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Uruguai - De Chuí a Montevidéu

Este é um roteiro plausível para qualquer cicloturista do sul do Brasil, pois é perto, totalmente plano, com boa estrutura para refeições e estadia, e ainda barato! Tudo que um cicloviajante estreante ou com pouca experiência precisa. Além do que viajar de bicicleta pelo Uruguai é uma delícia: as paisagens são incrivelmente lindas, o povo é hospitaleiro, a comida é boa e o vinho é tannat!

Revista Bicicleta por Ari Laercio Boehme
17.035 visualizações
08/01/2016
Uruguai - De Chuí a Montevidéu
Foto: Ari Laercio Boehme / Aline Maria Mafra

Começamos a preparação desta viagem um ano antes de partir. Fizemos alguns treinos para pegarmos a “manha” do cicloturismo, uma curta viagem de Floripa, onde moramos, a Itapema em dois dias, e enfrentamos a parte alta do Vale Europeu em três dias. Além disso, fazíamos vários pedais semanais com intensidade e variedade, e fomos adquirindo os equipamentos necessários para uma empreitada destas.

Em 20 de março finalmente colocamos “Thelma” e “Louise” no carro, junto com os alforjes cheios, e partimos em direção ao Chuí, fronteira do Brasil com o Uruguai, onde nosso carro ficaria em um hotel até nossa volta.

Primeiro dia - Chuí > Punta del Diablo

Saímos cedo do Chuí em direção a Punta del Diablo, nosso primeiro destino. Antes, paramos na aduana uruguaia para os trâmites de entrada no país e fomos recebidos com curiosidade pelos guardas uruguaios, que também pedalam e estavam interessados em conhecer nossas bicicletas e toda a gama de equipamentos que carregávamos. Depois da aduana, uma série de retas intermináveis nos aguardavam, o que se repetiria durante toda a viagem, até que chegamos no Forte de Santa Tereza, local de nossa primeira parada para lanche, banheiro e visita ao lugar, que aliás é lindíssimo.

Aqui vale um lembrete para quem for fazer essa viagem: sempre levar algo para um lanche no caminho. Em quase todos os trechos não havia uma lanchonete ou posto de gasolina sequer para abastecimento de água e comida. Portanto, sempre saíamos pela manhã abastecidos com sanduíches e bastante água e isotônico. No Parque de Santa Teresa há um restaurante, mas na maioria dos trechos isso não se repete, por isso é bom se prevenir.

Um dos nossos medos em relação a esta viagem era o clima que iríamos encontrar. Neste dia em Santa Teresa, avistamos ao longe nuvens muito escuras vindo em nossa direção e logo pensamos: vamos pegar aquela chuva já no primeiro dia? Apuramos o passo para então não pegarmos muita água quando nos deparamos com uma linda “avenida” dentro do parque, ladeada com palmeiras lindíssimas e pensamos: que foto! Fizemos várias tentativas, sempre olhando para o céu, e passados alguns minutos notamos que a chuva não iria nos pegar. Rumamos, então, felizes para Punta del Diablo.

Nossa primeira noite foi no Hostel de La Viuda, reservado pelo Booking e foi uma grata surpresa: ótimas instalações, pessoal e hóspedes animados de todas as partes do mundo: Canadá, Alemanha, Estados Unidos e França.

O jantar foi uma aventura. Na cozinha compartilhada haviam umas vinte pessoas cozinhando em três fogões ao mesmo tempo, panela passando pra cá, aromas vindo de lá e mesmo assim tudo dava certo.

Segundo dia - Punta del Diablo > Cabo Polônio

O destino deste dia seria o mais exótico da viagem: Cabo Polônio. Pedalamos 68 km, muitos deles sob o temido vento uruguaio, que nos dava a impressão de estar andando para trás, até chegarmos à estação rodoviária de onde partem as jardineiras que nos levariam a Cabo Polônio. 

Pensamos, ingenuamente, que poderíamos levar as bicicletas conosco, mas para nossa surpresa tivemos que deixá-las no estacionamento da estação. Foi de grande valia levar o cadeado: nossas bicicletas passariam a noite amarradas na cerca do estacionamento, sem nenhum acessório e sem os selins também, que sempre tiramos para não dar “sorte ao azar”. E partimos com o coração na mão, por ter que deixar nossa condução ali.

Cabo Polônio é um povoado cercado de dunas no litoral uruguaio e destino de turistas do mundo inteiro, que querem sentir seu astral único, sua beleza estonteante, seu pôr do sol maravilhoso. A população fixa não chega a 100 habitantes, mas na alta temporada é frequentada por mais de dois mil turistas que se hospedam em seus 35 hostels, aproximadamente. 

O povoado é um lugar lindíssimo e único, com uma atmosfera singular, sendo que só se chega lá a cavalo ou com veículos 4x4, em uma viagem de cerca de 30 minutos pelas dunas. Durante boa parte do ano ela é destino também de muitos lobos marinhos.

A nossa reserva foi no Viejo Lobo, feita através do Hostel World. Para nossa surpresa, nosso hostel era o point da noite: músicos com dois violões e mais uma gaita de boca tocando blues, em redor da lareira acesa por conta do frio da noite, para cerca de 30 pessoas que se espremiam na minúscula sala, oriundos de todos os cantos do planeta, desde japoneses até brasileiros. Fomos dormir cedo, mas a noite continuou agitada. Deitamo-nos ouvindo Djavan, que delícia!

Terceiro dia - Cabo Polônio > La Paloma

Depois de nos despedirmos do Viejo Lobo, pegamos assento na jardineira que nos levaria novamente para a estação rodoviária, com a angústia de chegar logo e ver nossas bicicletas. Para nosso alívio, estava tudo certo com elas. Arrumamos a bagagem e rumamos para La Paloma, nosso destino depois de 57 km.
Perto do meio-dia estávamos passando por La Pedreira e resolvemos entrar para conhecer, pois as indicações eram sempre favoráveis, e precisávamos providenciar o alimento. Foi na porta do pequeno supermercado de La Pedreira que encontramos, pela primeira vez, aqueles que seriam nossos companheiros de viagem pelos próximos dias: Pierrette e Roland, casal de franceses que viaja o mundo sobre uma bicicleta tandem, pelo menos dois meses por ano, há vinte anos. Animadíssimos, tentamos conversar de todas as formas possíveis, pois eles só falavam francês e nós, além do portunhol, só o inglês macarrônico! Mas no final sempre nos entendíamos. 

Neste dia tivemos nossa única surpresa negativa em relação às reservas feitas. Quando chegamos ao Serena Blues Hostel, em Playa del Arachania, estava fechado. Como ainda era cedo, rumamos para La Paloma, passamos no serviço de atendimento ao turista e fomos procurar por um hostel para a noite. Ficamos hospedados no La Balconada Hostel, na Playa de Balconada. Dormimos cedo, pois nosso próximo dia nos traria pelo menos duas incógnitas: a Laguna Rocha e no mínimo 90 quilômetros de estrada.

Quarto dia - La Paloma > Punta del Este

Neste dia teríamos um problemão caso o planejado não desse certo. Nós teríamos que pedalar 12 km até a Laguna del Rocha, encontrar uma pescadora chamada dona Olga, que poderia nos atravessar de barco a tal Laguna e então seguir viagem por mais 80 km. Caso algo desse errado, teríamos que voltar os 12 km, fazer uma volta de 30 km circundando a Laguna para depois fazer os outros 80 km restantes, ou seja, um pedal de 144 km.

A pedalada até a vila de pescadores da Laguna del Rocha foi linda, com um visual incrível. Dona Olga mora na última casa da vila, e ela foi nosso anjo do dia. Olga nasceu neste local há 65 anos e ali vive desde então, sendo pescadora de camarões. E, quando precisam, ela atravessa os ciclistas em seu pequeno barco, cobrando 100 pesos por pessoa. Em alguns períodos do ano, quando o volume de água na lagoa não é muita e a maré ajuda, dá para passar a pé pela praia. Mas neste ano a lagoa estava com bastante volume de água e a única forma de atravessarmos seria com a providencial ajuda de dona Olga (telefone 098801921). Os 30 minutos de travessia foram muito agradáveis, ouvindo suas histórias.

Seguimos viagem em um trecho de 50 km de estrada de chão até Laguna del Garzon, que atravessamos em um pequeno ferry-boat para depois rumar para a graciosa vila de José Ignácio. Após um lanche em frente ao farol, seguimos para Punta del  Este, destino final do dia, passando pela cidade de La Barra e cruzando a famosa Ponte Leonel Vieira, mais conhecida por Ponte Ondulada.

Passamos em frente a famosa escultura dos dedos no caminho de nosso hostel e paramos para uma foto. Que martírio! O local é o ponto mais frequentado de Punta, e todos querem um “recuerdo” onde apareçam sozinhos na foto: missão impossível. 

Tiramos um dia de folga em Punta para descansarmos e conhecermos a cidade. Há prédios moderníssimos e mansões, mas os restaurantes e uma boa parte das lojas ficam fechadas fora da temporada. Bem, tem o Conrad também... E só! Fomos novamente à escultura dos dedos e por lá encontramos novamente Pierrette e Roland; eles não tinham nossa dica da travessia da Laguna com a dona Olga, e tiveram que fazer os 140 km entre La Paloma e Punta. Estavam exaustos.

Quinto dia - Punta del Este > Atlântida

Saímos do nosso hostel, o Tas d’Viaje, e rumamos para a cidade de Atlântida, nosso pedal mais longo, com 107 km, e um desafio para nós, que nunca havíamos pedalado acima dos 100 km. No caminho paramos para conhecer a famosa Casa Pueblo, em Punta Balena, 14 km após Punta, uma obra majestosa do artista uruguaio Carlos Páez Vilaró, recém-falecido. Chegamos cedo demais e não conseguimos visitá-lo, pois o local só abre após as 10 horas. Então, tocamos para Piriápolis.

Em Punta tivemos o único dilema de nossa viagem: na próxima noite deveríamos pernoitar em Piriápolis, distante 45 km, ou seguir até Atlântida, mais 62 km, e chegar tranquilos em Montevidéu?

Resolvemos pela segunda opção, já que estávamos descansados, e fizemos uma reserva pelo Booking em um prédio de apartamentos que são alugados para turistas. Quando chegamos em Atlântida, depois de um dia todo pedalando sob sol intenso em um dia maravilhoso, procuramos por nosso local de estadia e quando lá chegamos, para nossa surpresa, quem encontramos? Sim, Pierrette e Roland estavam nos esperando, pois o dono do local havia lhes informado que estava esperando um casal de pedalantes brasileiros. Ê mundo pequeno esse. Foi uma festa: jantar com salada francesa e massa italiana feita por brasileiros num improviso só. Para quem quiser dar uma olhada no blog dos franceses, o link é petitouratandem.blogspot.com.br.

Sexto dia - Atlântida > Montevidéu

No dia seguinte os franceses partiram antes, pois como diziam, iríamos atropelá-los pelo caminho. Saímos uma hora depois e seguimos em nosso ritmo normal, cerca de 15 km/h. Nesta etapa viajamos pela Rota 9, rodovia uruguaia que liga Montevidéu ao Chuí, sendo bastante movimentada e monótona, algo como viajar em uma grande rodovia brasileira. Mas em nenhum momento, nem na Rota 9, nem em outra rodovia ou local do Uruguai, tivemos algum problema em relação a segurança, ou os famosos “finos educativos”. Muito pelo contrário, sempre notamos um respeito muito grande em relação às bicicletas por parte dos veículos motorizados, muitos deles inclusive nos buzinando e fazendo gestos de incentivo. Ou seja, foi uma viagem extremamente tranquila!

Após uma jornada de 55 km, chegamos a Montevidéu e paramos em um local onde há um enorme letreiro com o nome da cidade, com o centro da metrópole ao fundo. E quem encontramos saindo do local? Isso mesmo, os franceses, neste que seria nosso último encontro. Eles seguiram então para o mercado público enquanto nós seguimos à procura do que seria nosso hotel pelos próximos dois dias, pois iríamos ter mais um dia de ócio turístico antes do retorno ao Brasil.

Já na tarde deste mesmo dia fomos com as bicicletas até a estação rodoviária de Tres Cruces para agilizar as passagens de volta, comprando-as na empresa Rotas del Sol, escolhida por ter bons horários diretos para o Chuí, ônibus modernos e, principalmente, levam bicicletas em seus enormes bagageiros. As “meninas” teriam suas próprias passagens, seriam protegidas com plástico-bolha, que compraríamos em uma papelaria qualquer, para não levarem arranhões no quadro e seriam bem presas à estrutura do veículo. Ou seja: perfeito! Após resolvermos a volta ao Brasil, restava-nos conhecer Montevidéu, seus locais históricos, turísticos e, principalmente, suas famosas parillas!

E assim foram dois dias maravilhosos, caminhando, pedalando e provando a deliciosa carne uruguaia, considerada uma das melhores do mundo, sempre bem acompanhadas de uma Patrícia, uma Pilsen ou uma Zillertal, ótimas cervejas locais que são vendidas em garrafas de um litro e que dão um banho de sabor nas congêneres brasileiras.

Ao sairmos da rodoviária para o retorno ao Chuí, já estávamos com saudade de pedalar. Até ali havíamos pedalado 428 km em pouco mais de 30 horas sobre nossos selins Brooks, que cumpriram honrosamente sua função; também tivemos o cuidado de passar diariamente, antes e depois das pedaladas, uma generosa aplicação de pomada. Também neste quesito, que era um ponto que nos preocupava, foi tudo tranquilo. 

Cinco horas e meia de viagem tranquila, e chegamos à praça central da cidade de Chuy, lado uruguaio da Chuí brasileira, onde montamos nossas bikes e seguimos para o hotel onde nosso carro havia ficado. Foram ainda mais de mil quilômetros que nos esperavam no outro dia, rumo ao nosso estado natal: Santa Catarina, para encerrar nossa primeira cicloviagem internacional: Uruguai, 428 km de muita alegria! 

Resumo técnico

• Quilometragem pedalada: 428 km
• Horas pedalando: 31 h 07 min
• Altimetria total: 1.656 m
• Pneus furados: dois
• Problemas mecânicos: nenhum
• Ferramentas levadas: três câmaras reservas, dois “power links”, um pedaço de corrente, duas gancheiras, kit remendo, kit ferramentas, braçadeiras/lacres.

Mais informações em bikea2.wordpress.com

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