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Sobre rodas e mundos

Revista Bicicleta por Renato Perim
568 visualizações
26/09/2017
Sobre rodas e mundos
Foto: © Ramon Espelt Gorgozo / 123RF / © Rocksweeper / shutterstck / © Daria Zuykova / 123RF

Planeta Terra, 2017, Era da Informação. Tudo é compartilhado, visualizado, comentado. Com as mãos ocupadas pelo smartphone, tentamos, em vão, dominar o malabares de informações despejadas em nós diariamente. Nas mídias sociais, leigos ganham status de PHDs e debatem, com demasiado entusiasmo, temas das mais variadas naturezas. Vale tudo: política, aquecimento global e até a costura da princesa Kate.

Os tempos são de polarização e, por que não, de intolerância. A agressão verbal é constante. A exteriorização de uma preferência eleitoral, outrora recebida como uma opinião, é suficiente para estereotipar o cidadão a ponto dele afastar familiares e amigos.

E no universo da bicicleta, qual o impacto dessa atmosfera? Como lidam com a diferença os diversos perfis de ciclistas, que divergem entre si até em nichos mais específicos como cicloturistas, mountainbikers ou usuários urbanos?

Numa primeira ótica, não há como negar que existe preconceito nos pedais. Enquanto os robôs não aderem à magrela, os donos das pernas que giram a manivela continuam seres que trazem consigo sentimentos falíveis, às vezes mesquinhos, típicos do humano.

Já vi ciclista criticado por investir dinheiro em bike de carbono com suspensão traseira, dessas que parece uma Ferrari.

- Mas que mal tem se o cara investiu o dinheiro honesto no esporte que é a paixão?

- Isso é coisa de coxinha, ciclista raiz desce ladeira sem suspensão – alguém esbraveja.  

Em outras ocasiões, o deboche é inverso. Para alguns, os adeptos da aro 26’ estão um degrau abaixo na escala evolutiva da espécie. Já vi gente debochar de bicicleta elétrica, desmerecer cicloviagem com guia e até questionar alforjes importados, quando se pode fazer um com balde descartável de margarina.  

Esquecem que a multiplicidade é das mais caras virtudes dos indivíduos. Quanta beleza não há em toda essa individualidade que nos faz únicos? A opção de dormir em uma cama kingsize de um resort ou sob o céu estrelado de um camping selvagem, após um dia de exaustiva pedalada, não torna a pessoa melhor nem pior que a outra.

A própria definição de preconceito remete ao “sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão”. Se não são todos que querem madrugar com uma Speed numa rodovia, partir para uma volta ao mundo numa barra-forte ou se reunir com indumentárias dos anos 50 em bicicletas vintages, ao menos respeitem a posição antagônica.

Após testemunhar bate-bocas em grupos de bicicleta no facebook, andava pessimista sobre o aspecto. Se nem mesmo os ciclistas entendem-se, o que dirá o resto da sociedade. Até o dia que, em trajes formais, parei minha raleigh velha no semáforo a caminho do trabalho. A poucos metros, em uma fixa estilizada, um barbudo tatuado olhou-me nos olhos, sorriu e pronunciou singelas palavras que deram um looping no meu ceticismo. Duas apenas: “bom dia”. Sorri de volta. E os sorrisos que, assim como as palavras, eram dois, viraram quatro duas esquinas à frente. E dezenas alguns dias depois. Já não sei mais quantos são, mas se multiplicam por aí desde que decidi, naquele fortuito encontro, semeá-los pelas ruas da cidade. Se alguns ciclistas me olham com desconfiança, a maioria retribui com entusiasmo à saudação pelo instantâneo encontro.

Hoje, não tenho dúvidas que o elo de conexão entre as mais diversas tribos de ciclistas mundo afora sobrepõe às divergências estéticas e opiniões. Uma identidade que envolve liberdade e faz do vento um mensageiro. O mesmo vento, único, que afaga a face do velocista no asfalto e orquestra o assobio do entregador de pão sobre o ladrilho. E que, de bom humor, deixa cair do bolso sorrisos pelas esquinas da cidade. Quem ainda não encontrou esse vento, não compreende que a bicicleta é mais que um veículo com duas rodas e pedais presos a um quadro. 

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