REVISTA BICICLETA - Um cicloturista no Brevet Randonneur Misto 200 km!
Baixe Gratuitamente a Edição Digital de Maio - Junho 2017 da Revista Bicicleta!
Pneus Kenda

O Portal
da Bicicleta

SHIMANO
Revista Bicicleta - Edição 76

Leia

Revista
Bicicleta



+bicicleta - Modalidades - Longa Distância

Um cicloturista no Brevet Randonneur Misto 200 km!

O convite me soou como uma intimação. Uma pequena insegurança tomou conta dos meu joelhos no momento em que aceitei a proposta de cumprir os 200 km mistos - asfalto e terra. Como seria a experiência de um cicloturista convicto em um evento como este?

Revista Bicicleta por Therbio Felipe M. Cezar
36.442 visualizações
18/11/2013
Um cicloturista no Brevet Randonneur Misto 200 km!
Foto: Roberto Furtado / Therbio Felipe

Para começar, uma pequena confissão. Jamais pedalei 200 km em um só dia. Segunda confissão: tinha que cumprir os 200 km dentro de um determinado horário. Odeio cumprir horários. Terceira e última confissão: por estar acostumado a pedalar por prazer tão somente a fim de conhecer as culturas impressas nas paisagens, dialogar com elas e com seus autores, manter um ritmo constante e me fixar no objetivo de chegar me molestava a mente, ao extremo.

Tudo isto foi agravado pela sensação nefasta de ser e me sentir tão humilde perto de homens e mulheres que, em outras oportunidades e por várias vezes, já cumpriram os 300, 400, 500, 600, 1000 e 1200 km. Afinal, o que eu poderia estar fazendo ali, naquela madrugada fria e úmida de pré-inverno na capital dos gaúchos?

Antes do primeiro giro do ciclocomputador, percebi que nestas provas ninguém desafia ninguém. Cada um impõe a si a possibilidade de superar-se. E talvez, esta seja a parte mais difícil. Fomos criados em uma sociedade onde o conceito de competição contra os demais demarca as linhas de quem tem ou não sucesso na vida, de quem pode ou não sobreviver, de quem vai adiante ou quem fica. Porém, neste tipo de evento, o mais difícil é competir contra a própria preguiça, contra as variações de se superestimar ou subestimar, contra aquela falsa ideia de que apenas nossa vontade é capaz de levar-nos aonde queremos ou precisamos.

Antes de falar do evento, algumas considerações conceituais são pertinentes. Segundo o AUDAX Randonneurs São Paulo, um “Brevet Randonneurs Mondiaux”, representado pela sigla “BRM” é um evento não competitivo e de longa distância, onde o principal objetivo é percorrer distâncias pré-estabelecidas dentro de um determinado limite de tempo, de forma autossuficiente (sem qualquer tipo de apoio externo), utilizando-se veículos de propulsão exclusivamente humana e em seu próprio ritmo (em francês, allure libre).

Comumente, se usa a palavra latina Audax em vários eventos pelo mundo querendo-se atribuir o mesmo sentido de um Brevet BRM. Ainda vale esclarecer que, segundo a mesma fonte, esta denominação é erroneamente utilizada, visto que “Audax” se trata de uma outra modalidade de eventos de longa distância, onde o ritmo de um brevet Audax é pré-estabelecido e realizado em grupo, liderados por um “capitão de rota”. O andamento livre e o andamento ditado por um capitão de rota é uma das principais diferenças entre um brevet “BRM” e um brevet “Audax”.

Portanto, o que estava participando era um Brevet BRM 200 km.

O evento, em si, organizado para ser um roteiro autoguiado e autônomo, conta com três PCs (pontos de controle) onde as energias são repostas em alguns minutos, os ânimos são renovados ou não, e a equipe de apoio se concentra para carimbar os cartões que, em parte, garantirão a homologação da prova cumprida.

Todo o apoio que a equipe da Ninki oferece, além de cordial e atento, é um ponto a considerar. Aliás, repenso e digo que mais do que apoio, era incentivo. Acredito e espero que em outros eventos pelo país, suceda da mesma forma.

O frio nunca foi um problema para mim que já pedalei em altitudes de mais de 4.000 m e sob temperaturas que chegaram a -6 graus. Mas se preparar estrategicamente para ele é uma das formas de evitar sofrimento. Coloquei uma camiseta de algodão bem justa, sobre ela uma outra de ciclismo com mangas longas e ainda sobre tudo isto uma jaqueta corta-vento com dupla camada, para manter meu corpo razoavelmente quente e garantir que a umidade não baixasse minha temperatura corporal, o que faria que eu gastasse ainda mais energia para aquecer-me. O colete com reflexivos também é peça fundamental em uma prova destas. Durante as 12 h 32 min, tudo funcionou muito bem.

Outro detalhe que sempre uso e que me garante conforto é o lenço de pescoço ou bandana. Quando o utilizo sobre o nariz e boca tenho a sensação de poder respirar um ar mais quente, porque o ar frio, muitas vezes, atrapalha a inspiração. Da mesma maneira, como havia trechos de terra, este artifício me auxiliaria a não respirar a poeira do caminho, o que me manteria com bom autonomia. 

Óculos com lentes amarelas e óculos para sol, por sua vez, são indispensáveis.

Água, apenas o necessário, a fim de carregar pouco peso na bolsa de hidratação. Além disto, tão só uma bolsa de guidão com documento de identidade, pouco dinheiro em espécie, lanternas e piscas traseiros de reserva, câmera digital e minha ração, já que sou celíaco e tenho total intolerância à lactose.

O caminho se mostrava tranquilo, ainda que pedalássemos pelo acostamento de uma das principais estradas do meu estado. O intenso movimento de caminhões e ônibus não permitia que a atenção fosse dispensada por um segundo. Quem já pedalou comigo em outros caminhos sabe que segurança, para mim, é inegociável. Logo, ao passo que o trajeto era cumprido, deixávamos as estradas de grande movimento para tomar caminhos secundários que levavam à cidade de Charqueadas e daí, a São Jerônimo.

O ritmo após 60 ou 70 km seguia o mesmo e desconforto era uma palavra que não fazia sentido até o momento. Porém, pedalar já não era o objetivo, mas sim, cruzar a ponte do rio Jacuí e chegar a tempo de tomar a primeira balsa que nos levaria ao segundo passo do trajeto. Lembrem, eu não gosto de marcar horários enquanto pedalo e esta obrigação mexeu com meu emocional. Passei a prestar atenção ao ritmo e desfoquei mirada da paisagem que passava ao lado e da qual eu estava fazendo parte, ela que sempre foi a consorte de minhas pedaladas pelo mundo.

Limite, esta palavra tilintava em minha mente, ainda que tivesse a excelente companhia de alguns randonneurs experientes como o Paulo Roberto Bagatini e o Emílio Dolgener Cantú, este último realizando a prova em uma fixa!

Passamos por General Câmara sentido Taquari e eu sabia que outra balsa haveria, e o tempo agora era um companheiro ansioso de pedalada.

A organização, antes da segunda balsa, ofereceu-nos um almoço simples, porém, farto, saboroso e que foi, em poucos minutos, a injeção de calor para exaltar os ânimos e convidar ao pedal, novamente.

Ao chegar na margem seguinte, a balsa deixava os ciclistas, ou pelo menos a mim, com aquela pergunta inevitável: e se eu desistir? Será que já não alcancei o meu limite?

Mais uma vez, a palavra latina derivada de limes, -itis, (indicando caminho, raia, fronteira, atalho), a que correspondem tais termos, açoitava o silêncio dos últimos 80 km. As estradas de terra mostravam até onde a expansão agrícola havia avançado, o quanto o rio tinha sido constrangido, a forma pela qual as localidades tentavam expandir-se para além de si.

Em um entroncamento de vias, o limite entre observar um grupo de ciclistas cansados e perceber que se avançara o cruzamento, fez com que um motorista, distraído pela nossa presença, viesse a colidir com uma moto que trafegava na preferencial. Resultado, além do susto, danos materiais e algumas lesões nos motociclistas. Nada ‘além’ disto, ainda bem. 

Analisei que a vida, enquanto a percebo detrás dos meus óculos, pode ser compreendida ou determinada pela palavra limite. Assim sendo, talvez entendesse como o começo ou o fim de algo ou alguma coisa, ou como a linha a partir da qual tudo muda. Talvez, ainda, como a membrana que separa o que está no interior da célula do restante da molécula ou ambiente. Quem sabe, o horizonte que me ilude sobre onde começa o céu e termina a terra. Seria o marco da dor entre o suportável e o inimaginável e até mesmo a natureza frágil ou rígida do meu corpo sobre a bike após todo e qualquer esforço. Por fim, poderia ser compreendido enquanto sorriso que nasce ao entender que o impossível era, apenas, uma posição onde o limite me esperava.

Após deixar o último PC, já ao cair da tarde, reconheci uma constante no semblante dos que ainda estavam na prova. Não queriam desistir. Os experts nos 200 km os completariam sem, nem de longe, alcançar a zona de limite de seus esforços. Já os debutantes como eu, e que não eram poucos, entendiam que este era um compromisso assumido consigo mesmo. E que a metrópole que se apresentava com suas luzes ao crepúsculo, era mais do que simplesmente um destino a alcançar.

Ainda que, ao meu entender, o final da prova tenha sido tenso devido ao intenso tráfego de veículos na ponte sobre o Guaíba e a extrema dificuldade de se fazer notar e ser respeitado, única nota negativa, já não me lembrava de dor alguma ou de insegurança vestida de âncora se opondo ao avanço do meu desejo de concluir a prova. 

Nada de euforia me tomava, nem aos que já se encontravam confraternizando amistosamente. Parecia, apenas, o final de mais um dia de pedal, tão cheio de sonhos, realizações e objeções como qualquer outro. Porém, havia um único detalhe que diferia o ciclista que partiu às 6 horas daquele que ali se encontrava ao fim do dia, já colocando a bicicleta no suporte do carro. A certeza de que havia entendido que o meu limite ainda não havia sido alcançado.

Até o Brevet BRM 300 km!

Curtiu esse post?

Quer receber mais conteúdo sobre bicicleta e ciclismo em sua casa? Então clique aqui conheça nossas ofertas de assinatura.

Comentários Facebook
Comentários
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha
Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados