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The book is on the table...

Revista Bicicleta por Antonio Olinto
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15/12/2014
The book is on the table...
Foto: Rafaela Asprino

Um dos grandes diferenciais de uma viagem de bicicleta são as experiências que temos pelo caminho. No geral são elas as responsáveis por enriquecer-nos com ensinamentos através de vivências.

Numa viagem, acontecimentos e encontros simples tomam outra dimensão e têm a capacidade de marcar, ensinando coisas que às vezes não conseguimos aprender em nosso dia a dia.

Desde a quinta série até a faculdade tentei aprender inglês. Logo que comecei a estudar Direito percebi que devido a nossa tradição jurídica, se quisesse fazer pós ou doutorado, seria melhor estudar alemão, francês, italiano ou espanhol. De toda forma, como nunca gostei de estudar línguas, parei com o inglês e me concentrei nos códigos.

Na eminência de sair para minha grande viagem de bicicleta, sete anos depois de parar de estudar, resgatei umas velhas apostilas com fitas k7 e voltei a praticar inglês.  

Com todo meu esforço, quando cheguei à Inglaterra, após cinco meses pedalando, percebi que mal conseguia fazer perguntas e de toda forma não era capaz de compreender bem a resposta. No Brasil aprendemos o sotaque americano, o mesmo dos filmes, sendo assim, o sotaque britânico me parecia estranho como o português de Portugal, ainda mais quando falado pelos tantos estrangeiros que vivem na ilha.

Além disso, meu vocabulário era mínimo. Imaginemos um estrangeiro que só aprendeu as palavras “seguir em frente”, “virar para a esquerda” e “virar para a direita”, daí ele pergunta uma direção para um mineiro que responde “o senhor segue toda a vida por ali...”. Apesar de significar a mesma coisa que “seguir em frente” não será compreendido pelo estrangeiro com pouco vocabulário. Sendo assim, mais que as palavras, eu prestava atenção nas indicações da mão do sujeito para compreender o caminho.

Sem GPS, continuava a viajar com mapas precários e eventualmente perguntava a direção, pedia água, negociava a compra de um produto e assim as experiências, juntamente com as necessidades do caminho, fizeram com que eu conseguisse algo que até então parecia impossível: aprender de forma definitiva a falar em outros idiomas.

Enquanto enfrentava as primeiras subidas de mais de dois mil metros dos Pirineus, comecei a ler um pequeno livro de conversação em francês que ganhei de meu irmão Neto. Quando entrei na França só sabia falar “merci beaucoup”, mas não sabia o que queria dizer. Logo nos primeiros dias no país, depois de encher o pneu em um posto de gasolina, agradeci a uma velha gorda dizendo “merci beaucoup mademoiselle”. O sorriso dela e da amiga me ensinaram na prática que tinha exagerado um pouco, mesmo estando agradecido não precisava tê-la chamado de senhorita.

Praticamente cada palavra que aprendi está associada a um fato, divertido, interessante, triste ou belo, que nunca sai da memória. Enquanto estava aprendendo uma nova língua era como se montasse um grande mosaico. Primeiro tinha somente algumas peças difusas que tentava agrupar. Geralmente coisas que precisava aprender rápido como fazer certas perguntas, saudar as pessoas, agradecer etc... Logo meu mosaico estava cheio de palavras, eu conseguia formar frases e, pouco a pouco, o mosaico mostrava imagens inteiras. De noite a cabeça doía de tanto esforço que fazia para aprender rapidamente os novos códigos de linguagem.

Em um mês e meio, quando saí da França, já era capaz de conversar e contar toda minha história em francês. Claro, era um francês meio quebrado, do tipo “mi Tarzan, iú Jane!”, além disso, até hoje, apesar de fluente, continuo analfabeto em francês, leio pouco e não sei escrever. Mas eu conseguia me comunicar com qualquer um, compreender as notícias e tinha a melhor chave para entender toda uma cultura.

“Minha pátria é minha língua” - Caetano Veloso.

Quando podemos falar com qualquer pessoa do país a viagem transcende e fica muito mais interessante e prática. Cada língua tem nuances interessantes e divertidas. Quando algo para nós é fácil dizemos “é sopa”, o americano diz “é um pedaço de bolo” (piece of cake). Uma comida “exquisita” é deliciosa em espanhol. E os italianos falam “tchau” (ciao) mesmo quando estão chegando.

Meus professores de inglês sempre primaram por uma pronúncia correta, mas como corrigir um australiano falando “dia”? (os australianos pronunciam a palavra “day” (dia) da mesma forma que um americano pronuncia “die” (morrer)) .

Logo percebi que se eu falasse e fosse compreendido, estava tudo certo. Não me preocupava muito com a pronúncia nem com frases gramaticalmente perfeitas, assim as conversas fluíam mais facilmente sem o medo de errar.

Quando cheguei à Índia já estava fluente em inglês com qualquer sotaque, mas percebi que só conversando meu aprendizado estava ficando estagnado. Comprei um livro do qual conhecia bem a história. Sempre que encontrava uma nova palavra, marcava e continuava a leitura, pois não prejudicava a compreensão da história que já conhecia. Depois buscava em meu dicionário de bolso e anotava do lado. Foi assim que traduzi todo o Novo Testamento.

Despreocupado, quase sem perceber, meu “portunhol” ficou aprimorado, aprendi a me comunicar em francês, italiano e inglês, passei a compreender até o sotaque indiano.

Claro, línguas latinas são fáceis para nós que falamos português, mas e as outras?!?!

Numa viagem de bicicleta aprendemos que somos muito dependentes, por exemplo: não há como levar água para toda uma grande viagem, sendo assim terá, fatalmente, que pedir água ou informações, e de qualquer maneira é bom mostrar-se gentil e educado em outro país.

Minha estratégia era montar um pequeno dicionário da língua da região que viajava assim que encontrasse alguém que falava uma das línguas que conhecia.

Não me preocupava em escrever a palavra corretamente, utilizava nosso alfabeto para exprimir o som da palavra daquele novo idioma. Deixava o papel em minha bolsa de guidão e ficava repetindo, memorizando e utilizando sempre que pudesse. Hoje alguém poderá gravar em seu celular e ficar ouvindo para ajudar a memorizar corretamente.

O vocabulário básico era:
- Como saudar: Olá, bom dia, ou de acordo com a cultura local.
- Muito obrigado, por favor, quanto custa, água, pão, comida, números...
Sempre podemos nos virar com sinais, mas até os sinais podem mudar conforme a cultura e devemos aprender seus códigos.

Na Turquia o chá é bebido tão frequentemente como nosso cafezinho e é oferecido às visitas. Como são pessoas muito simpáticas, recebia vários convites para tomar chá o dia todo. Quando recusava, costumava negar falando em inglês e utilizava toda a linguagem corporal possível. Mexia a cabeça negativamente e estendia o braço lentamente com a palma da mão aberta numa indicação de “basta” ou “pare”. Tudo isso não surtia efeito, pois continuavam insistindo na oferta e às vezes podia sentir nos olhares certa frustração ou decepção, talvez até indignação.

Conforme convivia com as pessoas, aprendi que para melhor agradecer, as palavras de agradecimento deveriam ser seguidas de um gesto muito simples que é colocar a mão direita no coração e inclinar levemente a cabeça para baixo. Assim o ofertante saberia que recusava, mas agradecia a oferta do fundo de meu coração. Este belo gesto é utilizado também logo após cumprimentar e apertar as mãos como uma forma de carinho e apreço.

Na Índia, com todo o sistema de castas e purificações, não é costume beber água na boca da garrafa para não encostar os lábios nela. Se não tem um copo, um indiano fecha a mão direita como uma concha, encosta no lábio e, com a mão esquerda, derrama o conteúdo da garrafa na mão fechada em concha e bebe a partir dela.

Sendo assim, se pedir água na Índia esticando o polegar apontado para a boca não será compreendido, melhor fechar a mão em forma de concha e encostar nos lábios, assim, mesmo quem estiver distante e nem ouvir suas palavras, compreenderá que tem sede.

“Para mim eles estão falando grego”!  Calma, grego não é tão difícil. Em nosso dia a dia utilizamos vários radicais gregos e isso facilita principalmente para compreender os números na hora de negociar, o duro é falar tailandês...

O tailandês veio do sul da China e é uma língua tonal, ou seja, uma mesma palavra, independente de contexto, se mudamos o tom na pronúncia mudamos seu significado...

Por mais difícil que seja produzir os sons de garganta dos árabes e judeus, é quase impossível, sem treino, produzir os sons nasais do tailandês. Em nossa língua não aprendemos a produzir a gama de sons necessários para nos comunicar em tailandês. Cheguei a ficar uma semana sem falar com ninguém no norte da Tailândia.

Mas nem todo mundo que tem olho puxado fala difícil. Na Indonésia, a língua oficial foi alterada e padronizada artificialmente (com a colonização) e é considerada uma das línguas mais fáceis de aprender. Só pedalei por uma de suas ilhas (Sumatra), mas lembro que encontrei um inglês que vinha de bicicleta desde a Austrália e já falava com todo mundo em indonésio.

Reconheço que nem tailandês nem indonésio sejam línguas úteis, o melhor geralmente é aprender inglês, logo depois vem o espanhol, principalmente se for viajar pela América Latina, é claro. Na África o francês pode ser muito útil também, mas o russo continua sendo bom na Ásia Central e em todo o território de influência da antiga URSS.

Seja qual for sua paixão por línguas, sempre aconselho uma viagem de bicicleta como uma das melhores, mais baratas e interessantes maneiras de fazer um curso de línguas de imersão. Afinal, em cada esquina você terá um professor com pronúncia perfeita para lhe entregar uma lição.

“Mnemotécnica”, “Mapeamento Mental”, “Interrogação elaborativa”, “Auto-explicação”, nada disso é tão eficiente como o sistema de aprendizado criado pelo famoso japonês chamado “Namarra”.

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