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Quim Cambalhotas - O campeão que não sabia andar de bicicleta

“Desde 1968, Portugal nunca mais fabricou um atleta igual”. A frase, do Jornal O Desporto, numa edição do ano passado, me arrepiou o topo da cabeça e aguçou a curiosidade. Quem seria o ciclista que havia apaixonado os mestres da navegação ultramarima e que, em mais de 40 anos, ainda não tinha sido superado?

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
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02/08/2015
Quim Cambalhotas - O campeão que não sabia andar de bicicleta
Foto: Capa da Revista Flama

Filho de lavradores e recém saído do exército, onde havia cumprido missões em Moçambique, o português Joaquim Agostinho, natural da aldeia de Brejenjas, Município de Torres Vedras, tinha 25 anos em 1968 quando foi convidado para participar da Equipe de Ciclismo de Portugal.

Tudo foi muito por acaso. Antes do convite, com as economias do soldo, comprou uma pasteleira, a sua primeira bicicleta. Treinava por pura diversão num percurso de 35 km entre sua casa e a fazenda em que trabalhava. Lá era apenas mais um homem do campo. Amava a agricultura, seus animais, vacas, cavalos, cães. O cheiro da terra revolvida pelo arado abria seus pulmões, era pura vida em suas entranhas.

Para a glória do ciclismo lusitano, era ali também que, naquela época, a 40 km de Lisboa, a elite do esporte praticava as suas táticas. Joaquim, sem perceber muito a importância do gesto, certa vez resolveu perseguir o pelotão em treinamento. A força bruta e mal polida que empregava aos pedais assombrou até mesmo os profissionais. Havia algo a mais por trás daquela usina de energia. Mas ninguém sabia muito bem o quê.
Joaquim, que logo passou a ser carinhosamente apelidado de Quim, comprou de segunda mão uma bicicleta de estrada e passou a seguir com frequência o pelotão. Brincava com eles, divertia-se com as piadas do grupo, aproveitava dicas e aprendia estratégia, até que pediu emprestado uma verdadeira bicicleta de competição a João Roque, vencedor da Volta a Portugal de 1963. E sua vida nunca mais foi a mesma.

Quim era dono de uma força absurda, uma potência impressionante nas subidas e nos sprints, e embora exibisse a resistência de um Eddy Merckx, a simplicidade do homem do campo fazia todos se apaixonarem mesmo era por sua simpática e cativante fala pausada e seu sorriso sincero, que transformavam o rosto forte, de amplos maxilares, num convite à conversa.

E foi então, já velho para um atleta de elite, aos 25 anos, que acidentalmente Joaquim deixou o anonimato. A convite do mesmo João Roque, que o acompanhou nos treinamentos com a bicicleta emprestada, Quim participou de sua primeira prova amadora, o Circuito do Barro, no natal de 1967. Não se intimidou pelos adversários. Abriu vantagem e viu que podia mais. Deixou todo o pelotão para trás e ganhou logo de estreia com uma vantagem impressionante. João Roque já apostava nisso, mas o choque foi tão grande que o segundo convite já não foi para uma prova amadora. Ingressou ali mesmo no Sporting, uma das maiores equipes de ciclismo do país e que hoje se destaca pelo futebol.

Manuel Graça, treinador do Sporting que acompanhava o Circuito do Barro, não se conteve quando viu Joaquim pedalar pela primeira vez e disse: “Este homem não sai daqui sem assinar os papéis!”.

Contratado e já atleta profissional, Quim ganhou outro apelido. Se de um lado, exalava força e resistência, principalmente nas subidas mais duras, por outro lado era desajeitado em cima dos pedais. Caía com frequência, escorregava a sapatilha, enrolava a corrente numa troca de marchas mal feita e parava no chão; perdia a tangência nas curvas. Joaquim Agostinho não se importou e o apelido pegou: de tanto cair, virou o Quim Cambalhotas.

O próprio treinador Manuel Graça reconheceu, anos depois, que provavelmente o fato de ter começado tarde havia retardado também seus reflexos. “Não era como os jovens, que começam caindo de pequenos e logo aprendem”, disse Manuel Graça. Quim Cambalhotas não aprendeu a cair quando criança. E de adulto faltavam os reflexos para evitar as quedas. Freava com muita potência no freio dianteiro e o inevitável costumava acontecer: um amplo mortal para a frente no meio do pelotão, um estrondo seco no chão, o susto dos fãs, segundos de respiração suspensa e logo Quim Cambalhotas voltava para sua bicicleta. Limpava a poeira e vergava o pedivela com tanta energia que, nem bem o coração dos torcedores estacava nas palpitações e ele já havia se agrupado novamente.

Em menos de um ano, Quim Cambalhotas já era herói nacional. Todos os portugueses sentiam o gosto da vitória quando Agostinho erguia o punho em primeiro lugar sobre a linha de chegada. As quedas já não geravam mais apreensão. Eram apenas uma característica peculiar, e as piadas que o colocavam cada vez mais em evidência pareciam agradar ao querido Quim Cambalhotas. Se qualquer outro ciclista errava o ponto da curva e saía direto pela ribanceira, o locutor não perdia a oportunidade e narrava uma “Curva a Agostinho”, para deleite dos torcedores. Quim Cambalhotas era o carismático ídolo que inconscientemente todos nós precisamos: um misto de Ayrton Senna, Gustavo Kuerten, Ronaldo Fenômeno.

Sua capacidade foi posta à prova em 1968, um ano depois da sua primeira competição amadora. Liderou por várias etapas a Volta da Espanha e concluiu a clássica em segundo lugar, a apenas onze segundos do campeão.

Também em 1968 foi segundo colocado na Volta de Portugal, e nos três anos seguintes foi campeão da prova, mas o que o consagrou mesmo foram as quatro etapas vencidas no Tour de France, uma delas na mítica Alpe d´Huez, a monstruosa subida de 13,8 km, com 21 curvas caprichosamente inclinadas.

Os jornais descreveram sua soberana vitória: “Chegou na meta solitário como um rei”. Ele próprio reconheceu: “Não havia ninguém no mundo que me conseguisse apanhar naquele dia”. A vitória incontestável rendeu-lhe duas homenagens que valem por mil prêmios: sua estátua repousa hoje na 14ª curva da montanha, entalhada em bronze, com 1,70 m de altura; a 17ª curva do Alpe D´Huez foi batizada pelos organizadores como Curva Joaquim Agostinho. Até hoje nenhum outro ciclista português venceu esta etapa.

Cair já fazia parte de sua rotina. Mas o primeiro grande susto de verdade por muito pouco não deixou sequelas. Em 5 de maio de 1972, Quim Cambalhotas já estava no rol dos maiores atletas portugueses de todos os tempos quando, na estreia da Vuelta a España, e justamente quando lutava pela vitória na prova, caiu fazendo um barulho feio demais, até para os que o conheciam.

Ao aterrissar de cabeça no asfalto, Quim fraturou o crânio, na altura do osso parietal esquerdo (a parede lateral da cabeça), e perdeu a consciência. A pronta assistência dos médicos espanhóis salvou-lhe a vida. Mas o episódio não passou de uns ralados nos sempre escalavrados joelhos do ciclista. Aliás, ao contrário, apenas fortaleceu o mito que pairava sobre o português. Quim Cambalhotas parecia indestrutível. Parecia...

Joaquim participou ainda por treze vezes no Tour de France, com a honrosa terceira posição geral em 1978 e 1979. Foi quinto lugar em 1972 na dura Volta à Suíça. Em 1981, foi terceiro na Dauphiné Libere e quinto no Tour da Romandia, além de campeão no Prix du Castillon-la-Bataille, segundo no Bol d’Or des Monédières e quarto na Escalada Grabs-Voralp.

Depois passou a amargar maus resultados. Foi décimo primeiro no Tour de France, décimo quarto no Tour da Romandia, e então vigésimo quarto na Volta à Suíça. Já estava evidente que não conseguiria manter o ritmo que desejava e então Quim se afastou das competições em 1982.

Mas dificuldades financeiras e o insuperável gosto pelo vento no rosto no meio do pelotão foram mais fortes. O Cambalhotas assinou novamente a súmula de ingresso na elite do esporte mundial, em 1984, depois de intensa preparação, sob a expectativa de fãs e imprensa. E nunca mais voltou para casa.

Era 30 de abril de 1984. O dia havia começado chuvoso. Joaquim liderava a Volta ao Algarve, na quinta etapa. A trezentos metros da linha de chegada, dois cachorros se soltaram de seus donos e passaram a correr junto do pelotão, até que um deles atravessou a frente de Quim Cambalhotas. A dura queda, numa época em que não se utilizava ainda capacete, não aparentava grande preocupação para o desajeitado Joaquim Agostinho. 

Levantou-se, tentou encaixar os pés nos pedais e se posicionar na bicicleta, mas não conseguia sem ajuda. A direção da prova perguntou se precisava de apoio e Quim Cambalhotas negou. “Estou bem, vou terminar”. Com o apoio de dois colegas, montou na bicicleta e terminou a etapa. Ofereceram transporte até o hospital mais próximo, mas Quim preferiu seguir adiante e descansar no hotel.
Quando entrou no banho, dores de cabeça lancinantes fizeram-no desmaiar, e só então admitiu ser levado ao hospital de Loulé, onde se confirmou o diagnóstico: fratura craniana severa. Dali para frente, seu estado de saúde só se agravou. Foi transportado de ambulância para Lisboa, a 300 km dali, já que o hospital não tinha equipamentos adequados para a cirurgia de emergência. O helicóptero foi descartado, porque os procedimentos burocráticos demorariam demais. Entrou em coma no meio do caminho e assim permaneceu por mais dez dias, mesmo depois de dez intervenções cirúrgicas.

Aquela havia sido a sua última cambalhota. Joaquim Agostinho deixou o país órfão. Deixou filhos, fãs e o ciclismo mundial órfãos. Em 10 de maio de 1984, pouco antes das 11 h, foi declarado morto e enterrado em sua terra natal. Mais de trinta anos depois de sua morte, ainda se duvida que possa surgir ciclista igual. E não surgirá mesmo. Deus foi caprichoso demais quando fez Joaquim Agostinho.  

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