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Raridade: Caloi 66

Revista Bicicleta por Valter F. Bustos
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27/11/2016
Raridade: Caloi 66
Foto: Valter F. Bustos

Em 1990, quando ainda residia no bairro de Vila Pompeia, Zona Oeste da capital paulista, tinha por hábito - ao menos uma vez por semana - pegar minha Göricke cargueira ano 1956 e sair pelos bairros da cidade numa ação de “garimpagem” pelas bicicletarias que ia encontrando pelo caminho. Algumas delas eu tinha um referencial de como chegar, mas a maioria foram encontradas ao acaso. Imagino que isso nos dias atuais não seja mais possível devido a inúmeras razões: muitas desapareceram, a falta de segurança, e, “poucas antigas para muitos caçadores”.

Detalhe: a nossa boa e velha Göricke está emprestada para a Biblioteca Rolf Colin, em Joinville, que foi toda redecorada com motivos de bicicletas depois de uma grande reforma na atual gestão municipal. Foi um belo presente para a cidade, uma vez que aumentou muito o número de leitores e frequentadores da unidade.

Eu pedalava pela Freguesia do Ó, bairro bem conhecido e com uma topografia bem variada, notadamente, os aclives. Não me recordo mais o nome da rua, pois minha atenção estava voltada para os pontos de comércio. De minhas posições em deslocamento, sempre via a Igreja da Freguesia que tomei como ponto de referência. Lembro-me de que sai de uma rua bem movimentada tendo a igreja nas minhas costas, e convergi para a esquerda buscando uma via secundária. Devo ter pedalado cerca de quinze minutos por ela, quando notei a cena “clássica” e sempre cativante das antigas bicicletarias. A porta de zinco levantada e algumas bicicletas encostadas numa das colunas... E lá estava ela; a Caloi 66.

Nessas horas o coração dá aquela acelerada quando pinta uma expectativa. Os amigos que já passaram por isso, sabem o que estou dizendo. Na cabeça ia montando uma estratégia de chegada para disfarçar o meu interesse. Como o pneu dianteiro estava meio baixo, aproveitei a “deixa” e encostei a magrela. Entrei e falei com o proprietário, identificado como Sr. Antônio. Ele estava montando uma roda e todos sabemos que é um serviço de paciência e muita atenção. Afinal, é a sincronia e a tensão raio por raio na busca do equilíbrio. Procurei não ser chato e pedi sua autorização para encher o pneu da bicicleta. Enquanto fazia isso examinava a Caloi 66 que estava sem o selim, a corrente caída, os pneus vazios, além do guidão meio torto. No mais, estava em muito boas condições, apesar das marcas do tempo.

Agradeci e perguntei ao Sr. Antonio se algumas das bicicletas estariam à venda. Ele me respondeu que todas estavam, mas que precisavam de alguns reparos que ele iria fazer assim que tivesse tempo. Eu respondi que para mim não tinha importância a situação da bicicleta, pois eu poderia arrumar. Ademais, não tinha carro e morava meio longe. Eu poderia levar a bike empurrando ou amarrada na minha bicicleta, coisa que fiz muitas e muitas vezes. Convencido de meus argumentos, acertamos o preço. É engraçado, pois a situação que o Brasil vivia naquela época, é muito semelhante com a atual: crise econômica, corrupção na estratosfera, instabilidade política e dólar nas alturas, batendo nos quatro reais. Ele me pediu, na ocasião, cinquenta dólares, mais ou menos duzentos reais hoje. Eu nem pechinchei. Na mochila que sempre me acompanhava, além de água e frutas, sempre levava as ferramentas básicas para resolver qualquer emergência com as minhas bicicletas. Retirei as duas rodas, afrouxei o expander para torcer o guidão em paralelo ao quadro; e amarrei a “66” no bagageiro dianteiro e as rodas no bagageiro traseiro. Dia ganho, voltei para casa sem me preocupar com subidas ou descidas. Eu queria chegar logo para mexer na “criança”. Pé de ferro pronto, prendi a bicicleta nele e iniciei a desmontagem.

Esse pé de ferro também tem uma história. Eu comprei no “Ciclo Dallarina”, que ficava na Vila Anastácio, pouco antes de seu fechamento. Ele está exposto no MuBi, sustentando uma Rivera ano 1956, impecável. Quanto à Caloi, não tive dificuldades para remover os paralamas, cobre corrente, canote de selim e o movimento central. A pauleira mesmo foi a retirada das chavetas que acabaram danificadas e substituídas. Sobre a pintura, a poeira e gordura acumulada durante anos de uso foram retirados com cuidado e jeito para não danificar sua originalidade. Fiz a substituição de todas as esferas da caixa de direção e movimento central e remontagem. Depois de puxar alguns raio e soltar outros, os aros estavam centrados e girando macios. Essa bicicleta tem um excelente acabamento de estrutura e acessórios que incluem farol e dínamo Caloi, além do câmbio de três velocidades cujo modelo não consegui identificar, exceto pela alavanca de acionamento Shimano.

A semelhança com as “Peugeots Ballonete” dos anos 50 não é assustadora como geralmente se diz, por que a bicicleta é linda. Copiaram direito, logo, o produto final era muito bom. Para a produção desta matéria, levei novamente a bicicleta para o cavalete. Em pouco mais de duas horas de trabalho ela estava pronta para virar “maneca”. Não resisti à tentação e pequei. Fui rodar com ela. O que era estipulado como uma voltinha foi uma tarde inteira de pedal. Como escreveu o poeta Val Salvaterra, “...encostada num canto, lindamente quieta, ela não reclama de nada, e não me cobra nada. Minha bicicleta, amo você...”.

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