REVISTA BICICLETA - Preparação física para nossa grande viagem
MPRO
Sapatilha Berm

O Portal
da Bicicleta

SHIMANO
Revista Bicicleta - Edição 87

Leia

Revista
Bicicleta



+bicicleta - Cicloturismo

Preparação física para nossa grande viagem

Revista Bicicleta por Antônio Olinto
38.468 visualizações
28/01/2014
Preparação física para nossa grande viagem
Estradas ruins na viagem de Bariloche à Terra do Fogo, passando pelos passos de fronteira
Foto: Rafaela Asprino / Arquivo pessoal

Quando pensamos em Índia, geralmente lembramo-nos de sua grande população hindu banhando-se no sagrado Ganges. Pouca gente associa a região de Ladakh à Índia.

Situada no extremo norte, encravada entre dois arqui-inimigos históricos, China e Paquistão, Ladakh faz parte do grande platô do Tibete, ou seja, uma vastidão árida e desértica, pouco habitada com maioria budista descendente de mongóis (cerca de 3 hab/km2, a menor densidade do país). São tantas semelhanças que é conhecida como Pequeno Tibete, entretanto, com a grande vantagem de estar situada na Índia, um país com liberdades democráticas. É nesta região que estão as estradas mais altas do mundo, chegando a cerca de 5.600 metros acima do nível do mar.

Chegar até lá de bicicleta não é uma tarefa a ser subestimada, principalmente em nosso caso. Algum leitor desavisado pode se impressionar com esses altos números e com minha volta ao mundo de bicicleta, mas faço questão de lembrar aqui da verdadeira razão pela qual voltei a pedalar em minha vida adulta e da minha verdadeira natureza.

Em 1992 já sentia o peso das responsabilidades profissionais de um jovem advogado e comprei uma bicicleta para perder a barriga que acumulara. Iniciei meus pedais perfazendo 10 km em uma hora de treino, ou seja, a velocidade de pedal em ciclovia.

Nunca fui um atleta daqueles cheios de adrenalina e alto metabolismo, ao contrário, sou do tipo letárgico, que tem que tomar uma grande caneca de café pela manhã para funcionar bem. Nem por isso acredito ser incapaz de realizar meus sonhos de viagem em bicicleta. Nosso treinamento para esta viagem pelo Himalaia está profundamente ligado com nosso estilo de vida, o que gostaria de comentar neste momento.

Conforme escrevi em artigos anteriores, procuramos incluir algum exercício físico em nosso dia a dia. Percebemos que a vida moderna tem se tornado muito cômoda e sedentária, de alguma forma temos que criar mecanismos para compensar este estado. Acho que se morasse em uma casa tentaria ir ao trabalho a pé ou de bicicleta, mas como moro e trabalho em um motor home, que posso fazer!?

No trabalho de pesquisa em campo pedalamos muito para buscar, de bicicleta, os melhores caminhos e descrevê-los em nossos guias. Quando estamos escrevendo, diagramando e editando os livros e DVDs temos que ficar parados e conectados à eletricidade. Neste momento buscamos estacionar o motor home cerca de 10 km do Correios mais próximo; assim, a cada venda, temos que levar o livro de bicicleta e também comprar todos os nossos suprimentos na cidade. Se o Correios é mais perto, vamos a pé para poder fazer mais exercício.

Percebemos que estas atividades nos mantém em forma, mas isso não é o bastante para enfrentar o Himalaia.

Bicicleta carregada, frio, altitude, alimentação irregular e tantas outras variantes trazem dificuldades extras. Sentimos que precisamos estar num outro estágio de preparo físico, algo parecido com aquilo que se diz “em plena forma”, ou seja , quando seu corpo muda o metabolismo e começa a funcionar em alto desempenho, o sistema imunológico aumenta e nos sentimos capazes de pedalar sem parar. Com cerca de três meses de treinamento sério é possível chegar nesse estágio.

Entretanto, nós não teríamos todo este tempo, os treinos começariam somente após a publicação do nosso novo guia (Caminho dos Diamantes), ou seja, sobrava um mês e meio de treino e preparação.

Acredito que o ingrediente mais importante é a paciência e a fé. Quando digo fé quero dizer também no sentido de “acreditar”, quando você acredita que pode, ou em nosso caso, com nossa experiência, chegamos a saber que é possível, só isso já ajuda muito.

Em nossa última aventura no Peru saímos do nível do mar e em quatro dias chegamos a 4.170 m de altitude. Não são 5.600 m, mas iniciamos no nível do mar... O treinamento para viajar pelo Peru foi simplesmente atualizar nosso guia da Mantiqueira. Não temos grandes montanhas no Brasil, mas a Mantiqueira nos provê de várias subidas íngremes que simulam o desgaste que enfrentaríamos no Peru.

Quem pretende fazer uma viagem com esse tipo de dificuldade e não tem experiência terá que se preparar muito melhor do que a gente fez, para essas pessoas é sempre bom lembrar que não podemos subestimar grandes montanhas, acredito que devemos ser humildes e lembrar que o segredo do sucesso das grandes escaladas é a lentidão, nem sempre você irá vencer a montanha em um único dia como fazemos nas serras brasileiras. Quanto mais experiência tiver com grandes subidas melhor, não deixe de enfrentar subidas, pois cada uma delas te prepara para outra maior. 

Além de pesquisar, escrever, diagramar, editar, somos nós que fazemos toda a distribuição dos livros, guias e DVDs, não temos patrocínio, nosso ganho vem da venda destes produtos pela internet, sendo assim, não podemos simplesmente parar para treinar, temos que continuar atendendo e enviando os pedidos que recebemos.

Como somos nossos próprios patrões, temos flexibilidade e podemos tirar algum tempo por dia para treinar.

Ao contrário de muitos, treinamos por tempo e não por quilometragem. Penso que as horas pedaladas são como um limite de combustível. Tenho mais ou menos quatro horas de desempenho por dia, se estiver em uma região difícil isso pode significar somente 40 km rodados, se for mais fácil pode ser 80 ou 100 km. Dessa forma nunca me decepciono com minha performance. Conforme percebo minha média calculo minhas possibilidades de conclusão do circuito diário e/ou até a próxima parada para conseguir suprimentos.

Tanto no Peru como na Patagônia, nossas viagens sempre percorrem caminhos precários, é importante ter experiência e costume com isso. No geral as pernas aguentam muito mais do que outras partes do corpo que nunca nos lembramos de treinar e que reclamam em uma grande viagem.

Quem treina ficar várias horas por dia com as mãos no guidão? Só na viagem você fica tanto tempo nesta mesma posição. A postura da nuca também sente, mas é claro que a parte que mais sofre é a sentante, e pior, é a que mais demora a se recuperar e fortalecer. Não há como treinar sem passar horas no banco da bicicleta.

Em nosso caso, podemos contrariar vários princípios, pois nos mantemos em forma, o que mais precisávamos era realmente conseguir fortalecer estas partes o mais rápido possível. Como já temos experiência em rípio e terra, apostamos tudo em pedalar quatro horas por dia nas melhores estradas que pudéssemos escolher a fim de fortalecer ao máximo sem machucar. 
Sempre que pedalamos em terra ou lama nosso trabalho diário aumenta muito, pois nossa vida em motor home nos impõe limitações ao consumo de água e coisas assim. Como já passamos por muitas experiências de chuva e neve, aproveitamos o clima ruim para caminhar, afinal, grandes subidas com bicicleta carregada significa que terá que estar preparado para empurrar (nesta hora um bom calçado de caminhada é melhor que a sapatilha).

Com apenas um mês e meio de treinamento fizemos cerca 1.600 km em nossas novas bicicletas e estamos nos sentindo bem. Nosso grau de treinamento, aliado ao conhecimento de nossas capacidades, permite-nos começar, mas a verdadeira forma física ainda está por acontecer durante a viagem, por isso nosso planejamento é com folga em nossos objetivos, justamente para podermos nos recuperar e nos fortalecer em meio à viagem.

Apesar da região ser exótica, pouco acessível e com grandes altitudes, não gosto de nomenclaturas exaltadas como “rumo à estrada mais alta do mundo” ou “Expedição Himalaia”. Prefiro pensar que vou passear por Ladakh porque gosto da beleza de suas paisagens e simplicidade de seu povo. 

Enquanto fazia a volta ao mundo de bicicleta havia uma pergunta muito comum: “Você faz isto para entrar no livro dos recordes?”

“O primeiro”, “o maior”, “o melhor” talvez não sejam lugares muito agradáveis de ficar, é muito apertado, só cabe um... O sábio chinês Lao Tse dizia que o homem que se eleva na ponta de seus pés não pode suportar esta posição por muito tempo. Vamos para Ladakh por que queremos e pronto. Esta liberdade de sonhar, querer e realizar é o que nos dá prazer.

Comentários Facebook
Comentários
2 comentários.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Antonio Olinto e Rafaela Asprino

19/02/2014 às 18:45

Caro Max Perdigão, ficamos felizes ao ler seu comentário! E suas fotos no blog, muito bonitas, parabéns! No que pudermos ajudar em seu "retorno à bicicleta", conta com a gente! Um forte abraço nosso!

Maxiliano Perdigao dos Santos

28/01/2014 às 10:55

É a primeira vez que acesso o site e já virei fã de vocês com esse parágrafo:
"[...] não gosto de nomenclaturas exaltadas como “rumo à estrada mais alta do mundo” ou “Expedição Himalaia”. Prefiro pensar que vou passear por Ladakh porque gosto da beleza de suas paisagens e simplicidade de seu povo."

Eu e minha esposa também gostamos de viajar, temos essa filosofia do tempo+apreciação e não a da distância. Mas nosso foco são as travessias a pé ou viagem de carro mesmo. Depois de 20 anos sem pedalar estou retomando aos poucos e pretendo em breve iniciar nas viagens. Grande abraço e sucesso para vocês!

PS. estamos começando um blog. Se não for permitido colocar o link, favor deletar: apeousobrerodas.blogspot.com.br
Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha
Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados