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Volta ao Mundo: Rússia

Depois de um ano e meio de pedal, Nicholas chega à Rússia, com sua gente surpreendentemente acolhedora. Um novo cenário se apresenta no continente europeu, não sem antes algumas doses de adrenalina com a polícia russa!

Revista Bicicleta por Nicholas Allain Saraiva
35.354 visualizações
06/12/2014
Volta ao Mundo: Rússia
Foto: Nicholas Allain Saraiva

A primeira coisa a dizer sobre a Rússia é que foi surpreendente. Eu não imaginava um povo tão receptivo e hospitaleiro, o qual nestes aspectos superou todos os outros até agora. Em 13 dias no país, dormi na casa de pessoas que conheci aleatoriamente nas ruas e em um hotel que não quis me cobrar. Restaurantes e vendas também não aceitaram meu pagamento. Isto sem contar a loja de bike em Gronzy, capital da Chechênia, onde parei para uma pequena revisão e fizeram um excelente serviço: também sem cobrar nada! Neste um ano e meio na estrada, tem sido comum ser bem recebido e cumprimentado nas ruas por conta da bicicleta que naturalmente atrai a empatia das pessoas, mas desta maneira nunca tinha acontecido.

Poucos antes de entrar na Rússia, no dia 21 de maio, estive na cidade de Atyrau no oeste do Cazaquistão onde cruzei o rio Ural, que é o marco que delimita a fronteira entre a Ásia e Europa. Portanto, desde este dia já estou pedalando no continente europeu! Eu preparei um texto resumido só sobre a Ásia, que está publicado no meu site: www.voltaaomundo.eco.br

A Rússia é gigante e eu atravessei apenas um pequeno trecho de 850 km no sul do país, vindo do Cazaquistão e a caminho do Cáucaso. A fronteira em Astracã é marcada pelo lindo delta do rio Volga, onde depois de 30 duros dias de deserto pude rever verde, água e sombra. Como fiquei feliz por poder fazer algo tão elementar: descansar na sombra, curtindo como se fosse um artigo de luxo.

Pedalar no deserto foi uma experiência única, mas que não quero repetir tão cedo: regular a água, vento constante, calor de 40 graus, dormir imundo de suor com areia, acordar às sete da manhã com o sol fritando e não ver sombra até as nove da noite foi dureza. Mas em compensação vi alguns dos pores do sol mais lindos da minha vida e nasceres do sol fantásticos que fizeram valer todo o perrengue.

Infelizmente, logo depois que terminou o delta - cerca de 220 km - o deserto voltou com força total e nesta etapa confesso que fiquei desanimado, pois já não aguentava mais aquele ambiente, o calor infernal, o vento contra, as estradas sempre esburacadas, enfim, todas as condições desfavoráveis. Foram alguns dias de moral em baixa, pedalando por pedalar, sem prazer, sem vontade, só passando os dias e ganhando terreno.

O auge foi o caminho para Artezian, uma pequena cidade encravada no meio do deserto que tem uma rua asfaltada e ruas laterais de terra. O caminho pra lá foi terrível, eu calculei mal a água e acabou faltando uns 45 km, pois o GPS mostrava uma cidade que não existia, mas não tinha nada no caminho, absolutamente nada, só poeira e vento contra. Chegando em Artezian me hospedei no hotel da cidade onde tomei um banhão, dormi até tarde e o dia seguinte foi uma mudança incrível. O vento naquele dia cessou e cerca de 60 km depois a paisagem começou a mudar, com árvores, um verdinho, uma pequena floresta, até que cheguei em Kizlyar, que foi como atravessar a fronteira para o paraíso! Uns jovens nadando no rio, muita sombra e ruas arborizadas com plantas frutíferas carregadas: amoras, pêssegos, maçãs, uvas e outras frutinhas.

Descobri depois que esta é a fronteira do conhecido Cáucaso, historicamente palco de inúmeras guerras, as mais recentes na década de 1990, pela separação das províncias de Daguestão e da Chechênia. Não sou etnógrafo nem especialista, mas é evidente que se tratam de povos diferentes dos russos: eles tem hábitos diferentes, falam outros idiomas, são fisicamente distintos, cultuam outra religião - são muçulmanos, ao passo que a Rússia é oficialmente cristã, e o mais importante, eles se identificam como outros países.

Depois de uma memorável passagem por Kizlyar segui até a vila Krayanovka para conhecer o Mar Cáspio, que na verdade é um enorme lago no centro do continente. No caminho, parei numa vendinha e acabei sendo convidado para almoçar na casa da família da linda vendedora, onde além de uma ótima refeição, acabei passando parte da tarde ajudando a construírem uns tamboretes de madeira e tentando me comunicar com o povo.

Depois de Kizlyar, foram dois dias de pedal por uma região agradável até chegar em Grozny. No caminho comprei mel de um produtor que tem suas colmeias em um ônibus, onde faz rodízio pelos campos da região, prática comum ali. No final do primeiro dia começou a aparecer no horizonte o contorno de montanhas e no segundo dia cheguei ao primeiro lance de subida. É parte da cadeia do Cáucaso, onde a mais famosa montanha é o Elbrus, a mais alta da Europa, a uns 200 km de onde eu estava.

Enfim, depois de 42 dias e 3.300 km de deslocamento nas planícies, voltei ao domínio das montanhas. Lembrei-me da foto que tirei no Quirguistão das últimas colinas antes de mergulhar no plano, olhando para trás e vendo aquele plano sem fim sumindo no horizonte... Foi emocionante. Foi um período intenso, dos mais puxados desde o começo da viagem, pedal forte todos os dias, quase sem descanso. Puxado, mas me sentia ótimo, moral alta, forte e disposto a ganhar as estradas do lindo Cáucaso.

A partir de Grozny foi evidente o clima de tensão no ar, com a presença constante de barreiras policiais, sempre bem guardadas por polícia e exército. Tanques de guerra e trincheiras em entroncamentos de rodovias, pessoas armadas para todo lado, inclusive civis.

Foi ali que ocorreu a pior situação da viagem. Estava pedalando numa pequena rodovia secundária quando três homens em um carro me fizeram sinal para eu parar, mas como não tinham nenhuma identificação, não parei. Os caras ficaram me seguindo e um deles apontou uma arma pra mim e me mandou parar. Seguiu um bate-boca e não parei. Finalmente, perto de um cruzamento na estrada eles param o carro na minha frente. Um deles saltou e me derrubou da bike, "educadamente", com uma arma apontada para a minha cara, solicitando meus documentos. Eram policiais à paisana. Fiquei furioso e não parava de reclamar da forma abusiva que me abordaram. Outros policiais que chegaram mandaram aqueles primeiros irem embora e acalmaram a situação. Pediram desculpas e segui viagem, mas acabou com meu dia, fiquei na “paranoia” por uns dias e só pensava em sair daquela região.

Em dois dias cheguei a uma cidade chamada Vladkavkaz, que foi outra ótima surpresa. Era 16 h e minha intenção seria seguir direto para a fronteira da Geórgia, a 30 km de lá, mas decidi ficar na cidade, pois gostei dela e achei que valia uma explorada com calma. Enfim, rodei um pouco a procura de hotel barato e nada de encontrar, até que parei num ponto de táxi para pedir informação e um taxista acabou me convidando para ficar na casa dele. Um senhor de uns quarenta e poucos anos, russo de ascendência da Geórgia, gente fina e que arranhava um pouco de inglês. Na manhã seguinte, a mãe dele, uma senhorinha simpática, fez um prato típico da Geórgia chamado khinkali, um tipo de dumpling. Tirei umas fotos com a família e saí às nove da manhã. Antes de deixar a cidade rodei um pouco pelos parques e monumentos, tirei fotos e segui viagem montanha acima. Perto do meio-dia estava na fronteira, no espetacular cânion de Larsi, feliz da vida por entrar na Geórgia, nitidamente outro clima e já no domínio das montanhas.

 

A Volta ao Mundo de Nicholas até agora: da Austrália à Rússia

Antes de 2012: Nicholas começou a planejar o sonho de dar uma volta ao mundo de bicicleta.

Janeiro de 2012: A data para a partida estava marcada para janeiro de 2012, mas um acidente de moto adiou os planos.

Abril de 2013: Finalmente, partiu do Brasil para a Austrália, onde chegou com a missão de voltar para casa pedalando!

Junho a outubro de 2013: Cinco meses pedalando pelo Sudeste Asiático, desde o sul da Malásia até o norte do Vietnam.

Novembro de 2013: Em um mês, alternando trechos de bike e trem, Nicholas visitou o bucólico Carste do Sul, a gigante hidroelétrica de Três Gargantas, a antiquíssima cidade de Xi’na e a Grande Muralha, todos pontos turísticos da China.

Dezembro de 2013 a março de 2014: Três meses e meio de inverno no Nepal, entre pedaladas para conhecer o país e trabalho voluntário na Maya School.

Março de 2014: Saindo da Índia, alguns perrengues para conseguir os vistos fizeram os planos da viagem mudar um pouco: de avião, seguiu para o Quirguistão.

Abril a maio de 2014: Uma nova Ásia Central de apresenta no Quirguistão e Cazaquistão.

Maio a junho de 2014: Pedalada pela Rússia e entrada no continente europeu.

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