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Quirguistão e Cazaquistão

Depois de meses no Nepal e na Índia, uma nova Ásia Central se apresenta no Quirguistão e Cazaquistão.

Revista Bicicleta por Nicholas Allain Saraiva
4.050 visualizações
21/12/2015
Quirguistão e Cazaquistão
Foto: Nicholas Allain Saraiva

Grandiosa Ásia Central e mais uma grande recepção que já deixou profundas e positivas marcas. Cheguei em Bishkek, capital do Quirguistão, e fui recebido no aeroporto por meus amigos Tola e Chyngiz, que havia conhecido em Hanói (Vietnã) meses atrás. Fomos jantar e no restaurante chegaram outros que eles me apresentaram, inclusive um ciclista, Dmitry, com quem fui fazer uma trilha irada nas montanhas da cidade dias depois. Fiquei seis dias em Bishkek, tempo para rodar o visto do Cazaquistão, sair à noite algumas vezes, escrever e planejar o roteiro.

Minha primeira impressão da cidade e dos quirguistaneses foi excelente. Bishkek é limpa, arborizada, cheia de praças, bela paisagem no entorno, bom trânsito, pessoas bonitas e educadas. Foi uma grande mudança para quem vinha de meses no Nepal e na Índia, dois países muito sujos e poluídos.

Como de costume fui visitar o mercado municipal, Osh Bazar, onde comprei mantimentos para o pedal e tirei fotos. Deu gosto passear por lá, pois diferente dos mercados nas outras partes da Ásia até então, este era bem limpo, organizado e cheio de comidinhas gostosas e apetitosas. Chamou a atenção ter encontrado uma grande variedade de espécies de arroz, o que esperava ter visto no leste da Ásia, Vietnã e sul da China, mas lá havia apenas alguns poucos tipos de arroz branco ordinário. Apesar de estar muito longe do centro de origem, aqui pude ver arroz de várias cores, formatos, tamanhos de grãos e texturas. O mesmo ocorreu com o trigo, com farinhas de vários tipos, desde as branquinhas até umas mais marrons, integrais. Esta mesma variedade de tipos de arroz e trigos tenho visto também no Cazaquistão. Comentei a uma vendedora de quem comprei uma conserva que eu estava gostando da comida do país e ela me respondeu que é porque “aqui a comida é natural, não tem transgênico”. Duas pessoas me deram esta mesma resposta.

No Quirguistão existem duas bebidas populares que são vendidas nas ruas nas maiores cidades, que são o chalap e maxin, bebidas salgadas e meio azedas, feitas de leite fermentado e aveia, trigo e cevada fermentados, respectivamente. Ao primeiro gole são estranhas, mas passado este primeiro contato, são muito boas, principalmente o chalap, que parece um iogurte salgado. O povo aqui diz que são saudáveis também. No Cazaquistão o maxin também é comum, mas passa por uma filtragem que deixa a bebida cristalina, e no Quirguistão é rústica, com os fragmentos misturados.

O Quirguistão foi fantástico para pedalar. A paisagem do país é linda, repleta de montanhas nevadas, vales verdejantes, rios cristalinos e cheio de lugares bons para acampar com água por perto. O país é pouco povoado e pelo que percebi tomam cuidado com questões básicas de higiene e saneamento, por isto os rios são despoluídos e eu tomei água de todos sem nenhum problema e sem uso de esterilizante. Deu gosto viajar assim!

Foi bom voltar à rotina de pedalar até o final do dia, acampar, preparar comida, fazer alongamentos e escrever. Há muito tempo estava sentindo falta disso, era o que eu mais procurava quando pensava nesta viagem, e não pousadas e restaurantes, como estava sendo nas outras partes da Ásia.

No Quirguistão comecei a usar um selim novo, Brooks modelo B17, que comprei na internet, pois tinha visto muitos cicloturistas usando e li bons relatos a respeito dele, mas não gostei e no terceiro dia voltei ao meu Specialized Body Geometry e estou muito feliz com ele!

Nos primeiros dias no Quirguistão aprendi uma dura lição que está afetando todo o pedal até aqui no Cazaquistão e continuará pelo menos pelo próximo mês: nesta latitude em que estou, por volta de 43° N, sopra um vento oeste (contra) constante e que à tarde se intensifica tornando o pedal muito desgastante, quase impossível. Chama-se Corrente Ocidental, que inicia mais ou menos no paralelo 40° N (tem no sul também) e para escapar dele devo baixar a latitude para baixo dos 40° e entrar na Zona de Convergência Intertropical, onde sopra o vento leste (a favor).

O Quirguistão é bem rural e não tem muitas indústrias, por isto quase tudo industrializado vem de fora, da Rússia, Ucrânia, Alemanha etc. Fui informado de que a economia do país gira em torno do comércio, pois com a localização geográfica estratégica, o país é a ponte entre a Ásia Oriental e a Ásia Central e Europa e os produtos industrializados vindos do leste devem atravessar o país, que ganha com as taxas cobradas. Com isto, nada se tem industrializado/produzido aqui e um dos exemplos mais notórios são os carros, de todas as marcas e modelos possíveis, importados usados de todas as partes do mundo e vendidos a preços muito baratos, se comparados ao Brasil.

A agricultura é praticada de forma extensiva, com fazendas de pequeno e médio porte, sempre com apoio de tratores para arar e gradar a terra, que por sua vez deve ser dura de trabalhar, pois tem muita pedra e o solo é raso. Planta-se muita batata, alguns grãos, beterraba, cenoura, repolho, cebola, alho, rabanete e algum cheiro verde. As frutas são poucas e feias. Todas a bananas vêm com selo de uma marca chamada Chiquitita, do Equador (no Cazaquistão também). Além da agricultura, a criação de animais é forte, sobretudo nas montanhas e estepes mais elevadas, onde criam de forma extensiva, tradicional e sem fronteiras gado, cavalos, ovelhas e cabras.

O padrão de vida no interior parece ser bom. Além da presença de tratores, que é um bom indicador, as casas são equipadas com todo o tipo de eletrodomésticos e têm um bom conforto.
No quesito comida já houve uma grande mudança em relação ao resto da Ásia. Destaco a presença de carnes, leite e derivados e pães, antes artigos mais raros e caros. É bem comum tanto no Quirguistão como no Cazaquistão encontrar pão integral de boa qualidade em qualquer vendinha.

 
Passei por um sufoco na travessia de umas montanhas, pelo qual eu não esperava e que me rendeu uma lição. Depois de uns dias acampado na base de uma montanha esperando o tempo melhorar para atravessar um passo nevado (Otmok Pass), resolvi ir de qualquer maneira pois não era muito elevado (apenas 3.336 m), mas não imaginei que pegaria uma tremenda nevasca e temperaturas de -15°C durante horas a fio. A partir do meio da subida o frio foi se tornando insuportável, meus dedos mesmo com uma luva Black Diamond prevista para -6°C de conforto, pareciam que iam congelar e perdi completamente a coordenação e o tato. Isto sem contar os pés, sem comentários! Foram umas cinco horas nesta zona e fiquei na paranoia de congelamento de membros, pois não sei qual a temperatura que isto ocorre e quanto tempo de exposição é necessário. Felizmente nada aconteceu, mas foi um sufoco e foi a pior experiência que já tive na vida com minhas aventuras, subestimei a montanha e tomei uma dura lição. 

Montanha abaixo, já do outro lado, fui literalmente resgatado por uma família que me viu num estado lamentável e me chamou para passar a noite com eles. No dia seguinte, recuperado e bem alimentado, segui viagem até Talas e mais um dia cheguei ao Cazaquistão, onde deixei para trás as montanhas, o clima temperado e a água em abundância. Daqui para frente serão planícies, calor de rachar e pouca água. Na próxima edição, volto para contar! 

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