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Vou até a Dina e já volto

A sensação de liberdade é extremamente flexível e diferente para cada um de nós, podendo se alterar de acordo com o momento ou situação que vivemos. Queria experimentar uma sensação de liberdade que sempre martelou minha cabeça: escolher um país qualquer, colocar a bicicleta no avião, montá-la no aeroporto de destino e sair pedalando livremente. Foi exatamente isso que fiz em julho de 2014. O país escolhido foi a Dinamarca e a experiência, excepcional, detalho a seguir…

Revista Bicicleta por Carlos Eduardo Bonfante
3.452 visualizações
24/09/2015
Vou até a Dina e já volto
Foto: Carlos Eduardo Bonfante

Sentado confortavelmente em uma poltrona vermelha, situada bem no meio do avião, do meu lado esquerdo uma janela de possibilidades me despertava por alguns segundos. Do meu lado direito, um moleque ultra master energizado me espetava por todos os outros segundos restantes. Sua mãe, uma jovem dinamarquesa, sentada duas poltronas ao lado da minha, compensou seu desconforto pelo filho hiperativo, deixando várias dicas sobre o país. E no final, despediu-se com uma pergunta que travei a língua para responder: “Why Dinmark?”. Não tenho uma resposta certa para essa escolha.

Poderia ter escolhido a Noruega, que possui um litoral recortado por fiordes magníficos. Talvez a Suécia, país das loiras lindas e da famosa aurora boreal na região da Lapônia. Mas o X marcado no mapa, exatamente em cima deste pequeno país viking, surgiu definitivo após eu ler um artigo sobre os mais de 460 km de estrutura cicloviária existentes em Copenhague e toda a base cultural que sustenta a bicicleta como um meio de transporte nacional.

Não me preocupei tanto com planejamentos, roteiros e logística. Relaxei nestes pontos, pois as características do país me deixaram seguros para colocar em prática a sensação de liberdade que queria experimentar. A Dinamarca é um país perfeito para realizar uma viagem cicloturística internacional light e segura.

Depois de 40 minutos pós-pouso, carimbo ilustrando o passaporte, lá vem o rapaz em seu carrinho amarelo, trazendo a big caixa com a magrela.

Arrumei um espaço por ali mesmo, no setor das bagagens, e fui desembalando tudo e montando a bike sem correria. Uma hora e meia nessa tarefa, frio na barriga tomando a dianteira, chuvisco caindo no “cabeço”, respirei fundo e iniciei meu pedal por Copenhague. Segui sem GPS, sem mapa, sem Google Maps, sem internet … Meu celular é daqueles que só “falam”. Minhas referências eram estações de metrô e trem que deveriam estar ao longo do caminho até meu primeiro destino (casa da Lene – via AirBnB).

Copenhague, a cidade das bicicletas, assim como toda a Dinamarca, é plana. Para se ter ideia, os dois pontos mais altos do país estão a 171 (Ejer Baunehoj) e 173 (Yding Skovhoj) metros acima do nível do mar. Não dá para esperar cachoeiras monumentais ou fiordes como os da Noruega. Mas não faltam belezas naturais para explorar.

Comprei um mapa completo, com detalhes dos campings, trilhas e ciclovias. Perdi no terceiro dia de viagem. O cadeado da bike perdeu-se no quinto dia. A bandeira do Brasil que ia presa, mas não tão presa, na parte de trás, sumiu no décimo dia. Não repus nenhum item. Escolhia a direção que iria seguir nos primeiros 10 segundos após acordar. Contei, obviamente, com o fato das cidades ou vilas serem próximas umas das outras. Não há quilômetros e quilômetros quadrados de espaços vazios na Dinamarca.

Além disso, o país inteiro é recortado por ciclovias. Existem as regionais, as nacionais, algumas antigas, traçadas originalmente para uso militar. Elas, ora se misturam com trilhas dentro de reservas e parques, ora margeiam estradas, ora entram em cidades, costeiam o litoral, sobem calçadas (respeitando o espaço dos pedestres), são utilizadas tranquilamente por cadeirantes, por aqueles carrinhos elétricos e, também, por ciclistas. Enfim, a cultura institucionalizada da bike abraça a todos, independentemente do tamanho, da idade ou do formato.

No final, o roteiro que acabei fazendo se resumiu a um círculo que passou por quase todas as grandes regiões que compõem o país: Zealand, Jutland e Fyn. Foram 20 dias de trip, 1.312 km pedalados e três trechos feitos em balsa, além de um último e pequeno trajeto feito de buzunga + trem. 

Camping selvagem

Na Dinamarca, o camping selvagem não é liberado. Não dá para jogar a barraca na areia e ficar uma semana por ali. Mas, respeitando uma distância de 50 metros de qualquer construção e limitando a permanência a pernoites, é possível fazer um camping free-wild. Por outro lado, não faltam opções espalhadas por todos os lados: existem os campings comerciais (70 à 120 kroner – R$ 30,00 à R$ 50,00 na época), as áreas chamadas de “primitive camp site” e também as áreas chamadas de “free camp site”.

Eu resolvi arriscar a parada selvagem (respeitando as regras do país) e os abrigos que encontrei no meio das matas e reservas. Arrisquei, apenas uma vez na viagem, um pernoite na areia da praia. Mas foi uma noite maldita por conta do frio.

Nos campings, pagando 5 kroner ganha-se 10 minutos de água quente para um banho completo. Para os apertos intestinais e outras higienes, o acesso aos banheiros destes campings é bem tranquilo e sem restrições. Tentei tomar um banho de mar… Vixi!!! O duro é que encontrei várias gurias, em locais diferentes, curtindo a água como se ela estivesse morninha.

Mas e “água de beber camará”?

Pensei em carregar alguns litros na magrela e seguir abastecendo em casas e locais habitados. Só que isso não foi um problema. Bastava encontrar uma torneira pelo caminho. Poderia ser da pia do banheiro público, da loja de conveniência, do posto… não importava.

O país possui um sistema de distribuição de água potável altamente qualificado e eficiente. Significa que em qualquer torneira há água pronta para o consumo.

Clima

Apesar das chuvas serem abundantes ao longo do ano, só encarei dois dias inteiros de pancadaria. No resto, sol a pino e vento, vento e muito vento. Quem já pedalou com vento contra por dias seguidos, conhece o tamanho da paciência e força de vontade necessários para seguir em frente.

Encarei uma dessas situações no noroeste de Zutland, na região conhecida como “Cold Hawaii”, área onde rola solta a prática de kite, surf e wind.

Não saberia dizer a velocidade que eles podem chegar. Mas pense em alguém em frente à bike, segurando o guidão e impedindo você de sair do lugar.

O objetivo era cruzar uma ponte que liga a ilha de Mors à Sallingsund. Tentei algumas vezes no pedal, mas a impressão era de que uma hora ou outra iria receber um tapa no “cabeço” e voar lá de cima da ponte. A travessia só rolou mesmo quando empurrei a danada.

“Família vende tudo”

Por conta das distâncias curtas, fazia a feira a cada dois dias, gastando em média 120,00 kroner (+/- R$ 60,00 na época). Me abastecia de frutas, cereais, pão integral, legumes e uma mistura mais calórica para a janta, a qual, normalmente, rendia para o almoço do dia seguinte. Podendo investir, vale a dica…

Nessa viagem, resolvi testar um fogareiro “ecológico” que adquiri um tempo atrás. O sistema dele é muito interessante. Além de gerar uma ótima potência de fogo, através de um ventilador que carrega o oxigênio para dentro do box de combustão, ele capta parte do calor (CO2) produzido, transformando-o em energia para carregar as baterias internas do sistema. Aí, é só conectar a tralha digital e relaxar enquanto a batata cozinha. Funciona que é uma beleza! Mais informações no site biolitestove.com.

Agora, imagine uma barraquinha no meio da estrada, ao lado de alguma plantação ou mesmo de alguma casa, com frutas, legumes ou objetos “família vende tudo”. Ninguém por perto, nenhuma placa “você está sendo filmado”. Somente um papelão com o preço escrito à mão e mais nada. Você escolhe o que precisa e deixa a grana em uma caixinha… Surreal para mim!

Foi em uma destas plantações que conheci os melhores morangos da minha vida. Além de serem gigantes e suculentos, tive a oportunidade de colhê-los e comê-los na mesma hora. Neste local, você pega a sua caixinha vazia e vai colher direto no pé. Ninguém fica na monitoria verificando se você pega um e come dois ou se coloca um na caixinha e dois no bolso.

Perguntei para a dona: “e se alguém pegar mais do que pagou ou mesmo estragar as mudas?”, e a resposta óbvia: “E por que alguém faria isso?”.

Cicloviajantes

Encontrei muitos cicloturistas pelo caminho. No primeiro dia, já topei com uma holandesa que fazia o caminho inverso ao meu. Depois veio uma turma de ingleses, um casal de espanhóis, mais holandeses, um alemão e dinamarqueses.

Um senhor, em especial, com seus 74 anos de muita jovialidade, me deu a honra de escutar suas histórias e aventuras. Ficamos um tempão, despreocupados com o tempo, trocando figurinhas como amigos de longa data. O rapaz sai de sua casa todo o ano, lá no sul de Jutland e, sozinho, pedala por duas semanas ao redor do país.

Acessórios

Resolvi testar os alforjes Saikoski. Esse fabricante nacional mandou super bem na confecção. Além de impermeáveis, possuem costuras bem feitas e um engate muito prático. Um ótimo custo benefício.
Agora, se a grana tá braba e a trip é curta como a minha, aprendi que vale a pena investir em um jogo de pneus novos e bons e uma corrente nova. Isso dá um sossego danado na saúde da relação da bike e na chatice de remendar furos.

Mas, por outro lado, foi exatamente um furo em meu pneu traseiro que reforçou a impressão positiva que absorvi da viagem. Ganhei esse furo no meio do nada. Ou melhor, próximo a uma casinha no meio do nada. Na frente, um senhor cortava a grama com a sua filha. Resolvi empurrar a bike até eles: 

“Boa tarde. Tem algum posto por perto ou um mercado?”. 
“Furou o pneu?”
“Não sei ainda. Talvez só murchou por conta do bico que está com problema”.
Após 10 segundos de silêncio:
“Vamos até minha garagem …Tenho bomba de ar para testarmos”.

E depois disso, apareceram duas latinhas geladíssimas de cerveja, caixa de ferramentas, remendo e muito papo sobre futebol. Camarada simplesmente parou o que estava fazendo para me dar atenção, me deixou entrar em sua casa, tomar uma bebida, usar suas ferramentas, usar o seu remendo … Tudo na boa vontade.

Sei que a bicicleta recheada de malas desperta interesse e curiosidade nas pessoas e, talvez, motive gestos como este. Mas essa gentileza sincera e sem segundas intenções me acompanhou durante toda a viagem.

Mais gentilezas

Era comum, pelo fato de não seguir mapas e sim referências, chegar em algum cruzamento e parar com cara de “ué”, tentando adivinhar o caminho correto.

Em uma destas vezes, um carro para ao meu lado, desce o vidro e, de dentro, uma mulher com um sorriso me pergunta se preciso de ajuda. Explico rapidamente minhas dúvidas e ela me pede para esperar. Estaciona o carro logo à frente, desce e, com celular em mãos e toda a calma do mundo, acessa o mapa da região e me auxilia com as referências.

Em outra ocasião, ao invés de uma mulher com sorriso, desce um camarada sem sorriso, sem falar muito bem inglês e também sem celular, mas com a mesma calma e atenção para, de alguma maneira, me explicar como chegar no próximo destino.

Então eu pergunto: Dinamarca, onde estão os cachorros de rua? Não tem … Por lá, cachorro tem dono, tem casa, recebe cuidados, atenção e respeito. Não é utopia!

Não descobri se sempre foi assim ou se é algo recente, mas a resposta mais significativa que recebi veio de um camarada que conheci em Aarhus. “Marmeno” ele me falou isso: “Cachorro na rua? Não, imagine! Seria muito triste para ele viver sozinho”. Ok. Os caras não são perfeitos. Os gatos são criados soltos e encontrei vários esturricados nas estradas. Também passei por algumas fazendas de criação de porcos que seguem o modelo de criação em jaulas.

Educação e segurança

De qualquer forma, penso que na educação escolar básica dos dinamarqueses exista uma preocupação real e efetiva em colocar na cabeça da “mulecada” noções de cidadania, ética, moral e civilidade.

E por conta de todas essas qualidades, a segurança não poderia deixar de ser notável. Obviamente que em cidades como Copenhague, roubos e furtos acontecem. Até mesmo na pequena Aarhus, outra cidade movimentada e bacana para conhecer, rolam os espertões.

Mas é infinitamente distante de nossa percepção de violência. Rodei praticamente toda a trip sem cadeado. Entrava no mercado, perdia 30 minutos lá dentro e a bike sempre armada e encostada em algum muro do lado de fora.

O papo nas estradas também é outro. Carros, caminhões, ônibus, qualquer veículo motorizado, ao realizar uma ultrapassagem, mantêm uma boa distância da bike. Se não for possível ultrapassar em determinado trecho, eles aguardam a melhor oportunidade, seguindo atrás de você e na sua velocidade. E, detalhe, não buzinam em suas costas, não colocam sua mãe na história, nem uma fechadinha no final para dar o troco.
Do lado do ciclista, espera-se o cumprimento de algumas regras. Por exemplo: gesticular com os braços para indicar paradas ou mudanças de direção. Detalhe, o uso do capacete não é obrigatório.

Cadê as tretas desse povo?

Ok… Mas fala sério! Nem bêbado lhe enche o saco… Quando pedalei, anos atrás, em outra viagem cicloturística, recebi até vassourada da “mulecada”.

Talvez, o maior pecado da Dinamarca é ser um país caro para nós, brazucas. Mas um pedal deste tipo, com autonomia para cozinhar o próprio rango e “barracar” fora dos campings, permite economizar e conhecer o país.

No final, sei que não estive nos principais museus, castelos, igrejas ou outros sights da Dina … Nem baladei por aí, apesar de me arrepender por não conhecer Sunday, baladinha bacana em Copen.
Por outro lado, fiz o que realmente gosto: dormir ao relento, na praia, sob as estrelas, em noites cheias de significados e sons, na companhia de bichos, no meio das vacas, dormir observando e sendo observado. Conhecer pessoas comuns e interessantes. Interagir com a rotina dos locais. Brindar sorrisos com um grupo de senhores dinamarqueses, sentado ao redor de uma fogueira e segurando minha caneca improvisada de chá.

Dinamarca foi uma vivência de gentilezas. Não poderia me sentir de outra forma, a não ser surpreso e agradecido. Surpreso, pois não vejo isto em minha rotina paulistana. Agradecido, pois a escolha deste país foi perfeita e me proporcionou uma grande aula de cidadania. 

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