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Quando um policial parou a Paris-Roubaix

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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01/07/2015
Quando um policial parou a Paris-Roubaix
Foto: Radu Razvan / Depositphotos

George Leon Passerieu nasceu em Londres, em 1885, mas nunca foi considerado britânico. A ascendência francesa o tornou admirador de escargot e vinho fino; torcia o nariz para peixe e fritas. Venceu sete etapas do Tour de France e foi também campeão da Paris-Tours e da Paris-Roubaix. Não foi, contudo, a fleuma britânica que mais o incomodou na carreira, mas sim a educada frieza de um policial francês, naquela que foi uma das vitórias mais estressantes de sua carreira, a Paris-Roubaix de 1907.

George Leon Passerieu. © Divulgação Paris-Roubaix

A Paris-Roubaix, apesar do nome, hoje não começa mais em Paris, mas sim em Compiègne, uma cidade a 85 km ao norte da capital francesa. Diferentemente da maioria das corridas, a chegada não é disputada em montanha ou num simples sprint. Os ciclistas entram num velódromo e dão mais três voltas para só então receberem a estrondosa salva de palmas dos afortunados admiradores que conseguem pagar pelos ingressos. A primeira edição data de 1896 e desde então sangue, suor, lágrimas e até mesmo mortes, além de mistérios e lendas de todos os tipos, são um prato cheio para os admiradores e para a imprensa especializada.

A edição de 1907 da Paris-Roubaix foi brutal, como sempre. Nada menos que 270 km de estradas desgastadas pelas chuvas e pela neve do inverno. Quando falo em estradas, não imagine aquele belo asfalto pintado. Ou era terra batida ou, como até hoje aliás, centenas de quilômetros dos famosos pavés, os paralelepípedos centenários que vidram os olhos dos fãs todos os anos nesta insólita região da França e enlouquecem mecânicos e ciclistas. Os paralelepípedos apimentaram a corrida de tal modo que os apelidos da Paris-Roubaix dão uma ideia do que ela realmente é: Inferno do Norte, Rainha das Clássicas e Domingo no Inferno.

© Divulgação Paris-Roubaix

Como o percurso é praticamente plano, as dificuldades acabam sendo outras. Manter-se vivo é a primeira delas. Uma queda a 50 km/h no calçamento duro pode ser fatal. Não furar os pneus é geralmente a segunda preocupação. E daí seguem: não entrar em hipotermia, manter o quadro e o garfo inteiros... E, claro, não desistir jamais, apesar das adversidades. Tudo faz parte do jogo.

O ano de 1907 foi particularmente interessante para o ciclismo mundial. Pela primeira vez se viu um trabalho de equipe propriamente dito. Norbert Peugeot havia criado no ano anterior o training camp, uma reunião pré-temporada, geralmente numa região mais quente da Europa, em que os ciclistas profissionais se concentravam, esqueciam as rusgas do ano anterior e treinavam muito para chegarem no pico da forma às Clássicas da Primavera (que no hemisfério norte começa na última semana de março). Hoje, além dos training camps, os ciclistas participam de provas no hemisfério sul, como o Tour Down Under, na Austrália, e o Tour de San Luís, na Argentina. Os países árabes também passaram a investir no esporte, que é um verdadeiro chamariz para o turismo, e patrocinam hoje várias provas do circuito mundial.

A orientação de Norbert foi apostarem na grande estrela em ascensão do momento, nosso personagem desta edição, George Passerieu, que então contava com apenas 22 anos de idade. George demonstrou-se forte nas montanhas nas etapas que venceu no Tour de France, mas deixava a desejar no sprint. Numa época em que eram comuns corridas em que os ciclistas recebiam vácuo de motociclistas, as famosas derny, George havia se especializado nesta modalidade, que exigia muito giro e resistência, mas pouca força.

A equipe Peugeot então trabalhou para proteger George Passerieu durante os longos 270 km de prova, sabendo que se algum velocista estivesse por perto ao chegar ao Velódromo de Roubaix a corrida estaria perdida. Vento contra, sorrateiros empurrões, fechadas nada indiscretas, tudo isso foi neutralizado pela Peugeot por mais de duzentos quilômetros, quando então a ordem foi dada: Passerieu, ataque!

E foi o que George fez. O oponente de maior risco era Cyrille Van Hauwaert, um belga bigodudo de pernas e braços grossos talhado para o sprint. Até ali, ambos vinham se ombreando pelos paralelepípedos, ora apertando o passo, ora blefando, ora simplesmente trocando uma conversa falsamente camarada. George, protegido durante as mais de seis horas de corrida até aquele momento, acatou a ordem e largou a equipe, colocando a cara ao vento na região de Douai. Cyrille até tentou acompanhá-lo, mas sabia que sua força bruta seria mais bem-vinda no velódromo e apostou no fracasso da fuga de George. Quando Cyrille percebeu que George daria conta do recado, passou a persegui-lo, pelos longos 50 km que ainda faltavam no percurso, mas não foi suficiente.

George chegou nas cercanias do Velódromo de Roubaix onde a população aguardava apreensiva. A Clássica do Norte teria um vencedor francês. Jornalistas narravam aos gritos a aproximação de George nas rádios. Não havia batedores, mas a população abria alas para a resistente bicicleta, de uma marcha só, se aproximar velozmente. 

© Divulgação Paris-Roubaix

Ninguém via Cyrille Hauwaert, que deveria ter ficado para trás. George olhava a cada cinco pedaladas por cima do ombro para se assegurar de que a vitória seria realmente sua. Nada poderia detê-lo ali. Seguiu as marcações na pista e saiu da via principal em direção ao velódromo. A rádio local anunciou sua chegada a Roubaix. Os alto-falantes do velódromo ecoaram o nome do atleta. Os olhos estavam voltados para o portão principal, mas se passaram longos e demorados segundos e minutos e nada de George entrar. A apreensão e o silêncio estacaram até os ponteiros dos relógios.

O que havia acontecido? Um gendarme havia parado George Passerieu, o líder da Paris-Roubaix de 1907 com um silvo longo de seu apito, metros antes da entrada no velódromo. O policial ordenou que George desembarcasse da bicicleta e inspecionou pachorrentamente o veículo à procura da plaqueta que identificava a bicicleta e comprovava o pagamento do imposto sobre a propriedade, para só então permitir passagem, em estrito cumprimento da lei francesa. 

Plaqueta que identificava a bicicleta e comprovava o pagamento do imposto sobre a propriedade. © Divulgação Paris-Roubaix

O coração de George já devia vir na casa de 160 batimentos por minuto. Provavelmente dobrou de velocidade. A pressão foi nas alturas e as pernas tremeram. O suor escorria pelo rosto e inundava a camisa de algodão. Mas educadamente, George mostrou a plaqueta ao gendarme, com os olhos grudados no horizonte à espera de Cyrille, que se aproximava num ritmo frenético. Um merci cortês por parte do gendarme, um de rien por parte de George e o ciclista tomou novamente a bicicleta em mãos, montou e acelerou para dentro do Velódromo de Roubaix, onde a atônita torcida vibrou ao vê-lo cruzar a linha de chegada com 8 horas e 45 minutos de prova.

Exatamente um minuto depois, Cyrille Van Hauwaert chegou em segundo lugar. Dos 56 atletas que largaram, apenas 22 completaram a prova. O último colocado, Paul Pietrois, chegou quase nove horas depois de George Passerieu, num esforço contínuo por quase dezessete horas.

Os paralelepípedos apimentaram a corrida de tal modo que os apelidos da Paris-Roubaix dão uma ideia do que ela realmente é: Inferno do Norte, Rainha das Clássicas e Domingo no Inferno. © Radu Razvan / Depositphotos

George Passerieu ainda se destacou no ano seguinte no Tour de France de 1908, sendo o único ciclista a subir as montanhas Ballon d´Alsace e Chartreuse sem desmontar da bicicleta em momento algum. Mas nada nunca mais se assemelhou ao feito de 1907. Jamais algum outro policial parou um ciclista em plena competição. E jamais alguém conseguiu manter tanta calma quando estava prestes a vencer uma das corridas mais importantes do mundo. 

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