REVISTA BICICLETA - Uma história de Hans Fischer - O raio quebrado que deu a vitória à equipe adversária
Baixe Gratuitamente a Edição Digital de Janeiro / Fevereiro 2017 da Revista Bicicleta!
Pneus Kenda

O Portal
da Bicicleta

SHIMANO
Revista Bicicleta - Edição 71

Assine

Revista Física
Revista Virtual



+bicicleta - Histórias da Bicicleta

Uma história de Hans Fischer - O raio quebrado que deu a vitória à equipe adversária

Quando o seu melhor amigo quebra um raio você para e presta o auxílio necessário. Talvez, se estiver em competição, apenas lamenta e deseja boa sorte, e segue torcendo para que tudo dê certo. Mas, se você estivesse correndo contra a equipe de Hans Fischer, um dos melhores ciclistas que o Brasil já gerou, a sua postura seria completamente diferente.

Revista Bicicleta por Eduardo Sens dos Santos
8.839 visualizações
27/11/2015
Uma história de Hans Fischer - O raio quebrado que deu a vitória à equipe adversária
Foto: © Reprodução

Hans Fischer hoje é o nome de uma competição tradicional de ciclismo que ocorre anualmente em Pomerode, a cidade mais alemã do Brasil, situada a 170 km de Florianópolis. Mas há vinte e cinco anos, quando se pronunciava este nome no Vale do Itajaí, não havia uma só alma que não estufasse o peito de orgulho para lembrar de um dos mais completos ciclistas de sua era.

Hans nasceu em 29 de janeiro de 1961. Aos quinze anos fraturou o joelho ao cair de um cavalo, recebeu como prescrição fisioterápica o ciclismo e, para a felicidade do esporte nacional, ali deu suas primeiras pedaladas. Um ano depois, já despontava como um forte atleta e ingressou na equipe de ciclismo do município. Venceu a primeira prova que disputou, com uma Monark de passeio, com o guidão virado para baixo, em um percurso de 20 km e desde então, não parou mais. Já com uma Caloi Sportissima, ganha do pai após insistentes pedidos, a carreira profissional começou. Foram diversas participações vitoriosas em Jogos Abertos, Campeonatos Brasileiros, Argentina, Venezuela, Colômbia e inclusive campeonatos Pan-Americanos, além de duas participações em Olimpíadas, as de 1980, em Moscou, e de 1984, em Los Angeles. Sim, a parede da sala de Hans só aguentou o peso dos troféus e das medalhas por milagre.

© Caloi Divulgação

© Reprodução Revista Placar

Sempre tive uma grande curiosidade pela figura deste ciclista, considerado um dos mais completos de sua geração. A morte prematura, aos 27 anos, sete meses depois da morte do irmão também ciclista, e a homenagem dos organizadores da Clássica de Pomerode, atiçaram ainda mais a curiosidade. Pus mãos à obra e passei a entrevistar antigos amigos e a ler tudo o que já foi escrito a seu respeito. Hans definitivamente merecia toda a minha curiosidade. E muito mais. Não houve quem não o elogiasse, quem não se sentisse emocionado, quem não embargasse a voz ao ressuscitar na memória o Garça, apelido do qual aquele menino de canelas finas, magro e esguio, com quase dois metros de altura, não tinha como fugir.

Quando se fala em descendentes de alemães, principalmente os do Vale do Testo, rio que serpenteia por entre casinhas enxaimel cortando Pomerode, é fácil cair no lugar-comum. Hans Fischer também era um típico descendente da Pomerânia. Loiro, olhos azuis, tímido ao primeiro contato - mas, como sempre, depois de uns canecos de chope ou de ganhar segurança com uma amizade mais sólida, um amigo excepcional, fiel e, mesmo tão vitorioso, sempre humilde. Já atleta olímpico e multicampeão, nunca deixou de visitar os amigos antigos. Foi numa dessas visitas, aliás, que aproveitou a companhia da própria mãe para presentear os anfitriões Mónica e Jair Braga com o típico marreco recheado, que ainda hoje é preparado com a mesma receita de mais de 150 anos atrás nos domingos das famílias pomerodenses e dos inúmeros restaurantes que atendem aos turistas na cidade.

O Alemão - outro de seus apelidos - não corria para vencer os outros, mas para vencer a si mesmo. Os outros é que corriam para vencê-lo. “Entrar numa prova contra o Hans já desanimava”, me revelou um atleta da época. Era praticamente impossível chegar à frente de Hans, fosse na pista, nas provas de estrada, nas provas de contrarrelógio ou mesmo na tradicional Subida do Morro da Cruz, em Florianópolis, a menos que algo diferente do script ocorresse. 

Não era apenas uma dádiva da natureza. Hans treinava forte. Eram frequentes os treinos de Florianópolis a Lages, um trajeto de 200 km, com a Serra Catarinense nos primeiros 60 km, até mais de 1.200 m sobre o nível do mar. Achou muito? Pois o Alemão colocava esferas de chumbo no interior do quadro para apimentar a brincadeira, e isso se não decidisse voltar no mesmo dia pelos mesmos 200 km... Afonso Gentil Ramos, ciclista e seu amigo de longa data, lembra de um treino de 300 km em que acompanhou Hans Fischer. Sim, ser amigo de um ciclista deste nível exigia algum esforço. Mas o ponto alto só ocorria mesmo no final do treino, quando dividiam uma jarra de caldo de cana ou uma garrafa de Coca-Cola.

Depois de vencer o Mundial de Júniores na Argentina e sagrar-se recordista Pan-americano de contrarrelógio, um grande reconhecimento veio pela contratação de Hans Fischer pelo Banco do Estado de Santa Catarina, como bancário. Na verdade, a contratação não passava de uma forma, digamos pitoresca, bem brasileira, de garantir um patrocínio ao atleta. O Besc contratou Hans como funcionário da área de marketing do banco. Não havia muito o que fazer nesta área, porque as contas bancárias de todos os servidores públicos do estado eram obrigatoriamente gerenciadas pelo Besc. Mas por esta válvula de escape Hans tinha um bom salário garantido, defendia a equipe da Associação Atlética do Besc e, além de não ter responsabilidades ou carga horária fixa, podia viajar e sair para seus treinos, com a garantia de que, se chegasse atrasado ao expediente, alguém designado pela chefia bateria seu ponto.

Numa destas viagens - para São Paulo, em 1981, onde correria mais uma importante prova do calendário nacional - Hans Fischer treinava com a equipe quando, como era de costume, resolveu aprontar mais uma de suas brincadeiras. Pedalavam nas proximidades da praça Pan-Americana à noite e Hans resolveu mexer com um travesti que fazia ponto no local. Jogou um pouco de água de sua caramanhola no cidadão, que ficou naturalmente indignado com aquela afronta em seu local de trabalho. Mas uma outra travesti, colega de profissão daquela encharcada, não deixou por menos: agarrou Paulo Jamur, o próximo ciclista do pelotão, derrubou-o no chão com bicicleta e tudo e uma briga começou. Alguns arranhões e muitas gargalhadas depois, Fischer, que era uma festa em pessoa, já de banho tomado, no alojamento, voltava a ser o de sempre: lia algumas páginas de sua indefectível Bíblia - era luterano, casado com a filha de um pastor - e dormia o sono dos justos. No dia seguinte, na competição, talvez lembrasse dos salmos bíblicos e se inspirasse neles. Mas quem sabe o medo do travesti mesmo fosse mais decisivo na linha de chegada.

Mas foi em 1982, nos Jogos Abertos de Santa Catarina, em Itajaí, que Hans Fischer provou realmente que era um atleta diferenciado. Conseguiu fazer até mesmo o impossível. Tamanha era sua competência que a equipe adversária venceu justamente por culpa dele. Não, você não leu errado. O Alemão era tão bom que, mesmo inconscientemente, ajudou a equipe contrária a vencer a prova de estrada naquele ano.

Naquela época o ciclismo nos Jogos Abertos tinha duas modalidades: Quilômetro Contrarrelógio e Estrada. Na primeira modalidade, Blumenau, equipe de Hans, tinha feito o 1º e o 2º lugar, somando 22 pontos. A equipe de Florianópolis tinha somado apenas 11 pontos. Placar: 22 x 11 para Blumenau. A vitória geral parecia garantida para a equipe de Hans, a menos que na segunda etapa, na prova de Estrada, Florianópolis conseguisse os três primeiros lugares no pódio, um feito praticamente impossível. Impossível principalmente porque alinhado na largada estava lá, já concentrado, Hans Fischer.

Quando se tratava de competições, Hans era extremamente técnico e metódico. Revisava completamente a bicicleta, eliminava todo o peso extra, lubrificava, aferia a pressão dos pneus, procurava possíveis furos e, só quando estava completamente satisfeito, rumava para debaixo do pórtico de largada. Para aquela etapa, que seria disputada num asfalto recém-inaugurado, Hans optou por retirar oito dos raios da bicicleta, para torná-la mais aerodinâmica. A maioria das bicicletas da época tinha 36 raios. Hans resolveu correr com 28. 

Como previsto, logo de início, embora houvesse ainda 80 km pela frente, o ritmo foi frenético. As demais equipes pareciam assistir de camarote à tensa batalha campal travada entre os times de Blumenau e Florianópolis. Hans atacava por Blumenau, juntamente com Marcelo Greuel, Ademir Haut, Emidio Esser e Ênio dos Santos. De Florianópolis, Afonso Gentil, Franco Sala, Alexandre Fullgraf, Nilson Macedo e Murilo Krüger contra-atacavam, com força e resistência impressionantes. Nenhuma fuga conseguia sucesso. Mesmo parecendo impossível virar o placar, a equipe de Florianópolis não baixava a guarda e no pelotão os pneus zuniam ao girarem pelo asfalto. As trocas de marchas lembravam uma cavalaria se aproximando. Ninguém falava. Poucos respiravam.

Acontece que, faltando ainda três quartos da prova, Hans Fischer quebrou um raio de sua bicicleta. Se estivesse com todos os 36 raios, provavelmente a quebra não traria grande prejuízo. Mas como estava com apenas 28 raios, a roda imediatamente empenou e tornou impossível continuar. O mecânico da equipe de Blumenau chegou, mas havia pouco a fazer. Foram necessários alguns minutos para que uma nova roda fosse alcançada e trocada. 

Um lampejo da vitória se instalou quando os adversários constataram o problema mecânico de Hans. O momento era único. Milton Della Giustina dirigia a equipe de Florianópolis. E não hesitou. Orientou seu time a acelerar ao máximo. Era a chance de ouro contra a equipe de Hans naqueles Jogos Abertos. Afonso Ramos, um dos mais experientes do time, captou a intenção do treinador e chamou os demais para colocarem a cara ao vento. Era agora ou nunca. “Demos a morte”, me disse Afonso, mais de trinta anos depois, usando o jargão ciclístico. “A partir dali a corrida se transformou. Colocamos toda a força nos pedais, giramos enlouquecidamente; sabíamos que, se o Hans conseguisse voltar a tempo nossas chances seriam pequenas de reverter o placar”. O Alemão vinha se aproximando, com sangue nos olhos, atrás do pelotão. Era uma questão de tempo. Não eram apenas pernas, mas sim pistões bombeando implacavelmente os pedais em busca de mais velocidade. O rosto se contorcia de dor. Quem assistia prendeu a respiração. Há quem jure que os relógios pararam de bater, que os pássaros se recolheram, que o sol ele mesmo parou para assistir a disputa.

Não é por menos. Faltando poucas centenas de metros para o final da prova, Hans se aproximou perigosamente, com seu estilo rápido e eficiente. O pelotão olhava para trás a cada duas pedaladas. A equipe de Florianópolis, embalada pelo receio de que Hans se aproximasse, aumentou ainda mais a cadência. E de fato conseguiram. Hans Fischer perdia esta, mas ironicamente se consagrava. Se não fossem seus os raios quebrados, a equipe adversária não teria vislumbrado a oportunidade e não teria sido impulsionada pela remota possibilidade de superá-lo. A quebra de Hans Fischer deu a vitória à equipe contrária. Florianópolis, com Murilo Krüger, Franco Sala e Afonso Gentil Ramos, preencheu de heroísmo todos os três lugares do pódio, abocanhando 29 pontos, o suficiente para a improvável virada de placar e para levar para a capital catarinense o troféu naquele ano. 

A emoção tomou conta da premiação. E com justiça. A vitória espetacular tinha gosto especial. Hans Fischer, naturalmente triste, como os demais da equipe, não levou mágoas para casa. Como ídolo daquela geração que foi, também tinha o dom dos grandes atletas em geral. Cumprimentou os vencedores pelo feito. Já pensava na próxima competição. E talvez em nunca mais retirar tantos raios de uma bicicleta. 

Garça, Alemão ou simplesmente Hans, não importa. Seu sorriso largo, seu carisma, sua vontade de vencer eram suas marcas registradas, que só perderam o brilho quando sua vida se tornou uma verdadeira tragédia. Seu irmão, o também ciclista Edson Fischer, foi atropelado e morto em frente à casa da família por um caminhão carregado de madeira para a construção de uma igreja. O motorista veio a se tornar anos depois, por ironia do destino, prefeito da cidade. Então veio o divórcio e o abandono das competições. Hans havia descoberto depois de diversos exames que padecia de um grave problema cardíaco na válvula mitral. Geralmente na fase anaeróbica dos exercícios mais severos, perdia o fôlego e afogava; seu coração deixava de circular sangue novo pelos pulmões. Numa ocasião chegou a ser levado às pressas para o hospital, quase morto, mas se recuperou. Sem cura, o problema foi se agravando, até que em 13 de dezembro de 1988, em sua residência, foi encontrado morto, aos 27 anos de idade.

Hans Fischer não foi só um atleta à frente de seu tempo. Elevou o nível do ciclismo nacional com sua dedicação e força de vontade. Trouxe medalhas, transportou o nome do Brasil mundo afora, amadureceu o esporte. Duelou com os grandes, ensinou os pequenos, cativou a todos e amou tudo o que fez. Os paralelepípedos de Pomerode sabem: se o Rio do Testo vez por outra transborda, não é a força da natureza; são as estradas chorando em silêncio com saudades daquele arrepio que Hans Fischer lhes fazia ao pedalar. 

Curtiu esse post?

Quer receber mais conteúdo sobre bicicleta e ciclismo em sua casa? Então clique aqui conheça nossas ofertas de assinatura.

Comentários Facebook
Comentários
Nenhum comentário. Seja o primeiro a comentar.

Para postar seu comentário faça seu login abaixo.

E-mail
Senha

 

Cadastre-se Aqui | Esqueceu a senha?

Edições On-lineCadastre-se Esqueceu a senha?
E-mail
Senha
Vídeos

 

 

Para fechar o banner, clique aqui ou tecle Esc.

Revista Bicicleta 2012 © Todos os Direitos Reservados