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Um paraibano arretado nos Estados Unidos

Em qualquer parte do planeta existem brasileiros, sejam pessoas comuns ou importantes daquele local. Segundo as pesquisas, os Estados Unidos é o país que mais tem imigrantes brasileiros. Nesta estatística, aproximadamente 80% deslocam-se em busca de uma vida melhor; e os demais, por motivos de transferências de trabalho e vida cotidiana. Nesta busca pelo sonho americano, há 18 anos um paraibano arriscou tudo que tinha e foi trabalhar como mecânico de bicicletas numa famosa rede de lojas em Miami. Mas antes de contar a história de Robério Fialho Bezerra, vamos voltar um pouco no tempo, onde tudo começou.

Revista Bicicleta por Guiné
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07/11/2014
Um paraibano arretado nos Estados Unidos

Ainda aos seis anos, Robério trabalhava na oficina de motos do seu irmão, Ronaldo, na cidade de Campina Grande-PB. Não era um trabalho escravo, pois limpava algumas peças e fazia serviços básicos como pegar ferramentas na caixa, etc. Em troca disto, o seu primeiro salário foi uma bicicleta de BMX.

Nesta idade, ele mesmo fazia a manutenção da sua bike – ajudado pelo irmão. O tempo foi passando e, com ele, o interesse em consertar mais bicicletas. Os amigos de infância foram os “primeiros cobaias”. Alguns deles até hoje são amigos de pedaladas quando ele retorna ao país, sem contar aquela famosa vistoria que ele faz questão de realizar nas bikes.

Chegada nos Estados Unidos

A sua chegada nos EUA foi exatamente no BOOM do mountain bike, o que ajudou bastante na conquista do seu primeiro emprego. Robério conta que chegou na loja e pediu um emprego de ajudante de mecânico. Sem falar inglês, ele trocou palavras com o proprietário no famoso “portunhol”. Iniciou como montador de bicicletas. Enquanto os mecânicos montavam seis bicicletas por expediente, Robério chegou a montar 14. Isso foi crucial para sua contratação de imediato, já que a modalidade estava em ascensão.

“Foram muitas as dificuldades, mas a determinação na carreira que me propus a seguir falou mais alto ao ponto de rejeitar convites de amigos que trabalhavam como entregadores de pizza e ganhavam o dobro do meu salário. Amo bicicletas e principalmente a mecânica que existe em torno delas. Persisti no meu objetivo de mecânico e recusei até aumentos de salário do meu chefe. Em troca disto, eu fazia cursos de mecânica de bikes e me especializava cada vez mais.”

Com esta determinação, Robério se destacava entre os funcionários e ganhava mais confiança do “chefe”, chegando ao cargo de gerência depois de dois anos. Logo em seguida, ele assumiu o setor de compras das três lojas da rede. Mas uma coisa que nunca deixou de fazer foi revisar as bicicletas – colocar a mão na graxa.

Membro da seleção Olímpica de Ciclismo – USA Cycle Team

Não foi nada fácil para Robério chegar neste cargo, pois a busca desta convocação foi fruto de uma dedicação de quatro anos. Inicialmente, Robério teve que atravessar o país durante vários finais de semana para poder participar como voluntário em competições na Califórnia e Colorado, celeiros do ciclismo norte americano, já que do lado leste não haviam grandes provas de ciclismo em geral, e ele precisava ser visto por todos.

O processo de seleção foi super rigoroso pelos “Boards of Directores”, uma espécie de Comitê designado a escolher os melhores mecânicos do país. Foram exigidos muitos cursos e certificados até nomeá- lo na lista dos convocados. Após a indicação, foi checada toda a sua vida no FBI, que chegou até a consultar atestados de conduta do período em que ele morou no Brasil. Só depois de tudo isso ele foi nomeado oficialmente.

“Eu sabia que poderia chegar lá, tinha esse sonho... Nunca desisti nos momentos difíceis, como meu irmão me ensinou. Sempre procurei fazer o melhor de mim. Existe muita política em todo o processo, é realmente muito difícil, porém, depois de ter alcançado esse objetivo, a gente quase não se dá conta de que chegou lá.”

Em 2007, no Pan-americano do Rio de Janeiro, Robério foi o chefe dos mecânicos da seleção dos Estados Unidos. Ele teve que gerenciar as modalidades do BMX, MTB e Ciclismo, isso sem contar a atenção especial que tinha com as bikes dos principais atletas – aqueles com chances de medalhas. E eles não decepcionaram.

O paraibano comentou como ficou o coração durante as disputas de Brasil X EUA. “Tranquilo... (risos). Acima de tudo sou profissional e é meu nome que está em jogo também. Tivemos um canadense na seleção e o profissionalismo fala mais alto, mas também temos excelentes ciclistas no Brasil e eu torci para ver os dois países no pódio. Deu certo no mountain biking.”

Retorno ao Brasil e as diferenças dos dois ciclismos

Quando perguntado sobre um possível retorno ao Brasil, Robério relata: “é muito difícil responder isso. Lá não temos muito tempo para pensar em programar o futuro, ele simplesmente acontece. Hoje poderia viver bem no Brasil, mas sou bem casado e tenho duas filhas americanas.”

“O que falta no Brasil em tecnologia é a informação. Simplesmente isto. Mas o problema maior é financeiro, já que nos EUA se paga bem e os mecânicos são valorizados, e por isso trabalham melhor. Para comparar, uma manutenção de uma bike no Brasil custa entre R$ 20,00 a R$ 150,00, enquanto nos EUA gira em torno de US$ 250,00. O trabalho sério é reconhecido. Mas o mecânico do Brasil também tem que buscar esse profissionalismo. Se não, nunca vai ganhar o que merece. E não tem essa de que 'aqui as coisas são diferentes'. Tem que correr atrás para se informar, ler catálogos, revistas e participar de seminários e cursos técnicos voltados ao segmento. Na internet tem páginas que você pode traduzir de qualquer língua para o português. Tudo bem que não é uma tradução 100% correta, mas dá para ter uma noção. Afinal, a linguagem da mecânica de bike é uma só.”

Os projetos

“Ajudar os outros me deixa feliz no trabalho. Da mesma forma que eu tive a honra de trabalhar com atletas de altíssimo nível, como Michele Jones, campeã do Ironman, também quero que outros tenham esta oportunidade. Por isso continuo ajudando meus amigos mecânicos do Brasil, enviando vídeos com novidades e dando apoio técnico pela internet. Nós temos potencial e material humano de sobra. O que falta é o apoio. Deixá-los informados é o objetivo.”

Reconhecimentos

Além de fazer parte do USA Cycle Team, Robério também conquistou o mais importante prêmio da Park Tool, que até hoje só saiu apenas para quatro lojas de departamento dos Estados Unidos. Seria uma espécie de honra ao mérito dos mecânicos de bicicletas ou o Oscar da mecânica de bicicleta.

Última façanha

Em 2010, ele instalou um grupo Dura Ace Di2 numa bicicleta de triathlon de um famoso atleta americano. Pode parecer comum, mas a instalação foi numa Quintana Roo, cuja nenhuma bicicleta da marca estava preparada para receber tal equipamento. A ação chamou a atenção de vários atletas do país, que solicitaram a montagem em suas bikes. Tamanha repercussão na internet chegou à fábrica, que publicou em seu site oficial o fato, parabenizando-o. Robério foi chamado para ser o consultor, desenvolver e opinar em novos projetos da linha 2011 da marca para receber o sistema Di2.

Sobre Robério

Atualmente, Robério mora na Flórida, onde gerencia uma famosa loja no sul de Miami. Aos 38 anos, seus principais troféus conquistados estão em sua casa: a família. A esposa Ana Karla e as filhas Priscilla e Olívia, que, segundo ele, são as principais razões da sua vida.

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