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Um presente especial

Revista Bicicleta por Antonio Olinto
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19/05/2015
Um presente especial
Foto: Rafaela Asprino / Antonio Olinto

Nunca achei uma boa coisa fazer aniversário no Natal. Além de sofrer forte concorrência com “Outro aniversariante”, tinha que ouvir sempre a mesma história: “esse brinquedo aqui é para os dois: Natal e aniversário”...

Neste ano recebi um presente adiantado do meu sogro, o Sr. Orestes. Ele pegou meu arquivo de fitas VHS cheias de fungos e mandou fazer cópias digitalizadas de todas as entrevistas que fiz para TV desde a volta ao mundo.

Revendo este clipping, pude observar claramente como a ideia do cicloturismo tem evoluído nos últimos 20 anos. Imaginem que em 1993, quando me propus a fazer uma viagem de bicicleta por um ano pela Europa, isso era notícia em um jornal de âmbito nacional anunciado pela própria Marília Gabriela. O cicloturismo hoje está tão difundido que duvido que uma viagem como a que pretendia causasse o mesmo impacto.

As entrevistas feitas depois da volta ao mundo demonstram o quanto a televisão massacra as ideias para que caibam nos poucos minutos de programação entre os intervalos comerciais. Isso sem falar naqueles entrevistadores que querem falar mais que o entrevistado. É fácil concluir que não é pela TV que conseguimos passar uma ideia. 

Relembrei de cada entrevista, mas tem uma que nunca realmente esqueci. Foi no Programa da Silvia Popovic, se nunca ouviu falar é por que é jovem, pergunte para seus pais. Tenho certeza que se lembrarão de uma apresentadora um pouco fora do peso e seu programa temático que ia ao ar todas as tardes de segunda a sexta.

Naquele dia o tema era “apostei tudo num sonho”. Estranhamente, todos os outros convidados tinham o sonho de ser ou já eram um cantor famoso. Ou seja, “ser famoso” é tudo na vida... Que posso dizer além de “coisas de televisão”!

Vez ou outra os temas daquele programa passavam por conflitos domésticos e no palco, sentado numa grande poltrona giratória, ficava um psicanalista sempre filmado de lado enquanto distribuía, vamos dizer... “opiniões técnicas de programa de final de tarde”.

Quando comecei a falar da viagem, procurei demonstrar o quanto tudo poderia ser simples e acessível a todos que desejassem fazer cicloturismo. Entretanto, percebi nos comentários do psicanalista várias das confusões mais corriqueiras que todo cicloturista enfrenta no dia a dia da viagem. É interessante como pessoas do mundo inteiro fazem piadinhas e comentários tão parecidos. 

Quando contei que fiz a volta ao mundo de bicicleta, ele comentou rindo: “por que não de moto, né?”

Esse comentário só perde para a piadinha campeã mundial em popularidade: “E no mar, você foi pedalando também?”

Como ouvi coisas parecidas milhões de vezes, era simples para eu contornar a piada e começar a demonstrar, através de histórias da minha experiência, as vantagens de viajar de bicicleta. Falei de liberdade, saúde, autoconhecimento e, principalmente, sobre a magia da bicicleta ao atrair as pessoas e o valor que isso tem para alguém que quer conhecer o mundo. A Silvia parecia maravilhada com tudo e, ao contrário de entrevistadores como o Faustão, me deixava falar tranquilamente. 

Quando comentei que não tive patrocínio e que acampava e cozinhava todos os dias, percebi que o psicanalista estava demorando para compreender minhas ideias ao fazer outra pergunta com um sorrisinho: “Você estava na França e comia de fogareiro ao invés de comer aquela comida?”

Parecia que ele não tinha ouvido nenhum dos meus argumentos e tive que responder com algo quase contundente, expliquei: “Tudo tem um preço... Na época o que eu queria não era comer comida francesa, e sim viver a liberdade.”

O assunto tomou um rumo culinário e comentei algumas experiências exóticas envolvendo comidas e pessoas, coisas que não seriam possíveis de acontecer em um restaurante ou em um pacote turístico.  
Quando a Silvia descobriu que comecei a pedalar para perder barriga ela riu compulsivamente. Como que buscando minha receita para emagrecer, ela abriu o livro “No Guidão da Liberdade” que eu acabara de lhe presentear. É fácil reconhecer uma pessoa que gosta de ler, pois quando pega um livro ela abre e lê um pedaço ao invés de buscar figuras ou o número total de páginas. 

Por coincidência, percebendo que havia dicas em notas de rodapé, ela escolhe para ler um comentário sobre “comidas de emergência” que tive que comer em momentos críticos. Esta dica fazia parte de uma bela história do livro e aproveitei para contar, “no ar”, de forma resumida.

Eu estava no interior dos EUA e, mesmo com um bom mapa nas mãos, subestimei a inclinação daquela rodovia reta. Cheguei tarde, exausto e com frio na localidade em que deveria comprar meu jantar. Para piorar, descobri que só havia um mercadinho fechado e a sede de uma fazenda. Como só possuía arroz em meu alforje, decidi tentar negociar alguma mistura com o dono da fazenda.

Uma senhora com semblante tranquilo abre a porta, ouve minha história, mas ao invés de me vender alguma verdura, me convida para jantar. Na verdade, a dificuldade extra do caminho, associada ao frio, me levou ao esgotamento, estava zonzo de fome. Ela tinha acabado de jantar e me serviu uma bela refeição com purê, ervilhas, filé, suco e sobremesa. Conversamos muito e, quando me despedi, agradeci sinceramente e comentei que naquele dia ela tinha me salvado. Para minha surpresa ela me responde: “nós temos que tratar bem os estrangeiros, pois a bíblia diz que eles podem ser anjos.”

Os EUA tem maioria cristã evangélica e muitos conhecem bem a bíblia. É provável que ela estivesse se referindo à passagem do Gênesis em que três estrangeiros aparecem na tenda de Abraão e anunciam que sua esposa Sarah, que nunca conseguiu ter um filho quando jovem, ficaria grávida aos 90 anos.

Cada vez que reconto essa história meus olhos se enchem de água, pois na volta ao mundo muita gente me ajudou, as pessoas do caminho é que fizeram com que eu continuasse a viagem, mas somente esta senhora me comparou com um anjo. 

Ao final da história todos ficamos comovidos e tornei clara a incrível diferença existente numa viagem de bicicleta e um pacote turístico. Somente com o surgimento da imprevista necessidade que pode ocorrer toda a bela história. 

Insensível a tudo, nosso amigo psicanalista entra com mais um comentário equivocado e com uma certa “pose” ele diz: “é interessante como o jovem de hoje busca nos esportes radicais um resgate do desafio à morte e blá, blá, blá...”

Respondi de forma imediata, pois o programa estava quase terminando: “o cicloturismo não lhe dá somente a emoção da adrenalina do desafio à morte. Isso pode ocorrer como quando passei por regiões em guerra. Mas, mais que isso, o cicloturismo pode lhe proporcionar aprendizados de vida, como este que acabei de descrever, e que não tem nada a ver com desafiar a morte”. Aquele programa não era ao vivo e pude assistir no dia em que foi “ao ar”. Apesar de me sentir decepcionado por não conseguir fazer o psicanalista compreender minhas ideias, percebi que o roteirista do programa compreendeu. Na edição final que foi “ao ar”, eles cortaram quase toda a fala do psicanalista sobre “desafiar a morte” e deixaram somete meu comentário sobre os aprendizados de vida.

Todo cicloturista sabe que é difícil se explicar para quem nunca fez uma viagem de bicicleta, por outro lado, quem já viajou de bicicleta sabe exatamente sobre o que estou falando.

Percebo que a comodidade e a praticidade da vida moderna, somadas ao medo generalizado, acabaram impondo às pessoas uma forma de conhecer o mundo através da tela da televisão ou do computador. Viver experiências reais passou a ser algo arriscado, pois além de alegrias também podemos sentir tristezas, medos, dores e aflições. Quando opto pela vulnerabilidade da viagem de bicicleta é por que quero viver de forma plena, não é um desafio à morte. 

Desejo que nesse novo ano todos nós possamos realizar nossos sonhos de viagem em uma bicicleta. O cicloturismo é um presente especial que só você pode se dar, não é algo que se compra. Ele tem o poder de entregar aquilo que a televisão não pode... Experiências de vida. 

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