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Uma bicicleta, uma mulher e uma paisagem

Uma mulher só, uma paisagem e uma bicicleta. O que poderia ser mais libertador do que essa imagem? Força, liberdade, solidão e coragem… Mas por alguma razão estranha, eu conseguia imaginar as paisagens, conseguia até ver minha bicicleta nela, mas quando chegava a parte da mulher… Bem, aquela mulher não era eu. Por muito medo, aquela mulher não poderia ser eu.

Revista Bicicleta por Helga Lützoff Bevilacqua
43.866 visualizações
01/02/2016
Uma bicicleta, uma mulher e uma paisagem
Foto: Helga Lützoff Bevilacqua

Era estranho pensar isso de certa forma. Até porque não foram poucas as vezes que eu ouvi “Nossa! Mas você é corajosa!” pelo simples fato de me locomover de bicicleta em uma cidade como São Paulo. Eu aceitava a ideia, inflava o peito e pensava comigo mesma: sim, eu sou corajosa!

Mas coragem - e eu demorei a entender isso - não é fazer o que os outros têm medo de fazer. Coragem é fazer o que você tem medo de fazer. E isso é muito diferente.

Quando meu parceiro atravessou com sua bicicleta a ponte que dava acesso à cidade de Namur, na Bélgica, nós mal nos despedimos. Eu sabia que dali para frente deveria seguir sozinha. Mas não sabia nem por onde começar.

Na minha cabeça vinha uma série de tropeços que tive durante toda a viagem: o GPS errado, minha inexperiência com a mecânica e a cara de riso do meu companheiro ao me ver pegar um mapa de ponta cabeça. Eu tentava inflar o peito dizendo “eu sou corajosa!”, mas era como se não tivesse ar. Pedalei horas por Namur, perambulando feito uma barata tonta. Namur parecia uma cidade sem chão para mim. E eu me sentia a mais perfeita idiota.

Por se tratar de uma cidade localizada na parte “francesa” da Bélgica, Namur conta com a mesma infraestrutura turística da França, ou seja, os Office du Turisme. Foi para lá que eu fui com o objetivo de me encontrar naquela cidade e achar uma nova rota para seguir. De lá, me recomendaram ir até a “Maison du Cicliste”, um lugar bem bacana que oferece uma estrutura completa para ciclistas, com oficina, espaço de lazer, venda de bicicletas usadas e muita informação.

Chegando lá, um moço de vinte e poucos anos bem atarefado mostrou pouca disposição para me ajudar com uma rota. Ele me deu uma série de folhetos de uma rota fechada chamada Ravel, que me levaria até Hoegaarden. Mas não era para lá que eu queria ir. Como eu tinha outro problema, encontrar onde dormir, decidi deixar a rota para o dia seguinte e tentar me acalmar e descansar.

Encontrei um hostel, consegui guardar a bicicleta de forma segura e subi com dois alforjes uma escadaria estreita de madeira, com os degraus bem curtos. Coloquei tudo no armário do quarto e deitei na cama sentindo um monte de lágrimas escorrendo no rosto. Eu havia acordado, brigado, pedalado 50 km até ali, comido uma banana e meia dúzia de amendoins. Eu estava exausta e nada disso importava mais do que o fato de eu ser uma mulher e mulheres não deveriam pedalar por aí sozinhas… E se o pneu furar? E se a corrente quebrar? E se eu me perder? E se quando me perder um estuprador brotar do chão e…

Todas essas questões me torciam os nervos naquela cama e eu não conseguia sentir nada além de desespero. Para a minha sorte, no ano passado hospedei um ciclista belga pela rede do Warmshowers, que se tornou um grande amigo. Consegui contatá-lo no Skype para conversarmos sobre uma rota a seguir, mas quando vi um rosto conhecido na tela de um computador eu desabei a chorar. Tudo o que meu amigo me disse naquele momento foi: “Você precisa comer, parar e descansar. Amanhã estarei aí e você vai chegar em Amsterdam, não se preocupe.”

No dia seguinte, Kristof, que é um belga magro de mais de 1,90, estava na porta do hostel e quando me viu, não disse nada e me deu um abraço. Eu só conseguia chorar e pedir desculpas enquanto ele me dizia: “vai ficar tudo bem”. Fiquei durante quatro dias em Sint Katelijne Waver, uma cidadezinha pacata no meio da Bélgica na casa do meu amigo. Com uma dieta a base de waffles, chocolates, cervejas trapistas e kriek (uma espécie de cereja que serve para fermentar cerveja, fazer molhos, doces e basicamente tudo na Bélgica), o meu amigo me convenceu de que para fazer uma cicloviagem você precisa de pernas, vontade e algum conhecimento. Ser mulher é um fator que pouco importa diante disso, se você está na Europa.

Kristof me ensinou a usar o Knooppunten, um sistema de ciclorrotas bem fácil de seguir e que me levou até Amsterdam sem nenhum problema.

“Mas e essa lixinha aqui, você não usa no furo?”, dizia eu com a câmara do pneu na mão. “Esquece! Isso você usa para lixar as unhas!”, Kristof me respondia do outro lado da sala rindo, enquanto mexia no computador. “Só não esqueça de deixar a cola secar um pouco antes de colocar o remendo, isso é o mais importante!”.

Todas as vezes que tentei ser uma mulher incapaz na frente do Kristof, ele só me dizia “vai lá e faz”. Foi assim o meu curso de “mecânica express”. Não existe nada em uma bicicleta que uma mulher não possa fazer. Absolutamente nada. Se você quiser se aventurar, a mecânica da bicicleta é um mundo muito simples e lógico e passa longe de ser uma questão de gênero. Eu acho que você só aprende mecânica fuçando, por isso, acho bacana se você tem vontade de ir viajar, começar a pegar sua bicicleta e colocar a mão na massa. Eu fiz alguns cursos de mecânica para bicicleta bem antes de viajar, mas na hora que furou meu pneu, sempre teve um homem para trocar. Saber a teoria e não a prática em uma cicloviagem equivale a nada. Você precisa mesmo colocar a mão na massa!

Desde que voltei de viagem comecei a olhar a Evita com outros olhos. Agora quero saber mais, descobrir, desmontar, fuçar, aprender.  Ficar com as mãos sujas de graxa não me torna menos mulher em nenhum aspecto. Pelo contrário, me faz sentir bem e sentir que eu também posso ser autônoma no meu caminho.

Dos males, a mecânica, na verdade, era o menor. O que mais me assustava e me tirava a paz era a questão do assédio. Pedalando por São Paulo, já passei por algumas situações desagradáveis que vão desde motoboys me dizendo coisas impróprias no sinal, até um dia que fui seguida por um carro na Avenida Higienópolis. Coisas assim por aqui acontecem. E fico me perguntando se não deveriam acontecer? Afinal, de um lado a mídia infla a imagem da mulher como um objeto de beleza e prazer, do outro segue cultivando a sociedade do medo. É tudo muito sutil e você acha que não deve responder à altura a violência que é estar caminhando pela rua e ouvir um sonoro “delícia”. Até você estar em uma situação onde se sente vulnerável e começa a ver o helicóptero do Datena sobrevoando a Bélgica e na televisão o anúncio: “ciclista brasileira estuprada por maníaco belga é encontrada morta em rota ciclística”.

Olhando de longe, os medos que eu carregava do Brasil e nem sabia me convenceram de que estamos em uma sociedade bastante doente na questão de gênero. E isso não é papo de feminista. Isso é para parar e pensar mesmo. Eu não gostaria que a minha filha sentisse qualquer tipo de restrição ou medo por simplesmente ser uma mulher.

Gostaria que ela fosse livre para andar onde quisesse e ser mulher não fizesse a menor diferença. E ser completamente livre é algo que esbarra na próxima esquina, quando sem pedir, alguém te “elogia” como se você fosse um pedaço de carne à venda no mercado.

Em 1.501 quilômetros que pedalei não encontrei nenhuma outra mulher fazendo isso sozinha, infelizmente. Mas não encontrei nada, absolutamente nada, que me dissesse que mulheres não podem ou devem pedalar sozinhas. Pelo contrário.

Encontrei muito respeito, muita ajuda e muita solidariedade. Encontrei olhares cuidadosos e curiosos de outras mulheres que também me falaram sobre a vontade de viajar e eu disse: “Vai! Simplesmente vai!”.  Encontrei Christen, uma holandesa que havia viajado sozinha até a França e me hospedou em sua casa, onde a gente conversou e fofocou muito sobre pedalar sozinha na estrada e eu vi que existem vários medos em comum. Pedalar sozinha (o) é uma sensação que todo mundo deveria experimentar. Mesmo. Independentemente do sexo.

Em nenhum momento ser mulher foi uma questão enquanto pedalei sozinha durante a viagem e essa foi uma das sensações mais libertadoras que senti. Não pelo fato ter superado o meu medo, mas pelo fato de não me sentir limitada por ser uma mulher.

Quando cheguei no Brasil, recebi do meu parceiro que ficou em Namur várias fotos onde havia uma mulher só, uma paisagem e uma bicicleta. Eu então me dei conta de que essa mulher era eu. Aquela bicicleta era Evita e eu havia conseguido.

Espero que essa imagem inspire muitas outras mulheres, como me inspira: a não se limitarem, a fazerem o que têm vontade de fazer e a serem felizes da maneira que são. 

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