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Volta ao mundo - Pedalando nos centros de origem

Nicholas uniu a sua paixão por pedalar com o desejo de explorar ainda mais sua área de atuação. Formado em ecologia, ele partiu para uma volta ao mundo de bicicleta, passando por cerca de 35 países e 30 mil quilômetros em busca de informações sobre os centros de origem, conceito sistematizado pelo russo Nicolai Vavilov sobre as regiões geográficas onde os alimentos “surgiram”. Conheça um pouco mais sobre o planejamento da viagem de Nicholas, os primeiros seis dos 30 meses de viagem e alguns dados sobre a agrobiodiversidade.

Revista Bicicleta por Nicholas Allain Saraiva
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21/12/2014
Volta ao mundo - Pedalando nos centros de origem
Foto: Nicholas Allain Saraiva

bike sempre esteve presente na minha vida. Desde criança ia para cima e para baixo com os amigos do bairro, passando pelos primórdios do mountain bike com a turma de São Carlos no comecinho da década de 1990, depois usando a magrela no dia a dia da faculdade, trabalho, trilhas e uma ou outra competição. Hoje tenho 37 anos, sou formado em ecologia, escalador, montanhista e ciclista de carteirinha.

Morava em Brasília nos últimos seis anos, um lugar privilegiado para a bike, repleto de excelentes trilhas e relativamente boa de pedalar na cidade também, mas que podia ser infinitamente melhor se houvesse interesse público e mais educação no trânsito.

Parti do Brasil no dia primeiro de abril de 2013 para uma viagem de bike, com o objetivo de dar uma volta ao mundo pedalando por cerca de 30 meses, atravessando aproximadamente 35 países e 30 mil quilômetros. Comecei a viagem pela Austrália e estou agora no Laos, rumando para o norte a caminho do Vietnã, da China e do frio.

A ideia do cicloturismo veio naturalmente pela paixão que tenho pela bike desde infância. Tenho a bike como meio de transporte e locomoção urbana, esporte, saúde, catalizadora de amizades e adrenalina, ferramenta antiestresse, magnífico instrumento de contato com a natureza, inclusão social etc.

Eu já tinha feito algumas pequenas e médias viagens de cicloturismo com duração de até um mês pelo Brasil e América do Sul, mas andava meio parado nos últimos anos, me dedicando a outros esportes, projetos e ao trabalho. O sonho de dar uma volta ao mundo de bicicleta vem de longa data, mas nunca tinha tido condições concretas de realizar, seja por falta de dinheiro, por compromissos com a companheira ou pela carreira profissional, dentre outros motivos, de modo que isto foi sendo empurrado com a barriga por vários anos, mas nunca sem deixar de pensar a respeito, sem sonhar.

Há mais ou menos três anos, as condições estavam favoráveis e eu tinha de ir. Marquei a saída para janeiro de 2012, onde teria tempo à vontade para me desligar dos trabalhos e encerrar os compromissos, para planejar a viagem, organizar equipamentos e treinar. Além do desafio, queria - e ainda quero - buscar conhecimento, conhecer alguns dos lugares que povoam meu imaginário, experimentar o convívio com novas culturas, paisagens e ecossistemas, além de poder ver o mundo com os meus olhos e tirar minhas próprias impressões e conclusões a respeito dos países, povos e religiões. Considero-me muito crítico em relação às mídias e ao senso comum desta nossa sociedade adoentada, de modo que acredito que grande parte daquilo que recebemos de informação e que forma nossa opinião é distorcido e tendencioso, principalmente quando se tratam de lugares com forte carga de estereótipos, como por exemplo Oriente Médio e África, ou temas sociais como violência, conforto e segurança. Um exemplo disto que percebi nestes meses é a visão que muitas pessoas têm do Brasil. Com poucas exceções, o background se limita a futebol, favelas e carnaval. Tentei falar de Amazônia com uns gringos na Austrália e eles não tinham ideia do que eu estava falando. Fiquei pensando que no imaginário deles o Brasil é um enorme campinho de futebol, cercado de favelas e mulheres sambando o dia todo... Será que somos? 

Algumas semanas antes da partida, porém, tive um acidente sério de moto que me quebrou e tirou de circulação por um bom tempo. Os planos tiveram que ser adiados. 

Um ano depois do planejado eu estava encaixotando minhas coisas e separando tudo aquilo que seria guardado, dado ou vendido. Como não tinha onde deixar guardadas as coisas de casa por todo este tempo, me desfiz de 90% dos pertences e guardei apenas seis caixas com o que era mais importante, além da minha outra bike, uma Specialized Epic Full que eu adoro. Sei que tem aquele papo que não devemos nos apegar aos bens materiais e tudo mais, mas eu realmente adoro aquela bike, é um parque de diversões. Apertei tudo no porta-malas do carro e peguei a estrada com destino ao interior de São Paulo, onde estas coisas ficarão guardadas na casa do meu pai por alguns anos.

Após várias mudanças de local de início da viagem, resolvi começar pela Austrália para conhecer um lugar novo e também porque tenho uns bons amigos lá. Foi um bom país para aclimatar com a nova vida na estrada - amigável ao cicloturismo e com boa infraestrutura para apoio neste começo de viagem.

Agora, mais de seis meses após o início da jornada, é interessante lembrar o trabalho de desapego e desligamento durante os preparativos da expedição, desde a escolha dos poucos bens que eu iria guardar para quando voltar, até o desapego ao travesseiro em Melbourne, na última noite de sono antes de pegar o voo para a Tasmânia, onde o pedal ia começar. Acho que até aquela noite ainda não tinha caído a ficha que eu estaria a caminho de viver em cima de uma bike pelos próximos três anos, que aquele sonho antigo estava agora se materializando e que não seria nada fácil! Vinha aquela voz na cabeça dizendo: “Vai mermão, você não queria? Agora toma, vamos ver se aguenta”.

Diferente da maioria dos viajantes que relatam que largaram trabalhos estressantes ou de jovens ainda sem carreira profissional, eu adoro a minha profissão e os trabalhos desenvolvidos na Ecooideia, a cooperativa que eu trabalhava e que está apoiando o projeto - o que dificulta um pouco mais por este lado também. Por isto, pegando o gancho dos trabalhos e interesses pessoais, tenho feito durante a viagem observações e escrito a respeito da questão socioambiental e do contato da tradicionalidade com a modernidade nas zonas rurais que tenho passado. São temas hoje muito importantes que fogem ao conhecimento ou interesse da maioria dos urbanos, mas que estarão cada vez mais em voga nos próximos anos, haja vista o aumento da incidência de conflitos socioambientais, como o visto em Belo Monte, e a questão indígena no Brasil. Parafraseando um velho pescador que conheci em Juruti Velho, no interior do Pará, o mundo está ficando pequeno para tanta gente.

Muitos perguntam sobre planejamento e tenho que confessar que não tenho as coisas muito planejadas. Preparei bem toda a parte de equipamentos, peças e a bike, mas preferi deixar o tempo e a estrada guiarem quais caminhos seguir. Tenho um rumo e uma vaga noção para onde ir, que vou detalhando à medida que avanço e leio ou troco informações com outros viajantes sobre os lugares. Obviamente tenho uma lista de lugares que gostaria de conhecer, como os Himalaias, Alpes, Pirâmides do Egito, Turquia, Paquistão, Sudeste Asiático, Yosemite, mas a lista é extensa e certamente muitos deles terão que ficar para a próxima aventura. 

Tenho mantido um site (voltaaomundo.eco.br) com notícias da estrada, dicas de cicloturismo, review de equipamentos e muitas fotos legais dos lugares que estou passando. Acompanhe, divulgue, questione, pedale! 

Os centros de origem

Quando comecei a planejar a viagem novamente, depois do acidente em 2012, passei a vislumbrar a ideia de agregar algo a mais na viagem, além do pedal. Dos estudos de Vavilov sobre os centros de origem das plantas domesticadas, vi ali um bom assunto para observar e pesquisar durante a viagem.

Das leituras sobre esse tema, fui aprendendo que a conservação das variedades de sementes caboclas, nome adotado no Brasil, vai muito além da conservação biológica de um punhado de genes que estão se perdendo. A agrobiodiversidade é na verdade o resultado da interação de quatro níveis de complexidade: 

1 – os sistemas de cultivo; 
2 – a variedades das espécies; 
3 – a diversidade humana; 
4 – a diversidade cultural. 

Portanto, pensar na conservação destas variedades envolve um conjunto muito maior de elementos sociais, ambientais e culturais que interagem entre si e coevoluem desde o período neolítico. 

A razão de optar por este assunto? A resposta é simples: os dados são alarmantes. Em um século, com a industrialização e modernização da agricultura, a humanidade perdeu e vem perdendo continuamente a imensa maioria da diversidade alimentar. No México, por exemplo, centro de origem do milho, menos de 20% das variedades naturais existentes em 1930 ainda podem ser encontradas. Nos Estados Unidos, mais de 90% das frutas e vegetais plantados pelos fazendeiros no início do século XX não são mais encontrados. Na China, das mais de 10 mil variedades de arroz encontradas em 1949, menos de mil ainda existem nos campos. Na Espanha, apenas cerca de 5% das variedades de melão existentes em 1970 ainda são encontradas. Quatro das espécies altamente afetadas pela erosão genética (arroz, trigo, milho e batata) são responsáveis por cerca de 50% das calorias consumidas pela humanidade. E por aí vai.

A perda da diversidade agrícola não afeta apenas o modo de vida e a segurança alimentar das áreas rurais, mas também reduz drasticamente a capacidade da presente e futuras gerações de se adaptarem às mudanças. Diminui a diversidade para os blocos de construção para fazendeiros, criadores e biotecnologistas desenvolverem novas variedades que necessitamos continuamente.

Os Centros de Origem são regiões geográficas mais ou menos determinadas, onde os alimentos surgiram. Ou seja, a região onde em algum momento no passado da humanidade, os proto-agricultores começaram, na maioria das vezes não propositalmente, a selecionar e plantar exemplares silvestres de plantas que coletavam para consumo, e criando com o passar dos milênios, os alimentos que conhecemos atualmente.

Este conceito de que os alimentos podem ter uma origem determinada vem do início do século XX, já havia sido estudado antes, mas foi sistematizado e publicado por Nicolai Vavilov, geneticista e agricultor russo que no início daquele século percorreu o mundo pesquisando e coletando sementes de alimentos para gerar um banco de variedades viáveis para seu país, que passara sucessivas vezes por severas crises de fome e escassez de comida.

Como resultado das suas pesquisas, Vavilov propôs um mapa da distribuição dos centros de origem, das regiões no globo mais ricas em diversidade alimentar, onde os alimentos “surgiram”. Essa distribuição era composta por sete centros:

1 - Tropical: Índia e Indochina, incluindo os países do sudeste asiático - origem do arroz, banana e muitas outras frutas.

2 - Leste asiático: incluindo China, Japão, Coreia e Taiwan - origem da soja.

3 - Sudoeste asiático: incluindo Oriente Médio, Cáucaso, nordeste da Índia – origem do trigo e cevada.

4 - Mediterrâneo: incluindo todos os países da costa mediterrânea – origem da oliva, vários legumes e verduras.

5 - Abissínia: nordeste da África, incluindo Egito, Etiópia e Sudão – origem do café.

6 - América Central: incluindo uma porção sul da América do Norte – origem do milho, tomate e feijão.

7 - Centro Andino: origem da batata e quinoa.

A ideia então passou a ser percorrer todos estes locais com o olhar voltado a observar questões que envolvem a conservação da agrobiodiversidade, das variedades caboclas, além de conversar e obter informações locais, seja com agricultores, onde o idioma permitir, seja com especialistas, pesquisadores e instituições em geral. Pedalar muito, conhecer as culturas, fazer amizades, comer de tudo que tiver de bom e de esquisito por ai e produzir relatórios são alguns dos objetivos da viagem.

Parti da Austrália também por não ser um dos centros de origem, dessa forma eu ganharia mais um tempo para amadurecer a ideia do que fazer de verdade, pois na teoria a ideia é linda, mas na prática me sinto perdido do que fazer em campo.

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