REVISTA BICICLETA - Uma travessia dos Alpes de bicicleta com crianças
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Revista Bicicleta - Edição 86

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Uma travessia dos Alpes de bicicleta com crianças

Um grupo de nove pessoas, sendo quatro ciclistas e duas crianças. Pela frente, 500 km percorrendo quatro países: Alemanha, Áustria, Suíça e Itália. Fazer a TransAlp, como é conhecida a travessia dos Alpes, foi a realização de um sonho. No dia 14 de junho de 2015, partimos para esta jornada de cinco dias de bicicleta: saímos da Bavária, ao sul de Munique, com destino ao Lago de Garda, região norte da Itália.

Revista Bicicleta por Fábio Nitschke Gomes
4.953 visualizações
01/04/2016
Uma travessia dos Alpes de bicicleta com crianças
Foto: Fábio Nitschke Gomes

Nosso trajeto acompanhou parte da Via Claudia Augusta, um dos antigos caminhos do Império Romano, valorizando trechos off-road e adicionando algumas belas montanhas no caminho. Fomos em dois casais – minha irmã mora na Alemanha e nos acompanhou com seu marido – e rebocamos nossos dois filhos, gêmeos de quatro anos, em alguns trechos.

A TransAlp foi um desafio enorme para nós: pedalamos 500 km e vencemos mais de 10.400 metros de altitude acumulada no percurso. Pelo caminho, cordilheiras e vales, estradas e ciclovias, asfalto e trilhas, vilarejos e plantações, calor do verão e frio da montanha, dias lindos e chuva forte. Dentro de nós, desafio e superação, sofrimento e alegria, dor e prazer, momentos de desespero e momentos de puro êxtase. Uma vivência tão rica que levamos muito tempo para processar e da qual vamos nos lembrar para sempre.

Preparativos

Foram seis meses de planejamento e preparação. A logística incluiu aluguel de bicicletas e de um carro de apoio, conduzido por meus pais e minha sobrinha, que transportavam boa parte da bagagem de uma cidade a outra, além dos meninos e do bike trailer nos trechos que eles não percorreram conosco. Embora eles não nos acompanhassem durante o percurso, este arranjo permitiu que nos encontrássemos para almoçar e à noite, na chegada em cada cidade.

Para encarar as exigências físicas, comecei a me preparar alguns meses antes: os passeios semanais rebocando os meninos no bike trailer ganharam várias subidas, e, para garantir, aderi a um forte grupo para alguns pedais noturnos. Uma escalada do Pico do Jaraguá (o ponto mais alto da cidade de São Paulo) ajudou a entender previamente o ritmo de subidas longas. No total, foram 1.000 km de pedal "reforçado" no período que antecedeu a viagem.

Um dos diferenciais da viagem foi o nosso roteiro incluir diversos trechos off-road: caminhos ao longo de rios, plantações, singletracks e também algumas trilhas "casca-grossa". Precisávamos de bicicletas versáteis, com que pudéssemos atravessar os trechos irregulares com estabilidade e segurança, mas sem sacrificar o conforto necessário para vencer toda a distância. Eu utilizei uma Specialized Stumpjumper FSR Elite 29, e minha esposa, uma Haibike Xduro AllMTN RC 27.5 (com auxílio elétrico, que possibilitou que ela cumprisse todo o percurso mesmo sem tanto preparo) – que atenderam plenamente esses requisitos aparentemente inconciliáveis.

Desafio: como transformar bikes top, de suspensão total e nascidas para as trilhas, em uma versão mais "estradeira", que permitisse acomodar equipamentos, bagagem e suprimentos necessários para cada dia? A resposta:

• Utilizamos bagageiros Thule, que têm um genial sistema de fixação que dispensa furação no quadro, tornando-se compatíveis com virtualmente qualquer bicicleta existente – inclusive as de suspensão total.

• Com os alforjes Thule, o conjunto mostrou-se robusto, extremamente confiável e totalmente silencioso, mesmo nas condições mais severas – tanto do terreno quanto do clima.

• Também utilizamos handlebar mounts da mesma linha, com pontos de fixação para bolsas de guidão e suportes para smartphone (utilizado na navegação) e action cam para filmagem do percurso.

• O conjunto foi complementado por bolsas de selim com ferramentas e lubrificante.

• Para transportar os meninos, levamos nosso Bike Trailer Thule Coaster daqui do Brasil, junto com os demais equipamentos.

 

O trajeto, dia a dia: destaques e desafios

Dia 1: o trecho alemão – começando muito bem

de Fischbachau a Leutasch

117 km, 2.014 m de altitude acumulada

10 h 35 min de tempo total de percurso

 

Um grande começo no meio de muita natureza, atravessando colinas e florestas de uma belíssima região rural, percorrendo trilhas ao lado de rios e estradinhas secundárias que cortam pastagens. Passamos por lagos, vilarejos típicos e até um luxuoso campo de golfe. Desde cedo, um terreno acidentado, com muitas subidas – e descidas velozes. Aos poucos, vamos nos aproximando das montanhas imponentes que vão crescendo no nosso horizonte.

Já em plenas montanhas "pré-Alpes", após 80 km percorridos, um banho no belíssimo lago Walchen, um dos maiores e mais profundos lagos alpinos da Alemanha, recarregou as energias para encararmos o trecho final: uma subida razoável de categoria 4 marca a entrada da Áustria e o início da região do Tirol. A categoria de uma montanha é citada quando a subida é significativa. No ciclismo, as montanhas mais difíceis são categorizadas por um padrão internacional de acordo com sua extensão e inclinação: quanto mais longa e íngreme, mais desafiadora é a escalada. Começam com a categoria 4 e chegam até a categoria 1, as mais exigentes. Como referência, a estrada para o Pico do Jaraguá, em São Paulo, é uma subida de categoria 3, com 300 m de altitude acumulada em uma subida de pouco mais de 4 km.

Vencer essa escalada após 100 km pedalados foi o maior desafio do dia, coroado por uma belíssima estrada, ladeada por montanhas altíssimas. Com as forças no fim, atravessamos os últimos 12 km até o nosso ponto de chegada.

 

Dia 2: dia chuvoso na Áustria – e quase desistimos no caminho

de Leutasch a Prutz

97 km, 2.350 m de altitude acumulada

11 h 05 min de tempo total de percurso

 

O dia chuvoso começou com uma escalada de categoria 4 seguida de uma longa descida: mais de 600 m de desnível até cruzarmos a pequena cidade de Telfs. Em seguida, passamos por um dos maiores desafios da viagem: valorizando trechos off-road, o sistema de navegação nos jogou para o alto de uma imensa montanha que circundava a cidade.

Foi uma escalada dura, acumulando quase 400 m de altitude em apenas 6 km, uma subida de categoria 2 em uma trilha úmida. Em determinado ponto, uma placa marcava o "fim da trilha", nos obrigando a carregar as bicicletas morro acima até reencontrar um trecho pedalável. Em alguns momentos a combinação de alta montanha com tempo nublado e chuvoso confundia o GPS e não achávamos o caminho. Após derrapar em uma poça de lama, perdi contato visual com o resto do grupo antes de uma bifurcação e precisamos nos falar por telefone para reencontrar. E a trilha seguia... No total, foram 14 km atravessando a montanha, finalizados com um desvio de 5 km adicionais numa rodovia após uma indicação (humana) errada.

Esta montanha nos custou um preço alto. Só paramos para almoçar às 15 h, com apenas 35 km percorridos. Foram 5 h para vencer um terço da meta do dia. Ainda teríamos mais de 60 km e 1.500 m de altitude pela frente. Muito cansados, sujos, molhados e com frio, consideramos seriamente desistir do trecho restante. Mas, parcialmente recuperados após 1 h 30 min de descanso, resolvemos ir em frente.

Embora em aclive constante, dali em diante o percurso não teve mais nada de hostil, percorrendo um longo vale ao lado do rio Inn e atravessando diversas pequenas e simpáticas cidades alpinas. Quase 10 horas após a partida e com 75 km pedalados, fizemos uma rápida pausa ao lado de ruínas da Via Claudia Augusta original, pouco antes de Landeck, a última cidade antes do nosso destino.

Já anoitecia. Consumido pelos esforços excessivos do início do dia, me sentia no limite, à beira de uma crise (física e emocional) pela fadiga. Precisei me recompor e buscar forças para percorrer o trecho final. Ainda levamos uma hora para vencer os últimos 15 km. Exaustos, chegamos ao hotel quase às 21 h, para um reconfortante jantar com o restante da família.

 

 

Dia 3: as montanhas da Suíça – três países em um dia

de Prutz a Silandro

99 km, 2.422 m de altitude acumulada

10 h 50 min de tempo total de percurso

 

Reenergizados, partimos rebocando os meninos no bike trailer em direção à pequena cidade de Pfunds, onde eles voltariam ao carro de apoio. Foi um trecho relativamente curto, cerca de 20 km, atravessando vales rurais, ao lado de altíssimas montanhas.

Depois de algumas montanhas de categoria 4, o grande desafio do dia viria logo a seguir: atravessar um trecho de montanhas da Suíça, incluindo uma longa e íngreme escalada de categoria 2 que, vencidos 360 m de altitude, culmina próximo à tríplice fronteira com a Áustria e a Itália. Chegávamos ao trecho mais alto (e frio) de nossa jornada.

Após encontrar toda a família para um delicioso almoço ao lado do lago Reschen/Rèsia, cartão postal da TransAlp que marca o início do trecho italiano, iniciamos um longo trecho de descida, recompensa que começou com um declive suave de 10 km para 600 m. Até a cidade de Glorenza (a menor da região, fundada há 700 anos e totalmente murada até hoje), seguimos em um trecho exclusivo para bicicletas, atravessando plantações e pequenos vilarejos italianos. Depois dos desafios que tínhamos passado, a sensação foi de ser a melhor descida da nossa vida.

O trecho seguinte seguiu em meio às montanhas, ao lado de plantações e rios, num percurso tranquilo e agradável. No fim do dia, nem uma chuva mais forte, nem a quebra de uma corrente, nem uma escalada de 130 m até chegar ao hotel prejudicou os ânimos. Colocamos roupas e equipamentos para secar e fomos à cidade jantar com todo o grupo.

 

Dia 4: só alegria na Itália – os trechos mais bonitos da viagem

de Silandro a Caldaro

87 km, 868 m de altitude acumulada

9 h 35 min de tempo total de percurso

 

O que seria o nosso dia mais leve da TransAlp começou com um sol forte e os meninos nos acompanhando no bike trailer por cerca de 40 km, onde percorremos lindos trechos ao lado de rios e trens, atravessando florestas, plantações e vilarejos, alguns dos trechos mais bonitos da viagem. No caminho, paramos para eles brincarem num parquinho e apreciarem uma interessante queda d'água em um trecho urbano. Chegamos à belíssima Merano para almoçar com toda a família reunida.

Após 20 km em uma longa ciclovia em direção a Bolzano, alcançamos o nosso trecho de subida – toda nossa altimetria do dia seria enfrentada no final. Atravessamos uma linda montanha (onde encontramos a maior concentração de ciclistas de toda a viagem) em direção a Appiano/Eppan.

Em seguida, outra montanha coberta de plantações, para então entrarmos em mais uma trilha off-road, em meio a uma densa e fabulosa floresta. E outra boa subida para chegar a Caldaro. Atravessamos a cidade e desfrutamos a bela vista do vale e cordilheiras vizinhas, mas nosso hotel ficava em um local bastante elevado e ainda exigiria mais pernas para o trecho final – após a cidade, mais uma montanha de categoria 4 pra fechar o trecho.

 

Dia 5: Nas Dolomitas de Brenta – e mais momentos inesquecíveis

de Caldaro a Riva del Garda

103 km, 2.753 m de altitude acumulada

10 h 20 min de tempo total de percurso

 

Recompensa por dormir em um local alto, iniciamos o último dia com uma longa descida para retornar ao vale, com visuais e sensações incríveis. Percorremos um longo trecho por estradinhas secundárias, em meio a extensas videiras e ao lado de belíssimos paredões de pedra, vez por outra ultrapassados por grupos em motos ou em conversíveis antigos. A região é propícia para viagens panorâmicas, e não só para ciclistas.

Nossa maior superação do dia – e possivelmente de toda a viagem! – chegaria após os 30 km iniciais, passando a cidade de Mezzolombardo: a escalada em direção às monumentais Dolomitas de Brenta. Subida de categoria 1, somando 14 km de extensão e quase 800 m de altitude acumulada, mostrou-se um desafio potencializado com os mais de 400 km já pedalados nos dias anteriores. Com algumas paradas para recuperar o fôlego e repor as energias, somente este trecho nos consumiu 3 h 30 min de tempo total.

O esforço gigante foi plenamente recompensado por visuais inacreditáveis que, a partir da cidade de Andalo, se descortinaram no longo trecho percorrido nas vizinhanças das famosas formações. Foram 30 km de uma descida sensacional, passando por lugares incríveis como o Lago de Molveno.

O trecho final nos guardava um último desafio: vencer o Passo del Ballino: mais 10 km escalando uma montanha de categoria 2. Precisávamos de uma pausa antes do esforço derradeiro, e passávamos pela pequena cidade de Campo Lomaso quando nos deparamos com um antigo muro de pedras onde uma discreta placa indicava um "ristorante". Foi quando o acaso nos premiou com um momento inesquecível.

Com vista para montanhas e com extensos canteiros de rosas, descobrimos uma autêntica "villa" do século XIX, repaginada como o charmoso hotel Villa di Campo. Ficamos ali por quase duas horas, conhecendo e curtindo o local. Em meio a um jardim de sonhos, duas rodadas de prosecco celebraram a conquista que estava prestes a se concretizar.

A proximidade com o fim da jornada forneceu a força extra que as pernas pediam. Ultrapassada a última montanha, menos de 20 km nos separavam do nosso ponto de chegada. Desfrutamos da última e longa descida com um sorriso que não cabia no rosto. A cada vilarejo e a cada curva, o Lago de Garda se tornava mais nítido e próximo. A nossa TransAlp estava chegando ao fim.

Atravessamos parte da cidade de Riva del Garda, nosso destino final, e logo chegamos à beira do lago. Da ciclovia, avistamos a praia de pedra onde nossos filhos nos aguardavam junto aos meus pais e minha sobrinha. Um arrepio tomou conta do corpo, e as lágrimas correram livres, externando uma emoção infinita pelo sentimento de conquista e superação.

A chegada foi puro êxtase, e ter nossos filhos e o restante da família juntos tornou aquele momento ainda mais especial. Conseguimos! Foram 500 km, 5 dias, 4 países e a realização de um sonho!

Seguindo a tradição, entramos nas águas geladas do Lago de Garda, selando a conclusão dessa inesquecível jornada.

Por que levar as crianças na TransAlp?

Viabilizar a participação dos nossos filhos nesta jornada foi estimulante, mas também mais complexo. Como tínhamos um tempo muito restrito para a TransAlp, por uma questão de agenda, precisávamos cumprir o trajeto em apenas cinco dias, então, foi fundamental contar com o apoio dos familiares.

Viajar é sempre uma oportunidade de colocar as crianças em contato com situações novas e provocativas. Uma paisagem exótica, uma língua que não entendem, uma comida inédita, rotinas e hábitos diferentes... São vivências que seriam muito abstratas ou superficiais se apenas relatadas como histórias ou vistas na TV.

Participar desta viagem apresentou novas possibilidades a eles, de forma muito natural e concreta. Mostrou que é possível viajar de trem e fazer uma expedição de bicicleta, passear na montanha e nadar num lago, viver em uma cidade que não tem carros. Afinal, as crianças aprendem com exemplos.

Para a TransAlp, nossos filhos se envolveram desde muito antes do embarque: acompanharam os treinos, os testes de equipamentos, contavam os dias no calendário. Durante o percurso, nos acompanhavam no café da manhã e nos preparativos para saída, aguardavam nossa chegada no almoço e ao fim do dia, viam nossa alegria e nosso cansaço, e ainda puderam percorrer um bom trecho junto com a gente, rebocados no nosso bike trailer, sentindo "por dentro" como é a realidade de uma expedição, a dinâmica de sair de uma cidade e chegar em outra, as paisagens que mudam a cada minuto, os equipamentos utilizados etc.

Mas mais importante que tudo: viajar em família permite estarmos juntos de um modo muito mais próximo, profundo e intenso do que é possível no dia a dia, e só por isso cada viagem é sempre muito especial! Desta forma, criamos momentos nossos, especiais e memoráveis, escrevemos nossa própria história e colecionamos vivências e recordações em conjunto.

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