-dia para pegarmos um barco através do lago Thunersee. Aproveitamos para curtir por duas horas as paisagens ao redor de Interlaken com destino a Thun, cidade localizada entre várias montanhas íngremes. Conhecemos o castelo Schandau no final do lago Thun, onde o rio Aare flui para fora do mesmo.

Berna, capital da Suíça - - foto: Ruben Wanderley Filho

Thun é a maior cidade de guarnição do exército suíço. Ao sairmos de lá, continuamos  pedalando pela rota 8, a rota Aare, indo para Berna onde no final da tarde alcançamos a capital da Suíça. Exploramos Berna de bike logo que chegamos. Há várias fontes renascentistas coloridas pela cidade, que é considerada um dos maiores exemplos de construção urbana medieval na Europa, foi o berço da teoria geral da relatividade de Albert Einstein. Goethe, em uma carta de 1779, escreveu que “ela (Berna) é o exemplo de cidade mais bonito que já vi”.

Berna a Biel

50 km

Em direção a Biel - foto: Ruben Wanderley Filho

Saímos no outro dia pela rota 8 seguindo o rio Aare em direção a Biel e fomos conhecer Aarberg, pequena cidade que é atravessada por uma bela ponte de madeira velha. Continuamos pedalando ao longo da margem oeste para Biel, com a vista constante dos picos montanhosos do sul ao sopé da Cordilheira do Jura, que é uma região vinícola famosa na Suíça. 

Neste ponto da pedalada, minha bicicleta apresentou problemas no passador da relação de marchas e resolvemos que quando chegássemos a Biel, procuraríamos uma bicicletaria para substituir o mesmo. Aproveitamos para consertar também o amortecedor dianteiro da bike de outro ciclista do grupo, que já vinha apresentando problemas desde o início da pedalada. Deixamos as mesmas na oficina e pegamos no outro dia, com todos os problemas resolvidos.

Biel é a maior cidade bilíngue na Suíça. Alemão e francês, ambos têm direitos iguais na esfera pública. Por ter esta característica, o lado francês recebeu um grande impulso com a imigração de relojoeiros da França no século XIX. Daquela data em diante, a relojoaria tornou-se um aspecto importante da vida industrial da cidade. Depois da uma desaceleração durante os anos 70, a indústria da cidade ganhou força novamente porque vários dos maiores fabricantes mundiais de relógio não abandonaram a sua produção em Biel. É lá que estão as fábricas das famosas marcas Omega e Rolex.

Biel a Solothurn

30 km

Pegamos nossas bicicletas logo cedo e seguimos o percurso que nos leva ao longo das margens sul do rio, novamente paralelo à cadeia de montanhas do Jura. Conhecemos também a pequena aldeia de “Altreu”, que é conhecida além das fronteiras da Suíça por seus assentamentos de cegonhas. Mais de 30 casais de cegonhas vivem em uma área protegida de 1.500 hectares.

No caminho para Solothurn - foto: Ruben Wanderley Filho

Quem pratica uma atividade como mountain bike sempre tem a oportunidade de contemplar todos os dias a natureza, e é normal o contato com os animais domesticados, selvagens, ou os pássaros em seus habitats, e é comum visualizar suas reações naturais a humanos. Passamos a entendê-los melhor, assim como entender nossas possíveis reações enquanto seres humanos onde sempre estamos aprendendo e evoluindo com este contato que a bicicleta nos oferece. Em Altreu fizemos questão de conhecer uma velha senhora que possuía um pequeno centro de preservação destas aves e outros animais daquele ecossistema. A partir daí seguimos em direção a Solothurn, que é conhecida por ser a mais bela cidade barroca da Suíça. Solothurn possui a maior coleção suíça de arte desde a Idade Média até hoje. Ao lado de obras de artistas suíços, como Jean Tinguely, também abriga obras de Vincent Van Gogh, Henri Matisse e Paul Cézanne.

Solothurn a Aarau

60 km

Partimos pela rota 8 ao longo do Rio Aare, e passamos pela ponte de madeira velha de Wargen. É interessante percebemos a qualidade da água na Suíça. Mesmo em cidades, os rios são aptos para banho e ao longo de todas as trilhas existem fontes em abundância, com água de extrema transparência. Praticamente fiz todos os percursos com apenas uma caramanhola, sempre abastecendo-a durante as trilhas.

Ponte de madeira em Wargen, no rio Aare - foto: Ruben Wanderley Filho

m todos os percursos na Suíça também existem mesas com frutas para lanches pelo caminho (maçãs, morango, pêssegos, etc) tudo na base da confiança. Existem pequenas caixinhas com preços, sem a presença do vendedor, o que demonstra o grau de educação e honestidade de seu povo.

Mais tarde, ao entrarmos em Aarau, conhecemos o edifício mais antigo da cidade, um castelo localizado na orla que hoje abriga um museu. A estrutura remonta o século XIII e foi construído a partir de pedras com formas brutas. No interior, mais de 100 mil itens com detalhes sobre a história da cidade.

Aarau a Zurique

60 km

Rumo a Zurique novamente - foto: Ruben Wanderley Filho

Tomamos o rumo de volta a Zurique pela rota 8, já sentindo saudades de tudo que vivenciamos neste dias, com um misto também de satisfação e admiração por este país fantástico. Seguimos o caminho ao longo da margem do rio Aare para a esquerda e logo avistamos o castelo dos Habsburgos no cume do Wulpelsberg. Este foi o principal castelo da dinastia Habsburg, poucos quilômetros depois estávamos em Brugg, onde o leito do rio se estreita por alguns metros. Esta é a única oportunidade entre o lago Thun e a foz do Reno, onde o rio Aare pode ser superado por um único tronco de árvore.

A partir de Brugg, entramos na rota 5 ao longo do rio Reuss para Baden, seguindo para Zurique. Neste percurso pudemos perceber como os suíços são meticulosos na preservação de seu ambiente natural. Dois exemplos disso são os sistemas de transporte público e a abordagem quanto a reciclagem de lixo, que praticamente não existe nas trilhas.

A Suíça foi o primeiro país a tornar obrigatório o uso de conversores catalíticos de carros, e seus regulamentos quanto à emissão de gases tóxicos estão entre os mais rigorosos do mundo. Há também, por outro lado, um incentivo à cultura da bicicleta desde a mais tenra idade. A população é incentivada a usá-la, todas as rotas são bastantes sinalizadas e a maioria das plantas e animais alpinos são protegidos por lei, algumas espécies, inclusive, reintroduzidas na natureza.

As florestas, que cobrem cerca de um terço do país, também são protegidas e é proibido desmatar áreas grandes em razão do risco de desmoronamentos e avalanches. O país é signatário da convenção Alpina de 1999 que protege os Alpes dos efeitos nocivos do turismo e do transporte motorizado.

Ao chegamos de volta a Zurique, fomos comemorar com saudades o fim da jornada. Cerveja, racletes e fondue marcaram nossa despedida. Ah, e é claro: compramos vários dos melhores chocolates do mundo!

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