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Trilhas Alagoanas - Um mundo de possibilidades para o MTB nas Alagoas

Engana-se quem resume Maceió – AL enquanto terra de sol e mar. Há tanto mais para ver nos recônditos interioranos da capital e região, entre as lagoas que nomeiam o cenário e que definem a paisagem. Infindáveis caminhos de terra serpenteiam o que a vista capta, escondendo nos últimos grotões de mata atlântica o silêncio das águas claras, convidando para um mergulho restaurador e sem pressa após uma tórrida pedalada. Há uma história a ser recontada, banhada na superação de um povo que absorve, todos os dias, o flagelo da cana-de-açúcar e que se redesenha, sublime, em artefatos feitos do barro das trilhas. Atreva-se a pedalar neste encanto de Brasil, entre o encontro das águas do mar com as doces lagoas. Certamente, alegres surpresas estarão esperando a cada curva.

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar / Colaboração Sérgio Novis
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02/12/2015
Trilhas Alagoanas - Um mundo de possibilidades para o MTB nas Alagoas
Foto: Therbio Felipe, Claudovan Freire e Vitor Falcão

O som da tapioca recém-feita e a visão do sol às 5 h da manhã preparam os sentidos para o que há de vir. Da janela do salão de café do bikefriendly Hotel Ponta Verde, visibilizo a ciclovia, o calçadão, pessoas correndo, caminhando e pedalando sobre ambos, além dos coqueiros vergados em reverência ao mar em todo o seu “verde com um não sei quê de turquesa”.  

Há quase seis meses vínhamos tratando com o Claudovan Freire a possibilidade de visitá-los a fim de produzir uma matéria. A ideia e o convite formulado por Claudovan prometiam ótimas pedaladas, mas de certa forma, escondiam um universo que só vim a descobrir quando entre eles me encontrava.

Meu anfitrião fez questão de reunir personagens importantes de vários grupos de pedal para compor a comitiva que iria me levar a conhecer um pedaço do tanto que detém sob sua guarda, um sem-número de trilhas inventariadas e mapeadas pelo incansável Sérgio Novis. Juntos, Claudovan e Novis reuniram esforços para que os dois dias que permaneci aprendendo entre eles fossem suficientes para prender algo de mim às Alagoas.

Um dos roteiros que realizamos tinha início na Ilha de Santa Rita, por onde beiramos os canais que ligam a Lagoa Mundaú com a Lagoa Manguaba, região onde se encontra a grande quantidade de mata atlântica original ainda preservada. Os caminhos de terra ribeirinhos ofereciam uma frondosa cobertura de árvores em forma de túnel verde, tornando o pedalar confortável diante do sol impiedoso que já dava noções de sua inclemente presença. Ao atravessar pelo Broma, chegamos ao Sítio de Cumbé com seu denso coqueiral margeado por águas convidativas.

Ao perguntar para o Claudovan qual o caminho que tomaríamos, ele apontou para a outra margem, onde ficava Massagueira. Inusitadamente, para lá atravessamos de barco-táxi levando as bikes conosco. A conversa fraterna entre tantos bikers fez a travessia de menos de cinco minutos inesquecível. A prosa irrigada por risos brindou conhecer o Gaúcho, a Renata, a Carmen, o Phillipe, o Mota, a Amanda e a Mi, o Yuri e o Wagner, além do fantástico Arestides Porangaba, um jovem de 73 anos que é uma referência para seus companheiros. 

Não se pode deixar de apontar Massagueira como o lugar onde é possível experimentar a melhor comida regional feita com frutos do mar e de lagoa, tendo como carro chefe o sururú.

Identifica-se no caminho feito de lagoa, coqueirais e céu, aspectos regionais em transição, seja pelos pescadores tecendo a rede ou pelos falares com um sotaque generoso da menina que, ao nos ver passar, tomou a sua bicicleta e decidiu, simples assim, nos seguir, como se o sonho de ir além de sua realidade houvesse trazido guias.

Ao chegar no município de Marechal Deodoro, encontra-se uma fagueira sombra em frente à matriz, onde se rega o ânimo com um caldo de cana gelado e com algumas mangas doces coletadas pelo trajeto. A presença de grupos de mountain bikers na região já faz parte do dia a dia, porém, sempre dão margem a uma observação minuciosa por parte das senhorinhas sob a sombrinha colorida ou dos moleques sentados à soleira de casarios coloniais, muito bem cuidados, embora singelos.

Na travessia da cidade, após contemplar o entorno usando uma ciclovia, parada obrigatória no Museu Casa Marechal Deodoro, onde viveu o proclamador da República até os 16 anos. Patrimônio conservado aberto ao público e com orientações sobre a história em torno do personagem, contendo objetos pessoais e dando uma noção mais próxima da realidade de como viviam naquele período. Uma aula de história do Brasil gratuita.

Na sequência, o caminho bordeado por cana-de-açúcar aumenta consideravelmente o calor do pedal, martirizando os seres que não estão acostumados com tamanha força de quase 39 graus. 

Ao reclamar ao Novis por um recanto longe do sol, a resposta veio da seguinte forma: “calma, você não perde por esperar, o Lago Azul está logo ali adiante”. Está bem, pensei, um lago azul como qualquer outro que eu já tenha visto, ou seja, nem tão azul assim, desdenhei em pensamento. Quando, ao final de um tramo com palha de cana pelo chão e cheiro de chorume da mesma, avista-se um grotão, nem mesmo a mais fértil das imaginações poderia criar tal visão, um lago plenamente azul clamando por ser visitado. Este lugar é um brinde à pedalada, um momento de confraternizar com os parceiros que nos levaram até lá e agradecer. 

Prosa, imersão em águas refrescantes, sorrisos fartos e a gentileza humilde deste povo. Como não se sentir em casa?

Refeitos, seguimos para o término da pedalada que cumpriu 62 km de terra.

No dia seguinte, retomamos o pedal, desta vez, no município de Capela, distante 65 km do litoral, terra de Claudovan, para um percurso de 47 km, porém, com muita serra e a promessa do calor escalda-miolos sobre nós. A região é a fronteira entre o litoral e o sertão, afamado pela seca abrasadora. Na reunião para a partida, em um posto de gasolina, lá estavam mais de 40 ciclistas, homens e mulheres, jovens e jovens de outra idade, pais e filhos, de diversos grupos reunidos em nome da pedalada. Alegres, se aproximaram e nos deram as boas-vindas, calorosamente. Possivelmente, uma das melhores coisas é ser recebido, seja aonde for, com hospitalidade, e isto não faltou em nenhum momento em Capela.

Novis comenta que o relacionamento entre estas “tribos” do pedal atingiu o que se chama de maturidade, já que participantes de um grupo são geralmente bem-vindos noutro e muitas vezes o convite e troca de informações sobre uma programação de trilha (geralmente através das mídias sociais), circula em vários grupos ao mesmo tempo, aumentando assim o leque de opções de quem quer pedalar. Grupos como o Singletrack Adventure, o Pedalando Bem Acompanhado (PBA) e o Capela em Trilhas são verdadeiramente parceiros e têm em muito valorizado esta atividade em Alagoas.

Ao dar início à pedalada, nota-se que o cenário era bastante distinto do que havia feito no dia anterior. Pedalando entre Capela e a vizinha Cajueiro, entre a Serra do Amaro e Serra do Boi, os sinais da ilógica realidade da cana-de-açúcar não permitem que fiquemos indiferentes ante a pobreza que gera, neste estado que já foi um dos maiores produtores nacionais. A docilidade das gentes pelo caminho contrasta com a brutalidade da monocultura que suga tudo o que têm e por onde passa. Não, não há como não ver que ainda vivemos tempos coloniais, onde a concentração de riqueza nas mãos de poucos faz por sucumbir a natureza e a expectativa de uma vida justa e digna. Ao borde do caminho, dezenas de casas em pé por pura sorte são um símbolo de resistência ante a escassez de recursos. Mas, o cicloturismo pode estar transformando isto de forma silenciosa, é o que queremos crer.

Aos poucos, percebe-se que toda a humildade de Claudovan Freire guarda um profundo respeito por este lugar e que se materializa ao levar mais e mais ciclistas a conhecer seu pedaço de mundo e conviver com sua gente. É notável as dezenas de pessoas que, ao cruzar com o experiente mountain biker, o saúdam pelo nome, com gestos fartos, estejam nas cercas incompletas de taquara, caminhando pelas estradas com bacias sobre a cabeça e debaixo do sol sem piedade, ou ainda incógnitos por trás de uniformes usineiros. A melhor forma de dar-se conhecer é acolhendo, e Claudovan tem feito este trabalho de tornar a realidade de seu povo conhecida, através da promoção do cicloturismo. Obrigado!

O sorriso franco e carregado de esperança do moleque sobre a bicicleta, ao nos ver passar diante de sua casa, emociona. A presença regular de cicloturistas vai trazendo uma outra realidade para a região e talvez, assim esperamos, possibilite um futuro melhor.

Em uma parada ao lado de um caminhão de cana, a única sombra disponível em meio a devastação. Os olhares vislumbram as serras e o verde que ainda resiste por conta da cota que não privilegia a cana neste bioma. 

Ao finalizar o pedal, não se pode deixar de conhecer, em Capela, o ateliê do renomado artista João Carlos da Silva, o João das Alagoas, o qual retrata em sua obra, o cotidiano nordestino. No dia 04 de agosto de 2011, o Mestre João das Alagoas foi declarado como Patrimônio Vivo Cultural de Alagoas e tem ensinado a diversos discípulos, como o Cláudio Henrique, irmão de Claudovan, a sua arte que imita a vida. Um brinde aos olhos.

Durante os últimos anos, Novis vem mapeando uma grande quantidade de trilhas apropriadas para o cicloturismo. Ele afirma que o estado de Alagoas está apenas parcialmente desbravado em termos de cicloturismo e trilhas de MTB, pois há ainda muito o que se descobrir, numa região de infinita beleza e diversidade geográfica. Perguntei ao Novis sobre o que falta para a consolidação dos caminhos e trilhas da região de Maceió e ele crê na possibilidade de criação de um Circuito Cicloturístico unindo Maceió e cidades próximas. Basta vontade política, porque atrativos naturais e culturais existem em qualidade e quantidade. 

Ele conta que o grupo Singletrack Adventure tem a ambição de, junto com os órgãos de turismo da região, consolidar e oferecer algumas rotas cicloturísticas. A primeira delas ligando o litoral às serras e algumas cidades num entorno de 80 km da capital Maceió (Capela, Cajueiro, Viçosa, Murici e União dos Palmares), e a segunda desbravando o litoral de sul ao norte, incluindo a renomada Costa dos Corais e sua enorme opção de praias paradisíacas, como Japaratinga e São Miguel do Milagres.
Para concluir, ele orienta que existe também uma opção mais longa que é a Rota do Imperador, traçado histórico já pronto ligando a foz do Rio São Francisco ao alto sertão que tem como ponto forte a histórica e belíssima cidade de Piranhas, região onde foi morto o famoso cangaceiro Lampião.

Então, agende sua visita, prepare o protetor solar, aguce os sentidos. Maceió e região está pronta para receber cicloturistas em busca de experiências maravilhosas. Eu estou voltando em breve. Algo de mim está preso às Alagoas.

E viva a bicicleta, sempre! 

 

João das Alagoas

Rua Pio de Barros, 114.
Capela-AL - Fone: (82) 3287-1430

Hotel Ponta Verde

Av. Álvaro Otacílio, 2933 - Ponta Verde
Maceió – AL – Fone: (82) 2121-0040

 

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