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Thiago Fantinatti - Pergunte para quem sabe

Fera do cicloturismo

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
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22/09/2015
Thiago Fantinatti - Pergunte para quem sabe
Foto: Thiago Fantinatti

Esta nova coluna da Revista Bicicleta vai trazer uma série de questões a serem respondidas por feras no assunto. 

Envie-nos suas dúvidas que nós encontraremos um parceiro da revista para responder, especialmente para você. Demos o primeiro passo com este grande cicloturista, reconhecido internacionalmente. Obrigado, Thiago Fantinatti, por aceitar responder de forma a satisfazer a dúvida nossa e de inúmeros de nossos leitores.

Therbio - Nosso primeiro conjunto de perguntas aponta para dois dos cenários mais desejados pelos cicloturistas: A Cordilheira dos Andes e o Fim do Mundo. Após realizar sua travessia, quais seriam os três maiores desafios encontrados em cada um destes destinos? Se possível, explique cada um.

Thiago - Pergunta complicada, então, creio que a resposta vai ser um tanto longa. Eu costumo dizer que demorei uns 10 meses pra finalmente perceber que havia me tornado um cicloviajante. Comecei sem saber nada e fui aprendendo com a estrada. Não estudei guias e ninguém pegou na minha mão. Mas era isso mesmo que eu queria e encontrei o que buscava.

Terra do Fogo 

Como saí da minha casa pedalando e fui para o sul, minha primeira grande meta foi a Terra do Fogo. E aí começa a resposta de fato. Você pode fazer a coisa de duas formas: a primeira é ir de avião ou de ônibus até a Terra do Fogo e pedalar por lá. A segunda forma é ir até lá pedalando. Estar lá, pra mim, é um fato indissociável de ir até lá. O “ir” foi muito mais desafiante do que o “estar”.  Nos 111 dias que levei até Ushuaia tive dois grandes desafios. Primeiramente, o vento. Boa parte dos 3.000 km de Ruta 3 (principal ligação do leste da Argentina, entre Buenos Aires e Ushuaia) foram com vento contra. E não é ventinho, não! Não cheguei a medir, mas deve ter passado dos 70 km/h em muitas ocasiões. Isso é uma tortura! Metade deste caminho eu fiz acompanhado. Isso facilita, pois, revezando-se em fila com seu companheiro, em tese, você faz metade do esforço geral. Os ventos mais fortes que já vi na vida foram na Terra do Fogo.

O segundo desafio foi a solidão. A segunda metade desses 3.000 km de Ruta 3 eu fiz sozinho. Quando digo solidão não me refiro propriamente ao “estar só”. Eu sempre gostei muito de estar comigo mesmo. Mas, estar só é diferente de estar só num lugar distante, desconhecido, isolado e inóspito. Aí, o bicho pega! Isso explica meu frio na espinha ao descrever isso! É quando muita gente desiste. Isso me fez crescer bastante. Estou tentando achar um terceiro desafio aqui, mas nada que passei neste trecho se compara com o vento e nem a solidão. Então, vou ficar devendo o terceiro item.

Cordilheira dos Andes

Tive uma longa relação com a Cordilheira dos Andes. A primeira montanha nevada que vi na vida foi justamente na Terra do Fogo, perto de Tolluin, no caminho a Ushuaia. E as montanhas que ali existem já fazem parte da mais longa cadeia de montanhas do mundo. Só que são montanhas baixas e não representam grandes desafios. Mesmo um pouco mais para o norte, na Carretera Austral, embora serpenteie por dentre a cordilheira, pedalar ali é um deleite.

Claro que há subidas e estradas ruins, mas não chega a ser um desafio marcante. Mais para o norte ainda, nos passos da Região dos Lagos, em alguns deles comecei a sentir um pouco a questão das subidas. E como o inverno já começava a se manifestar, o frio, por muitas vezes, me causou desconforto.

A subida que tive no Chile, desde Antofagasta, ao nível do mar, até o passo Ollague a 4.000 metros de altitude (fronteira com a Bolívia) foi suave e levou muitos dias. Neste trecho, eu pontuaria não as subidas, mas sim o primeiro contato com a altitude enquanto desafio. É um desafio diferente. Ele não é óbvio e cada um sente de um jeito. Nos primeiros dias a mais de 3.200 metros de altitude eu senti falta de força nas pernas e uma leve dor de cabeça. Esses sintomas desapareceram totalmente depois de poucos dias.

Somente no Peru as subidas foram o desafio. Neste ponto, eu estava muito bem adaptado à altitude, porém, a subida desde Cusco até o passo Pirhuayani (caminho ao Brasil) a mais de 4.700 metros, me marcou bastante. A impressão que dá é que o Peru tem montanhas mais verticais e abruptas que as regiões chilenas. O bom da subida é que, mais cedo ou mais tarde, ela te paga com uma descida. Muito mais justa que o vento que te rouba energia e nunca mais a devolve.

Therbio - Como vencer o oponente invisível: O vento?

Thiago - A resposta desta questão, sem rodeios, é fácil: Resiliência.

Therbio - Para manter-se condicionado, a alimentação é fundamental. Que gêneros alimentícios você conseguia encontrar com facilidade rumando em direção a Ushuaia e que garantiam sua condição física para continuar pedalando? Que cuidados você diria serem fundamentais em relação à comida neste ambiente?

Thiago - Como dizem na figura de linguagem, eu “estava virado no cão”. Claro que no bom sentido. Neste trecho, eu tinha muita energia e disposição. Talvez pelo fato de estar cada vez mais mergulhando na realização do sonho da minha viagem, não me preocupava muito com a alimentação. O prato do dia era o que tinha. Obviamente, na Argentina, muita carne. É isso mesmo, em alguns aspectos não sou um bom exemplo. Inclusive, em duas ou três ocasiões, na companhia do francês Vincent, matamos nossas ressacas em cima do pedal.

Os itens que eu não deixava faltar na bagagem eram: pão, macarrão, arroz, leite em pó, café solúvel, doce de leite, batata, cenoura, cebola, uma fruta e, eventualmente, atum. O resto era mistura. Não suplementava e nem usava aqueles saquinhos de carboidrato em pasta. Alimento convencional já basta numa viagem dessas. A não ser, lógico, que você vá pedalar 200 km por dia. Aí, já não é mais cicloturismo.

Sobre os cuidados com a comida, se fosse na Bolívia eu diria: “não coma na rua”, mas na Argentina eu não me preocuparia muito. O que é mais importante para mim é nunca ficar muito tempo sem comer. Sou hipoglicêmico e mesmo na minha vida normal, fora das viagens, se fico sem comer viro um imprestável. Na viagem, isso é multiplicado por mil. Meu corpo para e fico até mesmo com dificuldades de raciocínio, por isso tenho que comer o tempo todo.

Vou incluir a água como alimento aqui. A não ser nos dias mais duros, água já basta pra hidratar bem. O importante é ficar atento aos sinais do corpo. Pedalar o dia todo e não urinar é sinal de que você está fazendo algo errado.

Therbio - Na Cordilheira dos Andes, que cenários (locais) você destacaria como os mais impressionantes de sua cicloviagem?

Thiago - Toda ela é muito linda. No extremo sul, meu primeiro contato. Óbvio deslumbre. Na Ruta 40, por muitas vezes você a tem bem ao longe no horizonte. Talvez, as paisagens mais bonitas que já vi. Na Carretera Austral, ela vem misturada com densas matas e gelo. Neste trecho, um sobe-desce doido, difícil é não parar para fotografá-la sobre os lagos de cor turquesa. No centro do Chile, enquanto você segue pela Panamericana rumo ao norte, ela está sempre à direita, fazendo uma moldura perfeita para os vinhedos. Mais ao norte ainda, seca e nua. Boa parte dos encontros com a cordilheira no norte do Chile mostram montanhas nuas. Eventualmente a neve pinta de branco as montanhas.

Mas, foi na Bolívia e no Peru que ela se mostrou para mim da forma mais intensa. Embora o pico mais alto seja o Aconcágua, mais ao sul, o trecho do Altiplano Andino possui muitas montanhas com mais de 6.000 metros. Isso no horizonte é uma loucura! Você está a 4.000 m rodeado de montanhas de mais de 6.000 m!

Quando se cruza a cordilheira no Peru, este contato é mais próximo ainda e sem sombra de dúvida, a passagem pela rodovia Transoceânica, entre Cusco e a Amazônia peruana, foi o trecho mais bonito. Então, minha longa relação com a Cordilheira dos Andes foi assim, aos poucos, durante meses, e o clímax desta relação foi justamente no último dia, quando saí de 4.725 m até a Selva Amazônica Peruana.

Therbio - Vez ou outra, nos chegam relatos de cicloviajantes que reagiram de maneiras diferentes ante à solidão. Como você classificaria a solidão em cicloviagens como a que realizou? E o que fazer para não fazer da solidão uma companhia indesejável?

Thiago - Estive 70% do tempo deste ano de viagem sozinho. Encontrei vários tipos de solidão. No começo da viagem, ela foi mais dura mas, quando cheguei ao Deserto do Atacama, foi uma deliciosa companhia.

Eu tinha como meta cruzar o deserto sozinho e mesmo depois de haver tido 11 companheiros, a hora que chegou o deserto eu estava só. Isso foi bom e era justamente o que eu queria. Então, eu não tinha ninguém me apressando, ninguém me acordando cedo demais, ninguém reclamando de nada! Isso é demais! Como digo em meu livro:

"No deserto, minha viagem que já tinha corpo e coração, finalmente ganhou sua alma. A viagem que havia me proporcionado tantos encontros fantásticos e inesquecíveis, desta vez, me proporcionaria o mais importante de todos: o encontro comigo mesmo. Onde não havia nada para olhar além da areia, da pedra e do céu azul profundo, acabei voltando meu olhar para mim mesmo”.

Então, apesar de alguns medos, perrengues e do isolamento, na maior parte do tempo foi muito bom estar só. Mas, acho que isso é uma coisa muito pessoal. Tem gente que não suporta estar sozinha. Tem gente que não se suporta (risos). Por isso, eu não consigo dar dicas de como não tornar a solidão uma companhia indesejável, já que, para mim, ela nunca o foi. 


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